Crítica | Evil Dead – A Morte do Demônio (1981)

Caro leitor: vamos combinar que Evil Dead – A Morte do Demônio é um filme irregular e muito excessivo? Através deste pacto podemos seguir com a nossa crítica justificando os motivos que levam esta produção a alcançar uma avaliação um tanto “estrelada”. Nojento, grotesco e exagerado. Estas são algumas das alcunhas para uma das histórias de horror mais famosas do cinema relativamente “atual”, haja vista que a produção é de 1981 e o gênero atravessou por mudanças de estilo e vanguardas ao longo de três décadas.

Cheio de referências na cultura pop, A Morte do Demônio é um marco na carreira de Sam Raimi e de Bruce Campbell, parceiros que atuam juntos desde a década de 1980 e conseguiram provar a longevidade do ritual sanguinário que desenvolveram na franquia que hoje possui uma série de TV bem sucedida e com segunda temporada já garantida para 2016.

A história é simples: cinco jovens se juntam para passar um final de semana em uma cabana isolada numa arbórea zona do Tennessee. Chegando ao local, encontram um misterioso livro abandonado. Sem saber que se trata do Livro dos Mortos, uma obra encadernada em pele humana e escrita com sangue, os curiosos jovens exploram ao máximo o livro, material que possui um gravador como complemento. Ao tocá-lo, associado ao manuseio do assustador livro, despertam a fúria de forças demoníacas que habitam a floresta. O que seria um passeio idílico e romântico se transforma num terrível pesadelo para todos.

Ash (Bruce Campbell) é o líder do grupo, personagem que vai sofrer “os diabos” com a perturbação orquestrada pela presença demoníaca na floresta. Há um estupro protagonizado por uma árvore, corpos dilacerados, pus e sangue servidos numa espécie de coquetel visual para o espectador, além de cenas grotescas talvez nunca exibidas anteriormente no cinema.

Se há algo interessante para destacar é a estrutura do filme. Se você mergulhar na obra numa perspectiva histórica, pode fruir de uma boa sessão. A câmera que ziguezagueia a floresta, numa ótica subjetiva, é um dos melhores pontos técnicos do filme. A trilha sonora é bem executada, adentrando nos momentos certos, graças ao bom trabalho de montagem. Ao aderir o estilo explicito, o filme deixa de lado qualquer sugestão para representar a dor física e a presença sobrenatural da maneira mais violentamente gráfica possível. Cheio de referências literárias, como por exemplo, o Necronomicon, de H.P. Lovecraft, A Morte do Demônio é uma produção realizada com parcos recursos e por estudantes ainda tateando a linguagem e a indústria cinematográfica.

A celeuma em torno do nome do filme, entretanto, é um problema. A produção bem que poderia se chamar “Mortos malignos” ou algo do tipo, mas os distribuidores nacionais lançaram como A Morte do Demônio, mas nos cinemas como Uma Noite Alucinante – Parte 1, numa demonstração que nem sempre a busca pelo título ideal é uma aposta publicitária para agregar maior público. Casos assim são prova da estupidez de alguns envolvidos neste processo.

Com 81 minutos de duração, A Morte do Demônio nunca foi um grande filme. A polêmica que gravita em torno da obra é bem mais interessante que o produto em si, entretanto, não podemos deixar de lado a sua contribuição para a história dos filmes de terror, tamanha as ressonâncias em outras obras ao longo do tempo, bem como a inspiração por um movimento de cineastas que sentiam a possibilidade de produzir além dos estúdios.

Hoje pode não assustar e causar risos por parte do público atual, mas também, vamos aos fatos: as gerações atuais cresceram assistindo aos horrores explícitos de Jogos Mortais, O Albergue, A Centopeia Humana e dos remakes dos medalhões dos anos 1970-1980. O que nos causava medo na infância hoje provoca, em alguns momentos, frouxos risos. Arrisco, inclusive, a afirmar que A Morte do Demônio, de certa forma, envelheceu, mas como material de referência e resgate histórico da história dos filmes de horror, assumo, é valioso como uma pedra preciosa.

Evil Dead – A Morte do Demônio (Evil Dead) – Estados Unidos. 1981.
Direção: Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi
Elenco: Bruce Campbell, Ellen Sandweiss, Richard DeManincor, Theresa Tilly, Betsy Baker
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.