Crítica | Evil Dead – A Morte do Demônio (2013)

Evil Dead (2013)

estrelas 1,5

Camisetas, canecas, HQS, série televisiva e outros produtos de ordem derivada. Eis o panorama de Evil Dead, uma das franquias mais bem sucedidas da história do cinema recente. O primeiro filme, lançado em 1981, foi uma produção de baixo orçamento que lucrou mais de U$90 milhões. Tendo como base um curta intitulado “Within in Woods”, de 1978, A Morte do Demônio chocou plateias e ficou marcado para sempre na memória do cinema.

Por falar em memória, a indústria cinematográfica, sempre interessada em resgatar filmes que fizeram sucesso no passado, tendo em mira a desculpa esfarrapada de atualizar as produções para o público contemporâneo (sendo que sabemos que a questão financeira é o alvo principal na condição de produção das refilmagens), demorou de trazer à tona a releitura para o filme protagonizado por Bruce Campbell em 1981.

Em alguns casos, estas refilmagens funcionam, em outros causam mais polêmica que qualidade fílmica, fazendo o filme vender mais pelo “caos” midiático do que por seus méritos narrativos. Em poucos casos, entretanto, a refilmagem consegue se adequar perfeitamente ao contexto contemporâneo.  A Morte do Demônio se encaixa no segundo tópico. Não funciona como uma boa narrativa, tampouco se adequa perfeitamente ao contexto atual. A produção aposta no sangue derramado e na violência, mas isso não é novidade alguma em um mundo de albergues e jogos dolorosos e mortais.

A premissa do filme é a crise de Mia (Jane Levy), uma garota viciada em drogas. Ela é levada para uma cabana na floresta pelos amigos Olivia (Jessica Lucas) e Eric (Lou Taylor Pucci). O interesse dos amigos é a desintoxicação da garota. Para ajudar no processo, David (Shiloh Fernandéz) decide ir ao local, juntamente com a sua namorada Natalia (Elizabeth Blackmore). Há alguns anos que Mia e David não se falam, afastados por problemas familiares.

Mais adiante eles descobrem que na cabana da floresta há animais mortos no sótão, bem como outros itens grotescos, entre eles, um livro misterioso. Eric, o mais curioso, leva o livro para o centro da cabana e começa a ler as suas passagens em voz alta. Com isso, desperta forças malignas que vão dizimar, um a um, através de tomadas violentas e com litros de sangue que superam todos os episódios das franquias A Hora do Pesadelo, Halloween, Pânico e Sexta-Feira 13. Há uma cena inicial quase descartável, utilizada como estabelecimento do macabro no filme, deslocada da premissa de Mia e dos seus amigos, mas concatenada com o filme de forma geral.

O que mais torna A Morte do Demônio interessante é a alegoria pouco aproveitada entre abstinência das drogas e a possessão demoníaca. O que vemos em cena pode ser interpretado como alucinações de um personagem? Sim. De acordo com os pressupostos da estética da recepção, a análise contextual e extra diegética é algo coerente no processo interpretativo, pois reflete o filme além das suas estruturas internas.

O que houve com os olhos dela?” Essa é uma das referências ao texto do filme que serve como ponto de partida. Mesmo sem os recursos tecnológicos disponíveis na contemporaneidade, o primeiro filme é muito mais impactante na primeira cena de demonstração da condição possuída de mocinha. O que vemos nesta refilmagem é o exibicionismo do diretor, um cineasta guiado por um dos seus mestres, Sam Raimi, tendo Bruce Campbell, herói da trilogia Evil Dead, como produtor e espécie de consultor. Prometo, entretanto, não traçar mais nenhuma comparação com o filme “original”, haja vista que esse exercício torna a análise míope. São filmes diferentes, de contextos diferentes, para talvez, públicos distintos.

É possível pensar que se não fosse vendido pelos produtores como refilmagem, esse A Morte do Demônio poderia ser considerado como mais uma continuação, tirando o status de trilogia da franquia. Desta vez, esqueça todo o humor ou qualquer alívio cômico. A única brincadeira do roteiro é com as iniciais dos nomes dos personagens. Repare que David, Eric, Mia, Olivia e Natalia podem formar um jogo com a palavra DEMON. Pronto. Essa é a única piadinha do filme que se mantém firme em um tom de seriedade e escolhe apenas o gore e o macabro como adornos para a narrativa.

No que tange aos aspectos técnicos, A Morte do Demônio é um primor em dois quesitos: os enquadramentos e a iluminação. O zenital eficiente de abertura apresenta o carro ziguezagueando a estrada que corta o bosque e demonstra uma eficiência narrativa primorosa. É o preâmbulo para os horrores que “o maior filmes de terror que você verá em sua vida” promete ao espectador.

A iluminação, também eficiente, demonstra que com o jogo de luzes e sombras certo, a narrativa ganha mais sofisticação e vigor. Pena que a promessa de filme mais assustador não se cumpre, e os enquadramentos e a iluminação tornam o filme apenas visualmente bonito, em detrimento do seu roteiro que perde vigor ao tentar chocar com muito sangue e esquartejamentos. Outro problema é tudo extremamente explicadinho, como se não fossemos capazes de interpretar, traçar os caminhos das elipses e compreender certas coisas que não precisam de explicitação. Cabe ressaltar que o acompanhamento musical assinado por Roque Baños não apresenta nenhuma novidade, bem como a edição de Bryan Shaw, eficiente e feita sob medida para a narrativa de 92 minutos.

Há referências à clássicos do gênero, como por exemplo, O Exorcista. No que diz respeito aos aspectos externos, a publicidade do filme é um caso que rende boa análise. Parte da decepção está no fato da inclusão de TODAS, eu digo TODAS as cenas ditas “chocantes” do filme no trailer de pouco mais de 120 segundos, exibido exaustivamente nos cinemas na época, bem como compartilhado nas redes sociais.

Ao assistir A Morte do Demônio, o que parecia ser novidade, ou seja, a forma como os membros seriam decepados e algumas atrocidades por ordem do “tinhoso” deixaram de ser interessantes a partir das imagens já explicitadas em teasers e trailers. Mas nem todos os aspectos de ordem publicitária foram lastimáveis. A divulgação do filme na seção de obituários de alguns jornais europeus foi uma tática extremamente criativa. Sugestão? Guardar a criatividade para a obra em si, pois o que mais faltou nesta refilmagem foi uma adaptação mais interessante para o contexto contemporâneo.

Peço licença, ao final, para retomar duas questões. Uma é a alegoria das drogas e a outra é a comparação com o filme de 1981. Se o vício de Mia fosse mais bem aproveitado, a narrativa seria um excelente material para análise sociológica, ganhando público mais amplo que os aficionados pela violência. Já no quesito comparativo, seria demais trazer a “noite eterna” e os conflitos com o tempo para a versão 2013? Não. Não seria, mas como nos revela o conceito de crítica, devemos avaliar o filme pelo que ele é e não pelo que poderia ser.

Dessa forma, termino a reflexão com um tom de lamento, haja vista que num campo cinematográfico cheio de refilmagens irregulares, A Morte do Demônio poderia ter feito toda a diferença, principalmente por ter sido produzida pelos realizadores do filme ponto de partida, entretanto, como diz o ditado popular da juventude, “aceita que dói menos”.  

Evil Dead – A Morte do Demônio (Evil Dead) – Estados Unidos. 2013.
Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez e Rodo Sayagues, baseados no argumento de Sam Raimi
Elenco: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Taylor Pucci, Jessica Lucas, Elizabeth Blackmore
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.