Crítica | Excalibur (1981)

estrelas 4,5

As lendas arturianas são fascinantes e certamente esse fascínio que o Rei Arthur, Lady Guinevere, Sir Lancelot, a espada Excalibur e o mago Merlin exercem no imaginário popular vem do excepcional Le Morte d’Arthur, escrito por Sir Thomas Malory ainda em 1485 e que conseguiu reunir, em um todo coeso, todas as lendas orais e escritas e folclore sobre o fictício (até prova em contrário) personagem que teria liderado a Bretanha contra a invasão dos saxões.

A obra de Malory é, quase que integralmente, a fonte de todas as versões da lenda que, ao longo dos séculos e até hoje em dia, é parte da cultura popular mundial, incluindo a famosa versão por T.H. White, O Único e Eterno Rei. Excalibur, filme dirigido por John Boorman e lançado em 1981, é, por seu turno, a versão cinematográfica definitiva da lenda conforme unificada por Malory, um verdadeiro tour de force que reúne e materializa a magia atemporal que emana da obra original.

E é interessante lembrar que Boorman, desde 1969, tentou colocar Le Morte D’Arthur nas telonas, mas teve suas ideias rejeitadas primeiro pela United Artists, que, no lugar, encomendou a ele uma adaptação de nada menos do que O Senhor dos Anéis, cujo roteiro ele realmente acabou escrevendo junto com Rospo Pallenberg, que antes tinha como crédito apenas a direção de segunda unidade de O Exorcista II e parte do roteiro – sem créditos – do mesmo filme. Como era de se esperar, o roteiro foi, então, considerado muito caro pela UA e Boorman, então, reverteu à  sua ideia arturiana original, mantendo, porém, muita coisa do que escreveu em termos de desenho de produção, em sua adaptação de Tolkien.

Excalibur conta, claro, a história do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, mas mantendo a aura mística do manuscrito de Malory e focando nas maquinações de longo prazo de Merlin (Nicol Williamson), filho do próprio Satanás, primeiro em relação a Uther Pendragon (Gabriel Byrne) no prólogo que nos leva até a “espada na pedra” e, depois, com o filho bastardo de Uther com Igrayne (Katrine Boorman, filha do diretor), concebido durante o pacto de Uther com Merlin e que é o próprio pagamento pela relação pecaminosa. Arthur (Nigel Terry), então, é levado por Merlin para ser criado por Sir Ector (Clive Swift), pai de Kay (Niall O’Brien) e, então, o ciclo de traição, pacto com o diabo e morte, começa novamente, tendo Arthur, Guenevere (Cherie Lunghi) e o francês Sir Lancelot (Nicholas Clay) como o trágico trio adúltero e heroico de um lado e a filha legítima de Igrayne com o Duqque da Cornuália Morgana Le Fey (Helen Mirren) e seu filho com o próprio meio-irmão, Mordred (Robert Addie), de outro.

Muito mais do que o roteiro bem costurado de Boorman e Pallenberg, que adapta com clareza e economia a longa saga de Malory, além de fazer as mudanças necessárias para permitir fluidez de texto, Excalibur transcende a soma de suas partes. A película permite o mergulho em uma lenda, pouco importando determinadas liberdades tomadas pelos escritores em relação à localização dos fatos no tempo. O que se vê nas telas é uma obra que, assim como Ruas de Fogo, se passa “em outro tempo, em outro lugar”, não necessariamente na Idade Média ou na Inglaterra (aliás, nada relativo à Inglaterra ou Bretanha é mencionado e isso não é sem querer). O tratamento, aqui, é de pura fantasia, mas uma fantasia que não trabalha seus temas de maneira leve ou infantil. Muito ao contrário, Excalibur é um filme sombrio, diria até que de alma negra, mostrando sempre o lado mais terrível de seus personagens, mesmo do aclamado rei da lenda.

A atmosfera da obra contribui muito para essa impressão, com imagens que não são só violentas, mas que têm uma qualidade quase que de sonho – ou de pesadelo -, colocando em oposição honra e traição, altruísmo e egoísmo, amor e ódio. E sim, Boorman e Pallenberg trabalham esses opostos de maneira até mesmo maniqueísta, usando a paleta de cores, os figurinos e a direção de arte para passar essas oposições – armaduras pretas e armaduras brilhantes prateadas, máscaras que emulam o sol, maquiagem que demonstra a decadência, cenários que perdem o vigor rapidamente -, mas nunca de maneira boba ou simplista. O personagem que trafega entre um lado e outro de maneira mais discreta é dúbia é efetivamente logo o filho do demônio, com um trabalho de Nicol Williamson que consegue arrancar estranhamento, estupefação e mistério em medidas iguais.

Mas, em termos de atuação, Williamson e Mirren são mesmo os dois pontos altos em um elenco, em linhas gerais, pouco inspirado e, pior, pouco inspirador. Nigel Terry funciona apenas minimamente como um rei perturbado, mas não como herói e Nicholas Clay até consegue convencer como o invencível cavaleiro Lancelot, mas não consegue ter aquela química que se espera com Terry e também com Lunghi como Guenevere. Byrne faz não muito mais do que uma ponta e Liam Neeson, em seu primeiro papel relevante como Gawain, não é também mais do que um extra glorificado.

No entanto, como mencionei, Excalibur é mais do que a soma de suas partes. O filme é pura imersão em um mundo fantástico cheio de magia, morte, traições e amor incondicional, em uma terra dividida pelos ciúmes e reunida pelo símbolo de um deus, em uma lenda que transcende gêneros, territórios e séculos. A trilha sonora original composta por Trevor Jones e que usa peças de outros autores – famosamente Carmina Burna, de Carl Orff e Tristão e Isolda, O Anel do Nibelungo e Crepúsculo dos Deuses, de Richard Wagner – inebria e hipnotiza o espectador, retirando-o de seu mundo e transpondo-o para o meio da ação e das intrigas arturianas que fascinam o mundo há pelo menos 500 anos.

Excalibur é um daqueles filmes que coloca em imagens aquilo que o espectador provavelmente sempre ouviu falar aqui e ali, nem que tenha sido em histórias de ninar há muitos e muitos anos. Uma obra imperdível e diferente que merece ser conferida bem mais do que apenas uma vez e que aguça a curiosidade sobre essa incrível lenda.

*Crítica publicada originalmente em 10 de abril de 2016.

Excalibur (Idem, EUA/Reino Unido – 1981)
Direção: John Boorman
Roteiro: Rospo Pallenberg, John Boorman (baseado em adaptação de Rospo Pallenberg da obra de Thomas Malory)
Elenco: Nigel Terry, Helen Mirren, Nicholas Clay, Cherie Lunghi, Paul Geoffrey, Nicol Williamson, Corin Redgrave, Robert Addie, Gabriel Byrne, Niall O’Brien, Liam Neeson
Duração: 140 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.