Crítica | Exílio no Planeta dos Macacos

estrelas 3,5

Depois do excelente Traição no Planeta dos Macacos, que se passa 20 anos antes do filme de 1968, Corinna Bechko e Gabriel Hardman continuaram à frente das publicações símias da BOOM! Studios, responsabilizando-se pelas continuações Exílio no Planeta dos Macacos em forma de minissérie e Planeta dos Macacos: Cataclismo, em forma de maxissérie. Assim como a primeira minissérie, as duas seguintes são também prelúdios do filme original, cadenciadamente aproximando-se do momento em que Taylor e seu colegas chegam no futuro da Terra em sua fatídica viagem pelo espaço.

Em Exílio no Planeta dos Macacos, dois anos se passaram desde os acontecimentos de Traição. O Dr. Zaius já está mais estabelecido no conselho que comanda Ape City, os chimpanzés passaram a poder ter cargos mais nobres dentro da sociedade símia e os humanos foram definitivamente banidos do convívio. A história começa, então, no vilarejo de Capua, próximo da cidade, que é atacado por um grupo de humanos coordenados e que manuseiam armas (não de fogo), além de conseguirem cavalgar. Mas a principal características é que eles parecem se comunicar por intermédio de sinais, algo que vimos em Traição, mas que é expandido largamente aqui.

Todas essas características levam Zaius a lembrar do que aconteceu dois anos antes, o que o faz colocar em xeque a lealdade da chimpanzé Prisca, já que ela era a ajudante do orangotango Cato, que havia ensinado o humano Terc a comunicar-se com sinais. Apesar de suas veementes negativas, Prisca é mantida sob vigilância e decide, então, resolver o assunto ela mesma, tamanha é sua indignação. Começa, então, uma investigação que a leva à Zona Proibida onde descobrimos não só que Terc ainda está vivo – e com família! -, como também o gorila Aleron, que serve de líder para esses humanos foragidos, organizando-os em um semblante de sociedade nas ruínas ao redor. Mas Aleron, depois que foi baleado, passou a precisar de constante tratamento para seu coração, o que funciona como desculpa para o ataque de Terc e seu grupo à Capua. O que segue é um conflito franco entre Zaius – endurecido pelas revelações de Tenebris sobre os humanos em Traição – e Aleron, que considera que tem uma dívida com Terc e com o falecido Cato.

Desde o evento catalisador da história, passando por seu desenvolvimento, até seu final, o trabalho de Bechko e Hardman é, pela falta de palavra melhor, apenas eficiente. Se olharmos em termos comparativos com Traição no Planeta dos Macacos, o frescor narrativo que existia lá não está presente aqui. Se um Zaius inocente e um gorila simpatizante com humanos fazia sentido na outra história, um Zaius praticamente igual ao do filme de 1968 e um Aleron que é mera repetição do que vimos antes é a demonstração de um pouco de preguiça em se criar algo realmente engajante, que justificasse a existência da história além da mera tentativa de se capitalizar em cima da obra anterior.

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À esquerda, Terc em sua missão desastrada em Capua e, à direita, Prisca na Zona Proibida.

Mas, com isso, não quero dizer que Exílio é ruim. Longe disso, na verdade. É, porém, um desapontamento depois de uma leitura tão revigorante como a da minissérie anterior (e também de Planeta dos Macacos, a primeira série em quadrinhos da editora nesse universo) e isso fica evidente pelo desenvolvimento ilógico especialmente de Aleron, experiente general e depois advogado que, fugindo de Ape City, funda uma sociedade secreta humana, ensina-os a manusear ferramentas e a cavalgar, além de estratégias de guerra, mas não os impede de atacar Capua de forma tão atabalhoada e desnecessária. Dentre tantas alternativas para se dar o pontapé inicial na história, Bechko e Hardman escolheram a mais simplista possível e, também, a que mais trai o fascinante símio que criaram.

De toda maneira, é interessante ver como, ao focar parte da narrativa em Prisca, começamos a ver a maior latitude que é dada aos chimpanzés que, mesmo ainda considerados como “cidadãos de segunda classe”, passam a ter responsabilidades científicas importantes, com a personagem, de certa forma, abrindo as portas para que Zira, a protagonista símia de O Planeta dos Macacos, um dia apareça. Além disso, notamos que os humanos desse futuro longínquo não são tão limitados assim, pois Terc – com auxílio de Aleron, claro – consegue ensinar a linguagem de sinais para seus pares, com todos eles formando uma sociedade organizada. E, finalmente, vemos Milo ser usado na história como o cientista que secretamente ajuda Aleron em sua empreitada. Para quem não lembra, Milo é o chimpanzé que, junto com Cornelius e Zira, resgatam a nave de Taylor e viajam para a Terra do passado em Fuga do Planeta dos Macacos.

Na arte, Hardman abriu espaço para seu colega Marc Laming trabalhar em um estilo que lembra a versão simplificada do próprio traço de Hardman. Trata-se de uma ótima arte, com rostos símios muito expressivos que criam a necessária diferença entre eles, além de o artista ser muito proficiente nas sequências de ação e no raro uso que faz de splash pages. Sua disposição de quadros permite uma leitura fluida, com o bom posicionamento dos textos dos roteiristas, sem que eles fiquem no caminho.

Ainda que Exílio no Planeta dos Macacos esteja aquém do que Corinna Bechko e Gabriel Hardman podem criar, o resultado final é inegavelmente agradável de se ler, anda que não acrescente muito à mitologia símia. Faltou coragem de ir além, de expandir os horizontes da série para além da Zona Proibida. Mesmo assim, no que se propõe, a leitura é mais do que recomendável.

Exílio no Planeta dos Macacos (Exile on the Planet of the Apes, EUA – 2012)
Contendo:
 Exile on the Planet of the Apes #1 a 4
Roteiro: Corinna Bechko, Gabriel Hardman
Arte: Marc Laming
Cores: Jordie Bellaire, Darrin Moore
Letras: Ed Dukeshire
Capas: Gabriel Hardman com Jordie Bellaire
Editora original: BOOM! Studios
Data original de publicação: março a agosto de 2012
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 114 (encadernado americano, com galeria de capas alternativas)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.