Crítica | Êxodo: Deuses e Reis

estrelas 2,5

Os épicos bíblicos, após o ótimo Noé, de Darren Aronofsky, voltam a dar as caras em Hollywood. Do dilúvio partimos para um período posterior, para a história de mais um emblemático pastor da religião judaico-cristã, Moisés, que já aparecera sob diferentes visões – que vão do clássico Os Dez Mandamentos até O Príncipe do Egito. Sob a batuta de Ridley Scott, que há muito deixou sua glória para trás, o filme já vem dotado de um certo ceticismo por parte do espectador: o diretor não trouxe nenhuma grande obra em longos anos, notadamente decepcionando à maioria com Prometheus.

O temor, inicialmente, se esvai através de minutos iniciais que já definem o tom épico da película. Uma breve contextualização sobre a escravidão no Egito, pontuando o sofrimento dos hebreus por décadas. Scott, desde já, demonstra que deseja deixar em segundo plano o caráter religioso da história. Sua narrativa aposta em detalhes críveis, em um enredo que realça o lado humano de cada personagem. De fato é o que aparenta neste princípio que, após o texto inicial, nos é oferecido um olhar sobre a relação de Moisés (Christian Bale) com o alto escalão Egípcio, em outras palavras, seu primo e futuro Faraó Ramsés (Joel Edgerton) e Seti (John Turturro), o atual governante.

Um problema marcante, porém, já começa a se estabelecer: não vemos sequer um negro em cena, sequer pessoas com pele mais escurecida. Estamos sim, no Norte da África, mas o “embranquecimento” dessa classe dominante só ocorreria posteriormente no período Ptolomaico, cuja linhagem real passa a ser, verdadeiramente, de origem grega. Esse exagero do caucasiano gerou, é claro, acusações de uma discriminação por parte da produção, mas, além disso, quebra o já citado realismo que o longa-metragem almeja.  Por mais que John Turturro desempenhe em satisfatório papel como o Faraó, não conseguimos acreditar que ele realmente possa ser de naturalidade egípcia.

Deixemos, contudo, esse (grave) problema para trás e avancemos um pouco no enredo. Moisés logo se demonstra um hábil general no campo de batalha, brilhante estrategista que, é claro, contrasta perfeitamente com seu primo impulsivo. Ridley Scott aposta no cliché para compor a crescente desarmonia entre os dois, fazendo uso, inclusive, de profecias crípticas que deixam Ramsés com uma crescente inveja do homem com quem cresceu junto. Tudo piora ainda mais quando sua mãe, Tuya (Sigourney Weaver), que conta com curtos minutos em tela, envenena a mente do futuro governante. Quando as origens hebraicas de Moisés são descobertas ele é, então, exilado, colocando-o no caminho que todos nós já conhecemos.

Êxodo, como já disse, começa bem, mas toda a construção de personagem que esperávamos nos minutos de abertura é jogada fora, em favor de batalhas que se estendem desnecessariamente, que nos cansam, por mais que sejam bem retratadas, sem o artifício exagerado da montagem hiperativa. A única relação apresentada no filme que realmente se salva – e por pouco – é a do protagonista e Ramsés, embora ela seja notadamente desperdiçada em inúmeros pontos da projeção, criando momentos de tensão tão artificiais quanto John Turturro. Para se ter uma ideia melhor da proporção de tal falha, basta percebermos que, de fato, não chegamos a nos importar nem um pouco com a mulher e filho do protagonista ou até mesmo com os hebreus, que, após as sete pragas, parecem até vilões dentro da história.

Entramos aqui no verdadeiro calcanhar de Aquiles do filme. A ênfase nos infortúnios jogados no Egito pelo Deus cruel do Antigo Testamento era esperada, mas Scott consegue estragar dramáticos acontecimentos tentando explicar, de maneira cientificamente plausível, cada praga. Do rio de sangue até os gafanhotos, o diretor tenta convencer ao máximo o espectador de que aquilo tudo realmente poderia ocorrer, utilizando, inclusive, uma espécie de cientista da antiguidade a fim de, didaticamente, nos dizer que uma praga é consequência da outra. É claro que tudo cai por terra com as proporções mitológicas de cada acontecimento, com direito a crocodilos ensandecidos e um acúmulo de todos os sapos do mundo antigo em um só lugar. A cereja no topo do bolo é, obviamente, a morte dos primogênitos, que Ridley pareceu desistir de oferecer qualquer explicação. Veja bem: o problema não está da falta de credibilidade dos acontecimentos em si, e sim na tentativa de oferecer uma visão científica ao ocorrido.

Ainda no tom da obra existem aspectos que podem ser salvos. O mais notável deles é a retratação de Deus através de uma criança. Possivelmente o personagem mais odioso de todo o longa, fica claro que estamos diante do velho Deus que expulsou Adão e Eva, quase obrigou Abraão a sacrificar seu próprio filho (só revelando a verdade quando o pobre homem subiu uma colina inteira) e, é claro, inundou toda a Terra, tirando do mundo seres como dragões e unicórnios (chacinando 99% da raça humana). Não sentimos nele qualquer amor e sim uma ira profunda dos egípcios, que escravizaram por séculos o povo por Ele escolhido. Essa retratação, infelizmente, é também desperdiçada, por não trazer à tona uma possível loucura de Moisés – o filme não chega a trabalhar de forma convincente se a figura realmente existe ou é apenas um delírio do homem.

Representar toda essa epopéia, evidentemente, pediria um trabalho árduo da equipe técnica. Os efeitos especiais realmente chegam a convencer, ainda que exagerem nas proporções das cidades: grandes demais para tal período. Cada uma das sete pragas e o clímax do longa chegam a impressionar visualmente, mas a super-exposição e a demasiada extensão de tais sequências acaba quebrando o fascínio do espectador. Esse fator, quando em conjunto com o trabalho fotográfico de Dariusz Wolski, que exagera nos planos de cobertura, acaba prejudicando o ritmo da obra, ainda que as locações em si e o trabalho de figurino sejam verdadeiras jóias dentro da narrativa.

No fim, Êxodo: Deuses e Reis acaba não surpreendendo, se categorizando como uma aposta nada arriscada de Ridley Scott, que optou em nos contar uma história menos ousada, repleta de velhos clichés e típicas falhas hollywoodianas. Apesar de evidentes falhas acaba sendo uma experiência divertida, com um protagonista que consegue nos levar do início ao fim dessa longa jornada. Scott, porém, está longe de seu primor e definitivamente não consegue passar perto da coragem (e qualidade) apresentada em Noé.

Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings – EUA/ Reino Unido/ Espanha, 2014)
Direção:
 Ridley Scott
Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian
Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Kingsley, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, María Valverde, Sigourney Weaver, Hiam Abbass, Indira Varma
Duração: 150 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.