Crítica | Exorcismo Negro

estrelas 3

Exorcismo Negro é um filme de destaque na filmografia do cineasta José Mojica Marins. A trama é bastante sofisticada e possui muito pouco dos excessos exibidos exaustivamente em suas obras anteriores. Lançado na esteira do sucesso internacional de O Exorcista, a trama foi pensada por Aníbal Massaini Neto, filho de Oswald Massaini, lenda da Boca do Lixo.  Ciente do sucesso de bilheteria e crítica do filme de Willian Friedkin, o produtor convidou Mojica para assumir a direção e encontrar um jeito de desenvolver a história.

Tal como O Despertar da Besta, de 1969, Exorcismo Negro é uma trama metalinguística em que José Mojica Marins é colocado frente à frente com a sua criação, o diabólico Zé do Caixão. O filme começa com José Mojica Marins dando entrevista sobre a sua situação atual, bem como as suas opiniões sobre cinema e detalhes da sua vida pessoal. Na época, ele não era um realizador bem visto no Brasil, mas fazia bastante sucesso no exterior. Ele é questionado durante a entrevista sobre o seu próximo filme. A única coisa que o cineasta adianta é que a sua próxima trama vai envolver um “tirador de demônios”.

Ao emular elementos de música sacra e do canto gregoriano, a narrativa é conduzida com foco no exílio de Mojica Marins, tendo em vista resolver uma crise criativa que o abate. Para desanuviar, ele segue para a fazenda de um amigo, mas surpresas lhe tiram da zona de conforto programada. Na casa de campo de seu amigo Álvaro (Walter Stuart) ele percebe que há algo errado. Móveis caminham sozinhos, livros voam da estante, um animal é encontrado morto e o horror se espalha ao passo que os membros da família começam a apresentar episódios de possessão demoníaca.

Dai, temos parte da revelação dos problemas: vinte anos antes, Lúcia (Georgia Comide), esposa de Álvaro, fez um pacto com uma bruxa (Wanda Cosmo) para ter uma filha (Wilma, nascida e criada com sucesso). Como recompensa pela graça alcançada, prometeu que a casaria com o jovem Eugênio (Adriano Stuart), o filho de Satã. Ao Wilma (Ariane Arantes) anunciar o casamento com Carlos (Marcelo Picchi), a bruxa inconformada convoca Zé do Caixão para cobrar a dívida não paga.

Exorcismo Negro não segue o passo a passo da cartilha do subgênero “filmes de exorcismo”. Ao passo que os 94 minutos avançam, percebemos que a direção de fotografia de Antonio Meliande colaborou bastante para o sucesso estético do filme. O orçamento de 150 mil dólares, algo além de tudo aquilo que José Mojica havia tido durante a produção de um filme, bem como os atores profissionais e o desenvolvimento sem exageros da constante estética kitsch das produções anteriores fizeram deste filme uma trama sofisticada dentro do panorama dos filmes do cineasta.

A ideia era lançar concomitante ao exemplar estrangeiro, mas problemas de produção o fizeram estrear um mês depois. A crítica da época, elitista e míope, não enxergou os valores do filme, mas o público foi na contramão. Exorcismo Negro lucrou em média R$8 milhões e teve uma campanha sensacionalista ao estilo hollywoodiano: um grupo de atores da companhia de Mojica simularam transes hipnóticos nas salas de cinema onde o filme estreou, fato que mexeu com a mídia e a população, num misto de curiosidade e medo.

Apesar da sofisticação estética, Mojica pede licença ao público nos momentos finais, especificamente na missa negra, exagerando como de costume nos diálogos, na montagem e na concepção visual do trecho. A missa negra realizada para cobrar a dívida da bruxa é regida com todos os clichês do subgênero à exaustão e ainda abre espaço para perpetuar estereótipos desconcertantes, pois associa o satanismo ao candomblé, misturando matrizes e culturas. Tal problema, por sua vez, apesar de preocupante, não chega a estragar o desenvolvimento do enredo.

Exorcismo Negro – Brasil /1974
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: Rubens Francisco Luchetti, José Mojica Marins
Elenco: José Mojica Marins, Geórgia Gomide, Wanda Kosmo, Rubens Franciso Luchetto, Adriano Stuart, Walter Stuart, Jofre Soares, Ariane Arantes
Duração: 94 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.