Crítica | Exorcismos e Demônios

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Um dos subgêneros mais difíceis de apresentar um ponto de vista novo. Ou então, trabalhar bem por meio dos clichês que já habitam o imaginário do público. Exorcismos e Demônios: um filme prometeu bastante para o público, haja vista o seu trailer excepcional, mas o resultado é pouco interessante, pastiche de tudo que já vimos antes neste tipo de material. O tema nem está ultrapassado, ao contrário, encontra-se constantemente em evidência. Há alguns dias os jornais noticiaram o estupro de uma mulher no interior da Argentina, apontada como possuída pelo pastor da sua Igreja. O tema é polêmico e ainda rende muito material bom.

Recentemente (2018), a mídia divulgou uma nota sobre a prática de exorcismos por smartphone. Realizado pelo cardeal albanês Ernest Simoni, de 89 anos, o renomado “libertador de almas” ministrou um curso para cerca de 200 inscritos. Organizado na Universidade de Roma, com autorização do Vaticano, as atividades orientaram os participantes no uso da tecnologia para a prática do exorcismo. Os irmãos Chad e Carey Haeys, responsáveis pelo ótimo roteiro de Invocação do Mal, decidiram trazer à tona mais uma história inspirada em acontecimentos reais, mas sem a inclusão da tecnologia. O foco do debate é a fé na contemporaneidade e o local escolhido não poderia ser melhor: o interior da Romênia.

Dirigido por Xavier Gens, responsável por A Fronteira e Hitman – Assassino 47, o filme nos faz mergulhar na investigação da jornalista Nicole Rawlins (Sophie Cookson), uma garota que perdeu a mãe há algum tempo e não acredita em Deus. Ela trabalha em um jornal de médio porte em Nova Iorque e é enviada para saber mais informações sobre o caso de uma jovem freira que morreu durante um ritual de exorcismo, após ter passado três dias crucificada. Ao passo que a investigação avança, a relação da protagonista com a fé ganha novos contornos e a presença do mal se torna cada vez mais próxima.

Há um padre atraente que vai ajuda-la no processo de condução da investigação, servindo de inspiração para alguns sonhos eróticos da moça, aparentemente fragilizada emocionalmente. Por meio da montagem de Adam Trotman, os flashbacks nos guiam em duas linhas narrativas. No meio disso tudo, a dúvida: a irmã Adelina Marinescu (Ada Lupu) estava realmente possuída ou sofria de esquizofrenia? Eis a questão, mal trabalhada num filme indeciso e que perde por não conseguir ser melhor que suas inspirações, óbvias em cenas que emulam O Exorcista e O Exorcismo de Emily Rose. Durante a sua peregrinação, Nicole vai passar por situações macabras, aparições assustadoras, mas tudo um desperdício diante da história pouco consistente, com direito ao ritual de exorcismo mais fajuto por vias cinematográficas nos últimos anos.

Interessante mesmo é ver as paisagens do interior da Romênia, repleta de símbolos que já se tornaram estereótipos poderosos a habitar nossas mentes. Situada na região centro-sudeste da Europa, a Romênia é em sua maioria composta por cristãos de linha ortodoxa. O catolicismo também encontra espaço, principalmente na região fortemente influenciada pela cultura ocidental. Com paisagens adornadas por extensa vegetação e arquitetura bastante peculiar (bem medieval), é neste local que a investigadora do filme vai bater de frente com Agares, um demônio conhecido por ferir a dignidade das pessoas, ao manifestar por meio de linguagem chula e, pelo fato de presidir uma legião de 31 demônios, ter o poder de destruir vidas e causar danos físicos ao globo terrestre, através de terremotos. Agora me responda: com uma presença tão poderosa, como um filme deste comete tantos erros? Voltemos para a seara imagética, mais interessante.

A parte visual não deve nada ao espectador. O clima de terror é visualmente estabelecido, mas falta empolgação com a história. Resultado: um setor não consegue se sustentar sem o amparo do outro. O design de produção, assinado pela dupla formada por Colin Papura e Tony Noble cumpre bem as funções. Os figurinos de Luminita Lungu adequam-se aos personagens e a direção de fotografia de Daniel Aranyó enquadra e ilumina bem os espaços, dando a dimensão visual necessária para acompanharmos a história, tendo os drones como equipamentos que colaboram com a captação de imagens mais amplas.

Se com a parte imagética as coisas caminham satisfatoriamente, o trabalho sonoro beira ao desastre. Tomar sustos é muito divertido, mas o excesso de jumpscare cansa e se torna incomodo, pois o barulho é irritante e uma óbvia muleta para uma história que não consegue manter o equilíbrio no desenvolvimento dos conflitos e personagens. Martin Contwell, responsável pelo design de som, exagera e cria uma obra apelativa neste segmento, aumentando ainda mais a previsibilidade dos sustos.

Em suma, ao longo dos seus 90 minutos, Exorcismos e Demônios explora o universo dos filmes de possessão com sons guturais, exposição do sexo ou de órgãos genitais em situações putrefatas, corpos contorcidos, olhos com pupila enegrecida, xingamentos dos mais pesados, objetos que são arremessados de um lado para o outro, portas que rangem, lâmpadas que apagam e acendem sozinhas, insetos que surgem no lugar e na hora errada, dentre tantos outros símbolos comuns ao subgênero “exorcismo no cinema”. Infelizmente, como já descrito, o roteiro não ajuda. Os clichês descritos não atrapalham, afinal, são reutilizados porque funcionam. O problema é dos criadores da história, profissionais que não cumpriram bem as suas funções no desenvolvimento do trabalho.

Exorcismos e Demônios (The Crucifixion) — Estados Unidos/Romênia, 2017.
Direção: Xavier Gens
Roteiro: Carey W. Hayes, Chad Hayes
Elenco: Ada Lupu, Ana Popescu, Andrei Aradits, Aurora Paunescu, Brittany Ashworth, Catalin Babliuc, Corneliu Ulici, Daria-Fiorella Dimitru, Diana Vladu, Florian Voicu, Iván González, Javier Botet, Jeff Rawle, Laura Vasiliu, Maia Morgenstern, Matthew Zajac, Ozana Oancea, Radu Banzaru, Rudy Rosenfeld, Sophie Cookson, Thea Grigorescu, Vanesa Gidel
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.