Crítica | Exorcista – O Início

estrelas 2,5

Tal como O Exorcista 3, esta quarta parte da franquia teve a tarefa ingrata de fazer o público aceita-lo diante de várias circunstâncias. Tudo bem que O Exorcista 2 – O Herege já era uma memória distante, o terceiro filme já havia sido lançado há quase quinze anos, mas outra questão envolvia a relação do público com a franquia. O filme de 1974 foi relançado no ano 2000, em salas de cinema e com 11 minutos de cenas inéditas.

Recebido com louvor pelo público e apresentado às novas gerações de cinéfilos, a trama sacudiu plateias por algum tempo e reforçou a importância de O Exorcista para a história do cinema. Os produtores, interessados em lucrar diante destas manifestações de interesse, logo elaboraram um esquema e quatro anos depois ofereceram ao público as “origens” do padre Merrin (Stellan Skarsgård), radiografando acontecimentos anteriores ao exorcismo com Regan MacNeil.

O resultado, como se pode ler durante esta reflexão, não chega a ser ruim como o segundo filme, mas fica devendo muito, principalmente por envolver efeitos especiais demais e “computadorizar” o mal desnecessariamente. Há dois momentos marcantes na abertura, dentro de uma mesma sequência envolvendo corpos crucificados, blasfêmia e simbologia oculta. Há uma sensação de horror eficiente enquanto os planos estão fechados ou semiabertos, mas logo adiante, ao abrir para planos gerais que demonstram a dimensão do acontecimento de então, os efeitos especiais tornam-se carregados demais, numa súmula do que serão alguns momentos cruciais mais adiante.

“Deus não está aqui”. Fala que costura o passado e o presente do Padre Merrin, pois o demônio, para mexer com a sua fé e as suas estruturas psíquicas, o faz rememorar visões “infernais” do período em que o padre vivenciou os horrores da Segunda Guerra Mundial e da ameaça nazista.

Após descobrir essa igreja soterrada, investiga e percebe que aquele espaço foi local de sacrifícios humanos envolvendo exorcismo e outras práticas religiosas extremas.  Para preencher o material, os roteiristas apostaram em conflitos entre habitantes locais e “colonizadores”, bem como um interesse romântico entre o padre e uma médica. Mas nem isso é suficiente como pano de fundo de sustentação de uma obra fadada ao fracasso desde as suas primeiras imagens. Por falar em imagem, os efeitos especiais podem atrapalhar, mas verdade seja dita, a direção de fotografia de Vittorio Storaro salva o filme nas cenas em que os tais efeitos não dominam a projeção. A paleta de cores e o trabalho com iluminação são dignos de um prêmio ao estilo Oscar, haja vista a sua beleza.

Os envolvidos provavelmente esqueceram que um bom roteiro é bem mais impactante que toda a pirotecnia visual. Os problemas de bastidores também podem ter prejudicado o andamento do filme, mas como apontado anteriormente, nada que justifique a pré-produção, momento de ajustes. A culpa, pelo que ficou registrado na crítica e nas revelações posteriores de envolvidos no filme, foi dos produtores, gananciosos que geralmente não sabem muito bem adequar as tramas ao bom senso. Há clássicos do cinema relançados que comprovam isso.

Em Exorcista – O Início, sob a direção de Renny Harlin, com roteiro de Caleb Carr e William Wisher Jr., somos levados ao Cairo, no Egito, em 1949. Lá, o Padre Merrin é convidado por um colecionador de antiguidades, a participar de uma escavação arqueológica promovida pelo governo inglês, realizada na região de Turkana, no Quênia. Ao chegar ao local ele descobre uma igreja cristã bizantina, aparentemente intacta e soterrada logo depois da sua construção.

Indicado ao Framboesa de Ouro de Pior Remake ou Sequência e Pior Diretor, Exorcista – O Início foi um filme que sofreu bastante para sair do papel. Primeiro o diretor Paul Schrader (o eficiente roteirista de Táxi Driver) foi demitido pelos produtores por não alcançar o nível de sanguinolência desejado. Renny Harlin entrou no processo de teve que suprimir dois personagens e rodar praticamente 90% do filme.

Todos os problemas, por sua vez, não surgiram para ajudar o filme a ganhar força e alavancar-se. Considerado uma piada por parte da crítica e de muitos seguidores da franquia, o filme é algo inexpressivo dentro do campo dos filmes de terror. A sua projeção ganhar maiores proporções quando se discute as comparações com Dominion – Prequel to The Exorcist, versão “original” que seria lançada, veiculada pelo cineasta Schrader alguns anos depois.

Pouco mais de 10 anos depois, outros produtores perceberam o potencial do material de William Peter Blatty e lançaram a versão para O Exorcista no formato seriado televisivo. Convidaram Geena Davis, embalaram tudo com elementos simbólicos e ocultos, capricharam nos aspectos estéticos e sonoros, traçaram um bom paralelo entre os acontecimentos do filme e resgataram alguns personagens cruciais.

Exorcista – O Início (Exorcist: The Beginning) – EUA, 2004 
Direção: Renny Harlin
Roteiro: William Wisher Jr., Caleb Carr, Alexi Hawley
Elenco: Stellan Skarsgård, Izabella Scorupco, James D’Arcy, Remy Sweeney, Julian Wadham, Andrew French, Ralph Brown, Ben Cross, David Bradley, Alan Ford, Antonie Kamerling
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.