Crítica | Exorcistas do Vaticano

estrelas 2

É muito chata essa perseguição da crítica e dos amantes do cinema em relação aos filmes de terror que são derivados dos ditos clássicos. Nem todo filme de terror metalinguístico precisa ser como Pânico, nem tampouco todo filme de exorcismo precisa tentar superar o clássico O Exorcista. Acredito que nesse processo, a produção, seja do segmento que for, precisa apresentar uma boa reciclagem de velhas ideias, haja vista o nosso percurso narrativo milenar: tanta coisa já foi feita, tanto já foi narrado no teatro, na música, na pintura, na literatura, na ópera, no cinema, nos videoclipes, nas séries e nos programas televisivos, na internet, que apresentar algo “novo” torna-se um dos desafios da arte na contemporaneidade.

Alguns filmes tentam, pretensamente, igualar-se ou até tentar ser melhor que as suas referências antecessoras. Esse não é o caso de Exorcistas do Vaticano. Há algumas referências ao clássico com Linda Blair, mas vejo tudo como uma homenagem, coisa de cineasta admirador do gênero. A produção investe em uma roupagem mais frenética, com espaço para montagem agressiva, sustos oriundos de truques sonoros e inserção de vídeos de câmeras alheias ao olhar do narrador central do filme. A experiência, que poderia soar positiva e inovadora, apenas deixa o espectador interessado num bom filme de terror entediado, mas oferta uma excelente comédia, afinal, em alguns momentos dessa produção, só rindo mesmo.

Após cortar o dedo de forma acidental, a jovem Angela (Olivia Taylor Dudley) segue para a emergência. Infelizmente, o ferimento causa uma infecção e a moça começa a agir de forma estranha. Logo, o diagnóstico de possessão ser entregue, trazendo uma onda de horror que envolve mortes e dor para a jovem e para as pessoas que estão ao seu redor. O padre da vez, Lozano (Michael Peña) é o responsável por guiar o caso, culminando num final curioso ao estilo X-Men.

O roteiro, assinado por Mark Neveldine e Christopher Borelli, é um fiasco. Os personagens coadjuvantes são pouco aproveitados, bem como o final do enredo, que beira para uma solução no mínimo curiosa, mas não menos tosca. A cenografia também é pouco interessante, tendo em vista que se os exorcistas são do Vaticano, porque as cenas não são reconstruções ou produzidas no local que nomeia a narrativa?

A participação do bom ator Djimon Houson como um Vigário não muda muita coisa, pois os personagens são ruins. A protagonista, razoavelmente expressiva, arrasta objetos, coloca fogo nos cômodos que visita e possui tendências suicidas. Palavras demoníacas são ditas em latim, há o uso de voz gutural e contorcionismo. Há ainda um padre com dúvidas em relação aos ditames religiosos e outro veterano e conhecedor do “mal”, no entanto, nada que você já não tenha visto melhor em outros filmes.

Em suma, Exorcistas do Vaticano é mais uma grande bobagem na extensa fila do gênero terror, pelo menos no que tange aos aspectos narrativos. Mas no que diz respeito às discussões políticas, de gênero e debates sobre o enfraquecimento do discurso religioso da Igreja Católica na contemporaneidade, o filme pode render um bom caldo. A mulher como a representação do mal, o exorcismo como uma atividade de demonstração do poder da Igreja, em detrimento da colaboração com uma vítima das forças do mal, dentre outros tópicos são indicados para a reflexão do espectador após o filme.

As intenções em renovar o gênero, homenagear ligeiramente O Exorcista e assustar a plateia ficou apenas no plano das ideias. Em seus 91 minutos de duração, tédio e curiosidade se misturam, principalmente quando o já cansativo estilo found foutage ganha algumas cenas. Assim como Renascida do Inferno, não foi dessa vez que o subgênero “filme de possessão demoníaca” trouxe algo interessante. Vai ficar para a próxima.

Exorcistas do Vaticano (The Vatican Tapes, Estados Unidos – 2015)
Direção: Mark Neveldine
Roteiro: Mark Neveldine e Christopher Borelli
Elenco: Olivia Taylor Dudley, Dougray Scott, Michael Peña, Djimon Houson, Patrick Amedori, Michael Paré, Kathleen Robertson.
Duração: 91 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.