Crítica | Exorcistas e Psiquiatras, de Gabriele Amorth

Exorcistas e Psiquiatras é um livro cheio de revelações sobre a presença de Satanás e dos demais demônios infernais que insistem em roubar, matar e destruir os habitantes do planeta Terra há eras. Com escrita fluente e debate inicialmente interessante, o texto do exorcista tradicionalista Gabriele Amorth não demora a revelar as suas camadas de equívocos e posicionamentos extremistas, machistas e preconceituosos, perpetuando a ideia hermética e suprema do catolicismo mais “ortodoxo”.

O texto também demonstra que diante de tantos livros sobre exorcismos, Amorth deveria ter compilado todas as suas ideias em apenas uma obra, pois ao ler a sua produção completa, percebemos que os livros são praticamente iguais, com as mesmas teorizações e algumas mudanças tímidas que não somam muita coisa. Exorcistas e Psiquiatras, por exemplo, parece ser um profundo estudo sobre a relação entre o campo religioso e científico, mas fica tudo na promessa.

Há um esboço esforçado de adentrar no campo da ciência, mas o exorcista do Vaticano prefere tecer críticas aos marxistas, feministas e aos ritos religiosos de outras crenças e povos, num desserviço para os estudos acerca da pluralidade cultural. De acordo com a sua ótica, a imoralidade e a perda de valores são alguns dos problemas responsáveis pelo afastamento das pessoas no que tange ao caminho divino. As pessoas não levam á serio e às vezes esquecem que a Bíblia Sagrada cita os males de Satanás mais de mil vezes, sendo quinhentos e sessenta e oito referências apenas no Novo Testamento.

No geral, o que Amorth reforça é a necessidade de “Deus” em nossas vidas. Ao longo das 150 páginas do livro, inicialmente empolgante, mas sonolento e repetitivo ao passo que avança em suas considerações rigorosas, Exorcistas e Psiquiatras, lançado há dez anos, com tradução eficiente de Ana Paula Bertolini, nos faz conhecer um pouco mais do aparentemente simpático, carismático e atencioso exorcista que faleceu há pouco tempo, mas “chegou” ao Brasil este ano por meio da estreia do documentário O Diabo e o Padre Amorth, dirigido por William Friedkin, cineasta responsável pelo insuperável O Exorcista. Na produção, o cineasta encontra o exorcista para registrar um exorcismo real.

Para legitimar as suas afirmações, há sempre referências bíblicas devidamente delineadas. A introdução, empolgante, resgata Gênesis (3, 8-10) para contar que Adão se escondeu entre as árvores do paraíso terrestre para manter-se esquivo das ordens de Deus e servir aos ditames da serpente, a representação de Satanás. O capítulo seguinte mantém o nível de empolgação, pois segue à risca o esquema de panorama histórico para situação do leitor diante do campo do saber analisado.

Desta maneira, mesmo que breve, o painel histórico de Amorth trafega pelo que ele intitula de sete períodos. Começa com as práticas de exorcismo realizadas por Cristo e seus apóstolos, seguido das ações realizadas nos três séculos seguintes. Interessante observar que a realização de exorcismos já era uma prática comum na humanidade antes desse período, mas que a Igreja tomou para si no intuito de formalizar tudo. No Ocidente tudo aconteceu, conforme relatos do exorcista, inicialmente bem, com a formulação de documentos e registros organizados entre o século III e VI. A igreja Oriental, burocrática, não seguiu o mesmo ritmo, numa das primeiras críticas do autor a tudo que está fora do eixo europeu.

Do século XI ao XII, a prática do exorcismo se desenvolveu bem, diferente do período entre os séculos XIII e XV, conhecido pelo regimento de papas teocratas, construção de catedrais esplendorosas, mas manifestações de guerra e ausência de paz por meio de conflitos políticos que se arrastaram por décadas, como por exemplo, a Guerra dos Cem Anos. Tudo fica pior com a loucura e as perseguições às bruxas, pessoas que segundo Amorth, precisavam apenas de “algumas sessões de exorcismo”.

Do século XVIII aos dias atuais, os exorcismos perderam a força, apesar de ainda ser uma prática existente. Acredita-se que o problema seja a falta de pessoas habilitadas para a realização do ritual, principalmente dentro das atualizações no âmbito do catolicismo, religião que hoje tem padres e representantes que acreditam em demônios como metáforas para questões sociais da humanidade, numa interpretação “moderna” e mais livre da Bíblia Sagrada. Há uma cena na série The Exorcist, na primeira temporada, que lembra bastante essa questão. Amorth condena essa geração modernizada e diz que o problema reside justamente neste ponto, afinal, quando as pessoas mais precisam e recorrem por ajuda, não encontram representantes que lhe escutem, o que as faz caminhar pelo “perigoso” âmbito dos “magos”.

Mas quem são esses magos? O que é ocultismo? Amorth faz desfilar uma série de afirmações muito extremistas e até mesmo preconceituosas, condenando tudo que não tenha ligação com o seu credo. Diz que a maçonaria, espiritismo, astrologia, bem como crenças tibetanas, indianas e israelitas (a cabala) são manifestações ocultas ligadas ao príncipe das trevas. Critica o ocultismo e aponta que o decréscimo da religião faz aumentar a busca por superstições. Sobra até para os seguidores das Testemunhas de Jeová, “seita” que já fez a previsão errônea do fim do mundo mais de três vezes.

Amorth afia cada vez mais a sua língua e diz que a liberdade de direitos na atualidade fez o mundo ficar uma bagunça. Cita, descaradamente, a emancipação feminina das últimas décadas como um problema de falta de controle diante das demandas sociais. Propõe que as pessoas compareçam mais às missas e busquem também o caminho da confissão, pois estamos perdidos “num mundo que mete medo porque é privado de qualquer garantia de segurança”. Os meios de comunicação também são criticados, plataformas satânicas para exibicionismo e espetáculos diabólicos.

Num capítulo específico sobre o “Espiritismo”, Amorth não economiza nas críticas e diz que a prática é demoníaca e que segundo os relatos bíblicos, em especial, Levíticos (20-27), o homem ou a mulher que praticar a necromancia será apedrejado, réu de morte, abominado por Deus e ainda vítima que terá sangue derramado por conta de seus erros, afinal, o Senhor abomina adivinhação, amuletos e magia.

No hall das curiosidades, Amorth narra como pregos, vidros e outros objetos surgem durante um ritual, geralmente do interior dos possuídos, além de dar uma palhinha de como se procede diante de um exorcismo. A lição pede, dentre tantas coisas, que um salmo seja recitado, antes da leitura do evangelho, das orações, da imposição das mãos e das fórmulas específicas para a realização do ritual.  Curioso e informativo, o livro estruturalmente não chega a apresentar problemas, apesar de sua segunda metade ser bem menos interessante e uma versão menor do elucidativo O Exorcista Explica o Mal e suas armadilhas, publicação de Amorth lançada em 2015, igualmente polêmica no que diz respeito ao olhar focado em outras crenças, mas substancialmente melhor construído.

A cereja do bolo, no entanto, é devorada logo nos primeiros “pedaços” do texto servido pelo livro. Amorth aponta o comunismo marxista como uma propaganda ateísta repleta de ideais satânicos. Para reforçar sua fala, retoma as revelações de Nossa Senhora, no dia 13 de julho de 1917, em Fátima. A famosa mensagem com os três segredos alegava em um deles que a Rússia espelharia pelo mundo os seus erros, por meio de guerras e perseguições aos religiosos. Claramente posicionado politicamente, Amorth demonstra constantemente que o mal nem sempre é parte do Inferno tão delineado por Dante na Divina Comédia, mas parte também dos pensamentos retrógrados e extremistas de líderes religiosos como o exorcista em questão, na época, enquanto vivo, uma sumidade do Vaticano no que concerne as estratégias da agenda de Satanás.

Exorcistas e Psiquiatras (Itália, 2008)
Autor: Gabrielle Amorth
Editora no Brasil: Palavra e Prece
Tradução: Ana Paula Bertolini
Páginas: 150

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.