Crítica | Extermínio (2002)

A indústria cultural costuma ser abusiva quando um tema se torna lucrativo. Na seara dos filmes de terror, a coisa chega a ser “assustadora”. Quando Pânico deu novo fôlego para os filmes de psicopatas mascarados, uma enxurrada de filmes bacanas surgira, mas na esteira, uma enorme fila de produções constrangedoras. O mesmo ocorreu com as refilmagens de tramas de horror orientais. Bastou trazer O Chamado que logo os estadunidenses fizeram a releitura de todos os filmes possíveis, adaptações que geralmente se mostrara inferiores aos enredos que lhe serviram como ponto de partida.

Com os filmes de zumbis não foi diferente. George Romero não foi o criador, mas foi quem remodelou o estilo já estabelecido por Zumbi Branco e A Morta-Viva. Por conta do sucesso, vários cineastas se inspiraram no esquema de zumbis em busca de carne humana e o resultado é um imenso catálogo de produções boas e outra lista ainda maior de tramas profundamente ruins. Extermínio, de Danny Boyle faz parte do espaço das boas produções. Aliás, das ótimas, pois toma como base a temática para explorar conflitos dramatúrgicos e questões sociais que abrem precedentes para discussões pertinentes sobre o mundo contemporâneo.

No filme, durante uma invasão de ativistas em um laboratório na Inglaterra, animais contaminados com o vírus da raiva estão sendo estudados. Sem saber, os “salvadores da pátria ecológica” acabam desenvolvendo um terrível problema, pois os animais atacam os presentes e com a disseminação do vírus, as pessoas infectadas começam a desenvolver comportamento típico dos filmes de zumbis que conhecemos. Fique atento para um detalhe: diferente dos vagarosos monstros de Romero, os representantes de Boyle têm folego de atleta, algo semelhante às temíveis criaturas de Madrugada dos Mortos, refilmagem comandada por Zack Snyder.

Ao acordar do coma, Jim (Cilian Murphy), o herói da história, descobre que ficou 28 dias desconectado do mundo. Neste momento, ele busca respostas para os questionamentos, pois nenhum conhecido parece estar vivo para lhe contar o que aconteceu. Entre as idas e vindas, encontra Selena (Naomi Harris), Frank (Brendan Gleeson), Hannah (Megan Burns), pessoas que vão lhe entregar detalhadamente a cartilha: não importa a pessoa conhecida que você reencontrar. Pode ser namorada, amiga, avó ou sua mãe: se estiver infectada, mate.

Unidos, eles seguem um sinal de rádio, tendo em vista seguir para um lugar seguro. Eles encontram uma base militar, mas o que eles não sabem é que tão devastador quanto o mundo externo, o local que devia fornecer segurança parece ser mais perigoso que os zumbis. Guiado pelo roteiro de Alex Garland, o cineasta nos mostra a devastação da Inglaterra em apenas quatro semanas. Através do uso eficiente de câmeras digitais, mergulhada com cautela na mitologia de Romero, mas é com O Terror Veio do Espaço, de Steve Sekely que o filme possui maiores paralelos, pois ambas as histórias tratam de um mundo sob a constante ameaça nuclear, o horror das armas químicas, a falta de civilidade dos seres humanos em suas relações cotidianas e a desordem que toma diariamente a nossa sociedade.

A montagem ágil de Chris Gill consegue dar ritmo a quase todo o filme, deixando levemente a desejar apenas na segunda metade, quando a história aparentemente perde um pouco o fôlego. No entanto, as discussões políticas que tanto engrandecem o roteiro são sustentadas até os momentos finais. Conforme afirma Boyle em suas pesquisas para o filme, “nada tem o poder de subjugar uma nação como os males de um vírus”. Como o mundo anda constantemente em crise econômica, a iminência de uma devastação pode mexer com a imunologia de todos os sistemas possíveis da sociedade. Atualmente, viaja-se mais do que antes, o que impede as barreiras de algumas doenças contagiosas. Em 1999, por exemplo, as doenças infecciosas foram responsáveis por 25% das mortes em todo o planeta. Todas estas questões estão como pano de fundo da metáfora crítica do filme que põe nos zumbis a representação destes males.

Extermínio (28 Days Later) — EUA, 2002
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Alex Palmer, Bindu De Stoppani, Brendan Gleeson, Christopher Dunne, Christopher Eccleston, Cillian Murphy, David Schneider, Jukka Hiltunen, Megan Burns, Naomie Harris, Noah Huntley, Toby Sedgwick
Duração: 124 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.