Crítica | F Is for Family – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Notas preliminares: Normalmente, a divisão de tarefas entre os redatores aqui do site é feita com conversa civilizada, ainda que, às vezes, o pau coma (normal, normal…). “Nunca antes na história desse site”, porém, um redator havia recorrido à táticas terroristas dignas de ISIs, hackeando uma postagem para inserir comentários sem que seu “dono” tivesse permitido (prova do crime: “acabei de ver hoje e vou dar meus pitacos aqui, só porque eu estou de férias e faço o que eu quiser“). Mas tudo tem uma primeira vez e nosso redator-chefe – sim, darei nome ao boi! – invadiu o domínio deste pobre crítico que lhes escreve e pintou o sete por aqui. Mas, como às vezes o que o Luiz Santiago escreve faz algum sentido (é raro, mas acontece), resolvi, como estratégia de psicologia reversa, incorporar os comentários dele à minha crítica, algo que os leitores poderão identificar pela escrita mais desleixada cor diferente do texto padrão. Assim, qualquer problema com a presente crítica, culpem o nosso mujahidin de plantão…

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Com apenas seis episódios, a mais nova sitcom de animação do Netflix, baseia-se nas rotinas cômicas de Bill Burr, comediante stand-up de certo renome nos EUA. Trata-se de material adulto e nada recomendado para menores.

Muito ao contrário, na verdade, esse fantástico trabalho criativo de Burr e Michael Price talvez funcione melhor apenas com maiores de 35 anos de idade ou, ao menos, pessoas que já tenham família formada há alguns anos. E porque eu digo isso? Pois há muitos temas ali que, ainda que os mais jovens, claro, entenderão e apreciarão, creio que a verdadeira dimensão do que é trabalhado pelos comediantes, usando-se do trabalho de roteiro de Benjamin Marsaud e Laurent Nicolas, ecoe melhor com “jovens mais velhos”.

Para começar, há que se desprender do mundo politicamente correto em que vivemos hoje. Por essa razão, a série se passa na década de 70, mais precisamente em 1973, quando essa expressão nem mesmo existia e quando xingar e mesmo bater em seus filhos para fins didáticos não era algo que gerava manchetes de jornal (há gradações no que escrevo, claro, mas resolvi ser abrangente e menos politicamente correto, exatamente como a série exige). Coisas que hoje são super comuns para nós (2015), mas que na época retratada eram tabus ou ainda estavam em processo de incorporação na sociedade, como ações ligadas ao feminismo, por exemplo, que permeiam cada situação, cada diálogo que é inteligentemente trabalhado para levantar a discussão para o público atual. Portanto, há que haver uma certa identificação com toda a situação, digamos “histórica” que vemos na sitcom para que seu objetivo seja alcançado de verdade.

Partindo de diálogos chulos, repletos de palavrão e com a abordagem quase explícita (ou explícita mesmo) de quase todo tipo de assunto do dia-a-dia, os roteiristas caminham perigosamente entre o chocante e a lição em vários níveis. O choque vem da análise mais perfunctória do que é dito, com Frank Murphy (voz de Bill Burr), um pai de família, não tendo papas na língua para falar com sua esposa e com seus três filhos. Ele é o estereótipo do homem de meia-idade infeliz com seu status quo e que, por isso, trata todo mundo mal. Sua esposa, Sue (Laura Dern) não pode trabalhar, pois lugar de mulher é em casa limpando a casa, cozinhando e cuidando dos filhos. No máximo ela tem permissão de ter o hobby de vender Plast-a-Ware (alguém se lembra das vendedoras de Tupperware aí?) para as vizinhas. O filho mais velho, Kevin (Justin Long), é percebido como não mais do que um marginalzinho que gosta de opera rock e de se drogar com os amigos. Bill (Haley Reinhart), o filho do meio, tem justamente essa “síndrome” e ao mesmo tempo que se identifica com o irmão mais velho, também sente proximidade com sua irmãzinha Maureen (Debi Derryberry), a princesinha do papai, que, por sua vez, é muito mais esperta – e sacana – do que sua tenra idade em tese permite (mas a garota é a que tem menor exploração nos roteiros). É interessante como o texto não trata os filhos como bibelôs ou com exageros impossíveis, como os Simpsons fazem. Dá parar curtir muito o realismo, mesmo na hora dos nonsenses e absurdos. Alguns podem até tentar definir essa família como disfuncional, mas parem por um momento e olhem à sua volta e vejam se ela não retrata com bastante proximidade a verdade dos fatos, sem verniz e sem varrer problemas para debaixo do proverbial tapete. Talvez você não precise olhar muito além de sua própria família.

Mas, muito além dos diálogos, há o realismo do desenho. Não, não estou falando de fotorrealismo dos traços da animação em si. Há muita crueza nesse sentido, com um trabalho que pende para a simplicidade. Mas é uma simplicidade falsa, porém, pois tudo é muito bem pensado nos seus mínimos detalhes. Os animadores não tiveram medo de mostrar sujeira ou outras coisas nojentas — banheiro pichado e sujo, marcas de óleo e outros fluídos em vários episódios, especialmente no aeroporto. Vemos também que essa realidade muda dependendo do ponto de vista. O adolescente rebelde é o meu favorito! Mais legal ainda é que tanto visual quanto dramaticamente não tiveram medo de mostrar traumas e medos de infância: bullying, suspensão escolar, notas baixas, acidentes e ações atrapalhadas do filho do meio, culminando na super traumatizante cena em que ele está embaixo da cama quando os pais brigam e dão sequência com um rebound sex.

E os roteiros também não se furtam de abordar problemas trabalhistas e questões raciais, que ganham críticas gigantes e ferrenhas. Além disso, abismos sociais e a inveja a que isso pode levar também são vistas mesmo na vizinhança dos Murphy, com as  grandes diferenças entre o modo de vida dos vizinhos (Vic – Sam Rockwell – hahahahahaha). E nesse ponto é que a inteligência de F Is for Family vem à tona de verdade. Ao distanciar-se do politicamente correto para poder realisticamente mostrar uma situação em que o preconceito podia correr solto impunemente, Burr e Price fazem suas críticas. Eles desnudam o absurdo das situações na frente do espectador, sem medo de serem acusados de preconceituosos ou misóginos. Cabe então a nós olharmos para aquilo tudo e repararmos que talvez o que é retratado como sendo algo do longínquo ano de 1973 não seja tão longínquo assim. Talvez não seja só a família “estranha” que esteja assim tão próxima de nós. 

Mas, no final das contas, a série, apesar de pesada, de mostrar uma realidade que talvez não queiramos ver, tem uma mensagem positiva e construtiva. Ela explicita para impedir que desviemos o olhar, para talvez utopicamente nos fazer encarar o mundo e mudá-lo. Por exemplo, o episódio de Natal é maluco e ao mesmo mostra o encanto que a rotina e o clichê da “família unida” ou do “espírito natalino” podem ter. É sensacional. Lembrou-me bastante A Felicidade Não se Compra.

A abertura também é outro ponto alto na série. Em algo como um minuto e com Come and Get Your Love, do Redbone, ao fundo, vemos o voo de Frank em direção à liberdade, com sua formatura e, depois, sua gradativa queda com o envelhecimento (barriga! perda de cabelo!) e com o peso da família. É um exemplo assustador de concisão e, de tão real, de tão perfeita, chega a ser constrangedor concluir que ela não tem nada de engraçada…

F Is for Family será hilária para alguns, constrangedora (por razões diferentes) para outros e inaceitável ainda para um outro grupo de pessoas. Mas em hipótese alguma ela será uma série (ao menos esta temporada) que desgrudará da memória daqueles que a assistirem.

F Is for Family – 1ª Temporada (EUA – 2015)
Criação: Bill Burr, Michael Price
Direção: Benjamin Marsaud, Laurent Nicolas
Roteiro: Michael Price, David Richardson, Tom Gianas, Emily Towers
Elenco: Bill Burr, Laura Dern, Justin Long, Debi Derryberry, Sam Rockwell, Haley Reinhart, Mo Collins, Trevor Devall, Phil Hendrie, Kevin Michael Richardson
Duração: 25-28 min. (por episódio – seis no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.