Crítica | Fábulas – As 1001 Noites de Neve

estrelas 4,5

Próximo a chegar ao 50º número de Fábulas, entre o e 8º volumes encadernados da série, Bill Willingham já estava mais do que estabelecido como um dos maiores nomes da Vertigo Comics. Ele já havia publicado um one-shot separado da série principal – O Último Castelo, depois reunido como parte do volume quatro – e encontrava-se meio que em um “ponto de virada” no maxi-arco de 11 volumes sobre a Guerra das Fábulas. Com isso, ele partiu para sua primeira graphic novel propriamente dita, inserida nesse universo. O resultado foi As 1001 Noites de Neve, lançada em 2006 em capa dura e sobre sobrecapa de luxo nos EUA.

1001 noites de neve fabulas plano criticoPublicado em formato de antologia, com uma história em prosa que perpassa todo o volume e nove histórias de variados tamanhos, uma delas dividida em duas partes, cada uma desenhada por um artista diferente, Willingham faz algo diferente do que fez em O Último Castelo, com a desconexão completa em relação aos eventos de sua história principal de maneira que essa edição servisse como “ponto de entrada” para eventuais novos leitores. Em outras palavras, pouco ou nada é necessário saber para mergulhar nesse riquíssimo universo que ele criou. Para os leitores assíduos, claro, a graphic novel tem um gosto especial, pois ela desenvolve diversos aspectos mencionados aqui e ali durante os sete primeiros volumes então publicados.

Inspirando-se na coletânea de histórias e contos orientais conhecida como As Mil e Uma Noites, Willingham transforma Branca de Neve, emissária da Cidade das Fábulas ao mundo dos fábulas árabes, em uma versão de Sherazade, inclusive usando o mesmo (ou quase) artifício que enquadra as lendas do oriente. Como em As Mil e Uma Noites, Branca encontra-se em uma situação impossível em que não só terá que se casar com o sultão, como será morta na manhã seguinte como parte da tradição, para evitar que ele seja traído. O resultado? Como Penélope esperando Ulisses, Branca passa a engrupir o sultão contando as mais diversas histórias das Terras Natais, antes do êxodo de fábulas para o nosso mundo. Essa é a história em prosa – intitulada Uma Mulher Impertinente – que inicia a graphic novel e a que Willingham volta em cada intervalo entre narrativas.

Com isso, o autor nos presenteia com a oportunidade de passear pelas histórias pregressas de diversos personagens cujas “novas versões” nos foram apresentados ao longo da série principal, começando pela própria Branca de Neve. Aliás, nessa primeira história efetivamente em quadrinhos – As Lições de Esgrima – aprendemos em todos os detalhes escabrosos o porquê de Branca não querer falar sobre os anões, como brevemente referenciado em Lendas no Exílio, além de termos um vislumbre de seu casamento com o Príncipe Encantado. E tudo isso ainda com uma belíssima arte pintada por John Bolton que transforma cada página em um quadro.

A breve história seguinte, As Tortas de Natal, foca no raposo Reynard, que conhecemos em A Revolução dos Bichos, e solidifica o quanto ele é esperto e manipulador, ao mesmo tempo que um herói. Novamente, a arte é linda – e também pintada – tendo ficado ao encargo de Mark Buckingham, o principal desenhista da série regular.

Não é meu objetivo descrever cada uma delas aqui, pois tomaria muito tempo, tempo esse que o leitor deveria empregar para ler ou reler essa graphic novel. Mas, apenas para que se possa ter uma ideia, apesar da pluralidade de artistas, nenhuma arte desaponta, o que é raro em antologias dessa natureza. Claro que, dependendo do gosto pessoal de cada um, determinado traço ou estilo poderá agradar mais ou menos (particularmente acho lindas as artes de James Jean, que sai das suas soberbas capas e faz uma história sobre Ambrósio, o Príncipe-Sapo ou Papa-Moscas e a de Brian Bolland que, em apenas duas páginas – infelizmente! -, conta a história da sereia Mersey). Mas há muito mais para explorar, como uma história “de origem” de Bigby Lobo e o “verdadeiro” conto de João e Maria. Há, no final das contas, histórias para todos os gostos – algumas mais relevantes e detalhadas que as outras, claro – desde que o leitor saiba que lerá versões contorcidas de seus queridos personagens, algo característico do texto de Willingham desde que começou sua marcante série.

Se Sherazade conseguiu enfeitiçar o sultão com suas 1001 histórias, Willingham faz o mesmo com seus leitores. E o melhor é que não há perigo de ninguém – fora das histórias, claro – ser degolado na manhã seguinte.

Fábulas – As 1001 Noites de Neve (Fables – 1001 Nights of Snowfall , EUA – 2006)
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Charles Vess, Michael Wm Kaluta, John Bolton, Mark Buckingham, James Jean, Mark Wheatley, Derek Kirk Kim, Tara McPherson, Esao Andrews, Brian Bolland, Jill Thompson
Cores: Brian Bolland, Derek Kirk Kim, John Bolton, Mark Wheatley, Charles Vess, Esao Andrews, Jill Thompson, Mark Buckingham, Tara McPherson
Letras: Todd Klein
Capa: James Jean
Editora original: Vertigo Comics
Data original de publicação: outubro de 2006 (encadernado)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data original de publicação: setembro de 2013 (encadernado)
Páginas: 148

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.