Crítica | Fábulas: Vol. 1 – Lendas no Exílio

estrelas 4

Fábulas e seu riquíssimo universo que geraram diversos spin-offs, um romance e até games são as grande criações autorais de Bill Willingham, autor americano que, antes, tinha em seu currículo obras como Elementals (pela Comico) e Ironwood (pela Fantagraphics). De 2002 a 2015, ao longo de 150 números da série principal que lhe valeu diversos prêmios Eisner, o escritor trabalhou nesse que foi um dos grandes projetos da Vertigo Comics, ajudando a sedimentar a imagem e a reputação desse selo mais adulto da DC Comics que já contava com publicações fenomenais como Hellblazer, Sandman, Monstro do Pântano e 100 Balas.

fabulas volume 1 capaO conceito de Fábulas – a reunião de personagens de contos-de-fada, do folclore e da literatura – já havia, de certa forma, sido explorado por Alan Moore poucos anos antes em A Liga Extraordinária, que juntava alguns poucos personagens da literatura fantástica vitoriana. Mas Willingham dá vários passos além (não necessariamente em profundidade, vejam bem) e encampa um impressionantemente vasto número de personagens que não só cobrem os tradicionais contos de Esopo, Irmãos Grimm, Charles Perrault, Hans Peter Andersen, La Fontaine e Gabrielle-Suzanne Barbot, como também os contos orientais de As Mil e Uma Noites e personagens (e também situações) mais recentes de obras seminais do século XX como A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

E o autor faz tudo isso com calma e tranquilidade, sem apressar as coisas e sem afogar o espectador com explicações desnecessárias e um turbilhão incessante de personagens. Eles vão aparecendo aos poucos, dos mais conhecidos aos mais obscuros, sem que pareça que estamos lendo uma aula sobre suas “vidas pregressas”. Seus contos e fábulas estão todos lá – talvez não da maneira asséptica que ouvimos de nossos pais à beira da cama na hora de dormir- mas muita coisa será reconhecida por todos. No entanto, há, também, diversos elementos menos explorados que exigem atenção e, talvez até, um pouco de pesquisa pelos leitores mais curiosos. Não chega a ser necessário o grau de erudição exigido por Alan Moore, mas Willingham não se contenta em jogar no “nível fácil”.

O maior exemplo disso é justamente o arco inicial de Fábulas, Lendas no Exílio, que reúne os cinco primeiros números dessa longeva – mas finita – série. Os personagens centrais são Branca de Neve e Bigby Lobo (o nome, em inglês, “Bigby Wolf”, é uma inteligente brincadeira fonética com big bad wolf ou, como conhecemos aqui, “lobo mau”), a primeira uma espécie de gerente geral da Cidade das Fábulas, basicamente uma rua em plena Nova York atual e o segundo o xerife da comunidade. Ainda testando águas, Willingham escreve uma história simples que, no estilo Agatha Christie, lida com um crime que precisa ser solucionado. E que crime é esse? O assassinato de Rosa Vermelha, irmã de Branca de Neve.

Irmã de Branca de Neve???

É nesse ponto que a questão da ausência do “nível fácil” no roteiro de Willingham manifesta-se mais claramente. Seus personagens são amálgamas de personagens parecidos. Bigby é o lobo que soprou as casas dos Três Porquinhos da mesma maneira que é o lobo que comeu (no bom sentido!) Chapeuzinho Vermelho e a vovozinha. Branca de Neve, por sua vez, é ao mesmo tempo a Branca de Neve de Schneewittchen, o conto mais conhecido da personagem, com espelho mágico, maçã envenenada e caixão de vidro (transformado no imortal primeiro longa metragem animado da Disney) e a Branca de Neve de Schneeweiβen und Rosentrot, sem relação com o outro, em que ela tem uma irmã – Rosa Vermelha (Rosentrot) – cada uma com uma personalidade oposta da outra, a primeira quieta e tímida e a outra expansiva e alegre.

Essas personalidades são refletidas no que aprendemos tanto sobre Branca de Neve como sobre Rosa Vermelha nesse primeiro volume, com uma história detetivesca com uma meta-narrativa que mostra que os personagens, de certa forma (e somente para nós, quebrando a quarta parede) são auto-conscientes sobre sua condição de personagens. Afinal, na sequência final, o crime é solucionado não “naturalmente”, mas sim por intermédio de um típico capítulo de encerramento de uma obra de Christie ou de Arthur Conan Doyle, com todos os personagens reunidos em um só ambiente para que o grande e esperto detetive desvende o acontecido.

O artifício usado por Willingham tem objetivos claros. Primeiro, ele precisava atrair leitores para seu projeto e a melhor forma de fazer isso é simplificar tudo, com uma história atraente, mas repleta de clichês. Segundo, seus novos – mas não tanto – personagens precisavam ser apresentados e a estrutura narrativa de uma trama detetivesca permite que Bigby questione diversos outros pares como João das Fábulas (a amálgama de todos os “Joões” de contos-de-fada), namorado de Rosa Vermelha, Barba Azul, nobre que tem também um passado secreto com Rosa, além do Príncipe Encantado (também uma junção de todos os príncipes que casam com princesas – e sim, ele casou múltiplas vezes e sim, com todas as princesas que você está pensando, a começar por Branca de Neve), Papa-Moscas (o príncipe Ambrósio de O Príncipe e o Sapo) e Garoto Azul, assistente de Branca de Neve e que se tornaria essencial à trama (sua origem vem de uma música de ninar tradicionalíssima da língua inglesa chamada Little Boy Blue).

Além disso, passeamos pelas situações que seriam, depois, desenvolvidas em detalhes pelo autor: como o título deixa a entrever, esses personagens todos estão em Nova York (sempre Nova York!) depois de um exílio forçado. Suas terras – várias terras separadas, cada uma com seu grupo de personagens – foram atacadas por um misterioso e poderoso inimigo conhecido apenas como O Adversário e os sobreviventes tiveram que se refugiar no “mundo real”. Os fábulas de aparência humana ou com dinheiro para adquirir encantamentos que os transformassem em humanos vivem na Cidade das Fábulas, já que conseguem se misturar aos humanos comuns sem causar alarde, enquanto que os fábulas não-humanos, como por exemplo os Três Porquinhos (um deles – Colin – já aparece nesse volume) vivem na Fazenda, uma vasta propriedade reclusa e secreta no interior do estado de Nova York. Aprendemos tudo isso na medida em que o Dia da Lembrança se aproxima, quando os fábulas param para rememorar o passado nostálgico em suas terras originais, elemento que é usado também por Bigby como parte do plano para solucionar o crime que catalisa os acontecimentos.

E, como eu disse lá no começo, Willingham é parcimonioso em seu texto. Ele escreve aquilo que realmente é necessário, às vezes ultrapassando um pouco esse limite imaginário, mas constantemente mantendo-se economicamente dentro de algo permite a fluidez da história sem grandes percalços ou textos expositivos. Ele brinca com nossas percepções e ideias pré-concebidas sobre os personagens – vemos a Bela e a Fera como um casal menos do que perfeito, a inesperada cafajestagem do Príncipe Encantado e uma menção particularmente libidinosa em relação à recatada Branca de Neve e, com isso, estabelece as bases para toda sua obra futura que definitivamente não é recomendada para crianças. Ao escolher confinar esse primeiro arco a poucos lugares e todos eles na Cidade das Fábulas, com apenas duas ou três páginas de flashbacks para as terras originais dos fábulas, ele prende a atenção do leitor ao mesmo tempo que aumenta sua curiosidade, pois é possível perceber que ele trabalha apenas uma fração de um riquíssimo universo.

Galeria de capas de James Jean - #1 a #5

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A arte, por Lan Medina, que já no arco seguinte seria substituído por Mark Buckingham (que, por sua vez, acompanharia a série quase que até seu final) é eficiente ao estabelecer os personagens e ao transpor visualmente as ideias de Willingham. No entanto, seu trabalho carece de detalhes e ele tende a trabalhar de maneira contida, sem focar no plano de fundo e deixando alguns quadros, no processo, pouco ricos e interessantes. Sua transição de quadros é burocrática, com apenas alguns arroubos de criatividade, especialmente ao emoldurar páginas com elementos temáticos do que está sendo discutido nelas, algo que se tornaria padrão na série. Em linhas gerais, é uma arte que só realmente atrai o leitor pelo inusitado de se ver personagens clássicos em roupagem adulta e completamente diferentes do que imaginávamos, mas isso é muito mais fruto dos roteiros de Willingham do que da arte de Medina.

Vale especial destaque, no quesito arte, para as lindíssimas e celebradas capas por James Jean que viria até mesmo a ganhar uma compilação especial pela Vertigo Comics com 81 capas da série principal e 12 de dois spin-offs. Seu trabalho é literalmente mágico e lírico, capturando sempre com muita inteligência o espírito do conteúdo de cada número.

Fábulas é uma série em quadrinhos obrigatória para os fãs de HQs, simples assim. Impossível viver feliz para sempre sem ter saboreado esse magnífico trabalho de Willingham.

Fábulas: Vol. 1 – Lendas no Exílio (Fables: Vol. 1 – Legends in Exile, EUA – 2002)
Contendo: Fábulas #1 a 5, publicados originalmente entre julho e novembro de 2002
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Lan Medina
Arte-final: Steve Leialoha
Cores: Sherilyn Van Valkenburgh
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: junho de 2012 (encadernado)
Páginas: 127

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.