Crítica | Fábulas: Vol. 2 – A Revolução dos Bichos

estrelas 4,5

No segundo arco de Fábulas, Bill Willingham expande o horizonte da série abordando diretamente a Fazenda, que é apenas mencionada no primeiro arco como o local onde os fábulas que não podem passar por humanos ficam confinados, e deixando muito clara uma regra que seria fortemente explorada no spin-off João das Fábulas (mas também na série principal), além de iniciar a pavimentação do caminho para uma espécie de mega-arco formado pelo 11 primeiros volumes da série. Mas sei que estou me adiantando. Vamos por partes.

fabulas a revolucao dos bichos capaCom um breve início em Nova York, na Cidade das Fábulas que, na verdade, é uma rua integralmente de propriedade deles, mas cujos segredos os humanos desconhecem. Vemos João das Fábulas pagando pelo crime que, junto com Rosa Vermelha, perpetrou no primeiro volume. Não é nada tão sério e ele presta serviços comunitários muito a contragosto. Rosa Vermelha, por sua vez, também condenada a tais serviços, parte com sua irmã Branca de Neve e com o porco Colin (ou Cícero, um dos três porquinhos que fez ponta quase silenciosa no primeiro arco) para a visita bi-anual de Branca à Fazenda. Não poderia haver castigo maior para Rosa Vermelha do que ser obrigada a aturar sua irmã durante a longa viagem ao interior do estado.

Ao chegarem na Fazenda, elas se deparam com a versão “fábulas” de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, como o título original em inglês e a tradução brasileira deixam bem claro. Dun e Posey (Prático e Heitor – não uso os nomes em português deles, pois esses nomes são os do desenho da Disney usados na tradução brasileira e também no encadernado daqui, não os originais), os outros dois porquinhos, fazem um comício perante vários de seus pares bestiais exigindo ação contra o Adversário. Em outras palavras, eles querem retomar as terras originais dos fábulas dominadas por essa misteriosa e quase lendária figura. Quando Branca e Rosa entram no celeiro em que o comício acontece, os animais debandam e tratam o assunto com a maior naturalidade.

No entanto, a madrugada traz um cruel assassinato que catalisa uma investigação rigorosa por parte de Branca de Neve que, aos poucos, vai revelando uma conspiração muito maior e que envolve a agitadora Cachinhos Dourados (que Willingham sensacional e maldosamente apresenta como uma mulher que partilha a cama do filhote urso do conto-de-fadas por ele ser bem dotado…) e vários animais da literatura, incluindo o tigre Jangal Khan e a pantera negra Baguera de Mogli – O Menino Lobo, de Rudyard Kipling. Do lado pró-Branca de Neve, tem-se a raposa Reynard e Rei Nobre, o Leão (retirados de uma amálgama de contos medievais), dentre alguns poucos outros. A trama é aventuresca, cheia de ação e mostra que Branca de Neve não é só uma administradora da Cidade das Fábulas, mas sim uma verdadeira estrategista que definitivamente não precisa de um “Príncipe Encantado” para se virar sozinha. É nesse arco que realmente entendemos isso, pois, no primeiro, sua presença fica de certa forma sombreada pela de Bigby Lobo que não pode colocar os pés na Fazenda, por razões óbvias.

Dessa maneira, Willingham cava ainda mais fundo e nos apresenta um sem-número de novos personagens, alguns muito familiares, outros extremamente desconhecidos (como é o caso de Reynard, por exemplo). Há até alguns que só aparecem muito discretamente, por ainda estarem protegidos pelo Direito Autoral, como o Ursinho Puff (recuso-me a chamá-lo de Pooh). Um dos prazeres desse arco, vale dizer – mas também de vários outros da série -, é justamente localizar e nomear cada personagem, algo que exigirá muita pesquisa dos mais curiosos.

Mas, como disse no parágrafo introdutório, o autor não expande a série somente com novos personagens. Em A Revolução dos Bichos ele planta, definitivamente, a ideia que os fábulas, no fundo, querem mesmo retornar às suas terras originais e derrotar o temível Adversário. Isso fica evidente no comício do início do arco, mas é mais evidenciado ainda ao seu final, com as providências tomadas por Branca de Neve com ajuda de Weyland Obreiro, o “diretor” da Fazenda (personagem baseado em Wayland, the Smith, das mitologias nórdica e germânica). Vê-se, ali, o início do rastilho de pólvora que culminaria vários volumes a frente nas terras dos fábulas e com a revelação surpreendente da identidade do Adversário.

Além disso, Willingham estabelece uma ponte entre os fábulas e os humanos, em uma espécie de relação simbiótica muito interessante. Enquanto que em A Liga Extraordinária, os personagens reutilizados por Moore vivem no mesmo mundo que os humanos, sem qualquer diferenciação, em Fábulas as regras são diferentes. Não só os personagens estão exilados em nosso mundo, como eles dependem dos humanos e, de certa forma, vice-versa. O que o autor estabelece é que, se nós temos “necessidade” de ter contos-de-fadas como uma forma de aprender, sonhar, soltar a imaginação, os fábulas também precisam que nós os conheçamos. E, como corolário, quanto mais famoso é um fábula perante os humanos, mais poderoso – ou “mais imortal” – esse fábula será. E é interessante ver como, incrementalmente, ao longo dos volumes, essa “regra” é implementada e usada por Willingham.

Galeria de capas de James Jean - #6 a #10

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No quesito arte, Lan Medina sai como desenhista fixo, entrando em seu lugar Mark Buckingham que acompanharia quase que na integralidade o resto da série. Com isso, Fábulas ganha em qualidade, com maior detalhamento de fundo, páginas duplas extremamente belas e eficientes (vejam que linda e épica, por exemplo, o spread com os três gigantes dormindo, com Branca de Neve em primeiro plano) e um ritmo melhor para a ação, além de traços mais sombrios – sem serem escuros, é importante não confundir – quando necessários. A caracterização dos personagens fica também mais marcante, com Branca de Neve e Rosa Vermelha despontando como guerreiras e Cachinhos Dourados com um divertidíssimo tom anárquico-filosófico-maléfico que é traduzido em imagens logo quando a vemos pela primeira vez.

Buckingham também continua a “marca registrada” da série, ao largar nas molduras das páginas informações visuais referentes ao conteúdo delas. Pode parecer bobagem, uma espécie de fetiche, mas é impressionante como esses detalhes – iniciados e possivelmente inventados por Medina, tenho que ser justo – enriquecem a leitura e nos dão pistas visuais muito interessantes.

A Revolução dos Bichos é mais um grande acerto de Bill Willingham ainda no começo de sua longeva série Fábulas. Consegue ser ainda melhor que o primeiro arco, com uma história expansiva e ao mesmo tempo fechada e com a entrada de Buckingham para cuidar da arte. Orwell ficaria orgulhoso!

Fábulas: Vol. 2 – A Revolução dos Bichos (Fables: Vol. 2 – Animal Farm, EUA – 2002/3)
Contendo: Fábulas #6 a 10, publicados originalmente entre dezembro de 2002 e abril de 2003
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Mark Buckingham
Arte-final: Steve Leialoha
Cores: Daniel Vozzo
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: outubro de 2012 (encadernado)
Páginas: 132

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.