Crítica | Fábulas: Vol. 3 – O Livro do Amor

Nota geral do volume:

estrelas 4

Obs: Há spoilers dos volumes anteriores.

fabulas o livro do amor capaO terceiro volume de Fábulas reúne mais do que apenas o arco O Livro do Amor (Storybook Love) que o nomeia. Bill Willingham já havia começado a se sentir mais confiante com seu trabalho depois dos dez números iniciais que formaram os dois arcos fechados anteriores, Lendas no Exílio e A Revolução dos Bichos e tratou de escrever dois one-shots (#11 e #18) e um mini-arco de dois números (#12 e #13) que ajudam a expandir sua mitologia. Com isso, o volume três acabou ficando substancialmente maior do que os anteriores. Como pode ser injusto dar uma nota só a todo o volume, decidi fazer as duas coisas. Assim, a nota acima é para o volume como um todo, considerando-se que há três histórias desconexas nele e, abaixo, antes de comentários específicos sobre cada uma delas, há a nota separada para elas.

Saco de Ossos

estrelas 3,5

O primeiro one-shot aborda um momento no passado já em nosso mundo da vida de João das Lorotas (uma amálgama de todos os “Joões” ou “Jacks” dos contos-de-fada), personagem que já ganhara bom destaque em Lendas no Exílio, como comparsa de Rosa Vermelha. Aqui, vemos um pouco mais da dimensão da canalhice do personagem, que, durante a Guerra Civil americana, lutava pelo Sul. Abandonando seus colegas de batalha com uma desculpa esfarrapada qualquer, ele vai a uma fazenda (que muito bem poderia ser Tara, de …E o Vento Levou) onde encontra Sally Cornwelles, uma jovem donzela sozinha e presa à cama em razão de doença debilitante.

Como estamos falando de João das Lorotas, sua mais imediata reação não é compadecer-se pela moça ou de alguma forma ajudá-la. O que ele quer é transar com ela, mesmo que ela mal consiga se movimentar. Nojento, asqueroso, repugnante? Bem, caros leitores, esse é o mundo de Fábulas de Bill Willingham, definitivamente desaconselhado para menores e algumas vezes revoltante até para os adultos, mesmo que em todos (ou quase todos) os momentos seja brilhante. Mas a história não é só sobre isso e ainda conta com um encontro de João com o próprio diabo e com ninguém menos do que a Morte, com direito a esqueleto encapuzado e foice.

Apesar da temática pesada, a narrativa é estranhamente leve e nos coloca como cúmplices de João das Lorotas. Queremos odiar o sujeito por tudo que ele faz, mas não conseguimos. Afinal, como desgostar de alguém que passa a perna no diabo e ainda enfrenta a Morte?

A arte, que ficou ao encargo de Bryan Talbot, é fortemente estilizada, às vezes grotesca, combinando bem com a atmosfera que Willingham tenta imprimir à história. Não há ação e, portanto, não há espaço para invencionices, fazendo com que o desenhista mantenha-se dentro de parâmetros que poderiam ser vistos como burocráticos em termos de sucessão de quadros. Mas a grande verdade é que a forma obedece o conteúdo aqui e o resultado do trabalho dele dá conta do recado.

Uma Aventura em Duas Partes

estrelas 4

Um repórter humano (ou “mundano”, como os fábulas nos chamam) abelhudo descobre o segredo da Cidade das Fábulas e deduz que, como eles não envelhecem, eles só podem ser vampiros… Mas, eticamente, ele resolve procurar Bigby Lobo para ouvir o lado dele sobre a situação. E, com isso, ele comente um grave erro.

Afinal, mesmo que ele não tenha descoberto toda a verdade (que é muito mais inacreditável do que se os fábulas fossem “só” vampiros), o que ele sabe – e aparentemente pode provar – já é suficiente para desequilibrar a vida de nossos heróis. Como xerife loca, Bigby, então, resolve agir e, aliciando a ajuda de Papa-Moscas, Garoto Azul, Príncipe Encantado, Pinóquio, João das Lorotas, Barba Azul e Princesa Aurora (a Bela Adormecida), ele monta um plano para impedir que o repórter publique seu artigo. Apesar de Bigby ser o Lobo Mau, ele quer evitar violência desnecessária e isso o coloca em confronto com Barba Azul, que não só quer resolver tudo na base do assassinato, como não gosta de obedecer ordens, por achar que, com seu dinheiro (ele é um dos poucos fábulas que conseguiu fugir das terras natais com sua fortuna) ele faz o que quer.

Apesar de o conflito entre Bigby e Barba Azul ser estabelecido e trabalhado ao longo de toda narrativa, o grande destaque fica mesmo para o plano mirabolante de Bigby, que envolve a maldição do sono de Aurora e fotos pedófilas com Pinóquio (afinal, ele é “apenas” uma criança…). Willingham novamente destrói todas as nossas expectativas sobre os adorados personagens de contos-de-fada que ouvimos de nossos pais e avós quando crianças em uma história que reúne a graça de Onze Homens e um Segredo com a seriedade elegante de Rififi. É uma história auto-contida que diverte e revela muito sobre as personalidades dos envolvidos, deixando claros os “lados” que existem nessa estranha e milenar comunidade encrustada em plena Nova York.

Lan Medina, responsável pela arte de todo o primeiro volume de Fábulas, volta para desenhar esse mini-arco e, aqui, ele faz um trabalho melhor do que sua incursão anterior nesse mundo. Com muitas sequências noturnas, ele consegue dar um ar noir à história que combina perfeitamente bem a intenção de Willingham. Seus traços que tendem a esconder detalhes combinam melhor com a atmosfera da narrativa e, com isso, o resultado final é interessante, às vezes em partes iguais alegre e sinistro.

O Livro do Amor

estrelas 5,0

O arco principal propriamente dito, publicado ao longo de quatro números de Fábulas (#14 a #17) traz de volta Mark Buckingham na arte em uma história que funciona para fechar a narrativa de A Revolução dos Bichos e iniciar outra, muito importante, em relação aos dois mais importantes personagens da série. Mas não interpretem minha afirmação como sendo algo que abale a estrutura fechada do arco anterior. Não é isso. O Livro do Amor usa como pretexto uma pequena ponta solta para, como o título dá entender, fazer germinar o amor entre Bigby Lobo e Branca de Neve.

A ponta solta é Cachinhos Dourados. Afinal, foi ela quem incitou os fábulas animais à revolução e quem covardemente baleou Branca de Neve na cabeça. Vemos, assim, uma história que aborda a recuperação da personagem – e mais uma vez entendemos a relação entre a fama de um fábula perante os mundanos e sua resistência física – e uma trama que coloca Cachinhos Dourados outra vez como uma inimiga mortal.

É que Barba Azul engendra um complicado plano envolvendo magia para mandar Bigby e Branca para o meio da floresta em Seattle de maneira que Cachinhos possa dar cabo dos dois sem que mais ninguém desconfie. O que se desenrola a partir daí é a estranhíssima – diria até desconcertante – aproximação romântica dos dois (Bigby já se declarara para Branca em Lendas no Exílio e agora entendemos exatamente o porquê), uma demonstração dos poderes de Bigby como lobo, com sua transformação completa em um lobo gigante e que tem o poder de causar ventanias herdado de seu pai, o Vento do Norte (afinal, ele derrubou as casas de dois dos três porquinhos e, aqui, ele explica porque não derrubou a terceira…) e uma violenta e sanguinolenta “batalha final” com ele e Branca de Neve de um lado e uma louca Cachinhos Dourados de outro.

Galeria de capas de James Jean #11 a #18

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Trata-se de uma história fundamentalmente de ação, mas que tem, nos acontecimentos simultâneos que vemos na Cidade das Fábulas, aspectos de intriga política. É que o Príncipe Encantado (ex-marido de Branca, Cinderela e Aurora) investiga o envolvimento de Barba Azul com Cachinhos Dourados, mas não sem ter sua própria agenda escusa. O interessante é entender como todos os personagens escritos por Willingham têm nuances. Já sabíamos que o Príncipe Encantando usava seu poder mágico de “charme” (no original, ele se chama Prince Charming ou “Príncipe Charmoso) para usar e abusar de mulheres, o que por si só já o coloca entre os top 3 canalhas da série, mas a questão é muito mais profunda. Ele se ressente por não ter nada, por ser um príncipe apenas no papel, vivendo do dinheiro das mulheres que engambela. Com isso, vemos uma evolução, com o Príncipe Encantando fazendo de tudo para voltar a ser o que era antes.

Com Mark Buchkingham de volta ao lápis, vemos sua arte realmente desabrochar. Ele se utiliza de belas páginas inteiras para grande efeito dramático em sequências fantásticas, como Cachinhos Dourados perseguindo o Sargento Wilfred de Lilliput que cavalga o camundongo Rex e, depois, ele experimenta com uma sucessão orgânica de quadros de tirar o fôlego no acidente automobilístico de Branca e Bigby e em diversos outros momentos na floresta em Seattle. A utilização de símbolos nas bordas das páginas ganha outra dimensão em O Livro do Amor, com o uso de quadros inteiros em formatos sugestivos dos personagens, como os quadros-escudo representando o Príncipe Encantado e as espadas de esgrima ao pé das páginas do primeiro combate entre ele e Barba Azul. É fácil esquecer de ler e somente admirar a arte de Buckingham em toda sua glória, arte essa que realmente intensifica a experiência e realmente mescla a narrativa de Willingham com um visual inovador e cativante.

Noivas da Cevada

estrelas 3

A última história é um one-shot que tem Bigby como narrador de uma história para Papa-Moscas. Essa história, claro, é das Noivas da Cevada ou como o exército integralmente masculino de Lilliput conseguiu “exemplares” diminutos femininos para viverem com eles na Fazenda.

A cevada mágica, de Polegarzinha, é a chave de tudo e Bigby explica como roubar uma delas do cofre na Cidade das Fábulas tornou-se um ritual de crescimento dos jovens de Lilliput, mesmo que, hoje, o poder da semante seja completamente desnecessário. A razão para isso nós – e Papa-Moscas – aprendemos com a narrativa em flashback de Bigby que é apropriadamente escrita em tom de conto-de-fada. Além disso, aprendemos um pouco mais sobre as Terras Natais e da destruição perpetrada pelo Adversário que forçou a fuga de diversos fábulas por portões mágicos até nosso mundo. Vemos o exército lilliputiano deixando sua ilha até sua chegada à Terra e como foi frustrante para eles não poderem voltar para sua terra e não terem mulheres de seu tamanho para namorar.

É uma história gostosa de ler, com arte de Linda Medley que aumenta o tom de conto-de-fada do que vemos. Em muitos momentos, seu traço mais caricatural lembra o de Mike Allred, mas sem a mesma energia e originalidade. As transições são burocráticas e simplistas, mas acabam dando conta do recado.

Fábulas: Vol. 3 – O Livro do Amor (Fables: Vol. 3 – Storybook Love, EUA – 2003)
Contendo: Fábulas #11 a 18, publicados originalmente entre maio e dezembro de 2003
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Bryan Talbot (#11), Lan Medina (#12 e #13), Mark Buckingham (#14 a #17), Linda Medley (#18)
Arte-final: Craig Hamilton (#12 e #13), Steve Leialoha (#14 a #17)
Cores: Daniel Vozzo
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 2013 (encadernado)
Páginas: 196

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.