Crítica | Fábulas: Vol. 4 – A Marcha dos Soldados de Madeira

Nota geral do volume:

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers dos volumes anteriores.

fabulas a marcha dos soldados de madeira capa

O quarto volume de Fábulas esquenta as turbinas da série trazendo duas histórias que, diferente do que vimos no volume anterior, são conectadas, apesar de terem sido publicadas separadamente. A primeira delas é um one-shot estendido, de 48 páginas, que configura a primeira incursão de Bill Willingham para “fora” da série principal, já que ele não foi publicado dentro da numeração, mas sim como Fábulas – O Último Castelo, como se fosse um spin-off, mas sem ser. Sabiamente, porém, a Vertigo Comics inseriu o one-shot neste volume, já que ele dá substância a um elemento importantíssimo do maxi-arco A Marcha dos Soldados de Madeira, que durou oito números da publicação principal.

O leitor mais atento perceberá que o #22 de Fábulas não está contido neste quarto volume e a razão é muito simples: a história, focada em Cinderela, é completamente desconexa do restante, quebra o arco principal ao meio, e teria ficado estranha essa inclusão. Mas o número foi incluído logo na abertura do volume seguinte, Os Ventos da Mudança, e será, portanto, objeto de crítica.

A nota acima é geral, para o volume (não necessariamente uma média), mas cada arco também terá sua nota separada abaixo.

O Último Castelo

estrelas 5,0

Depois de ler 18 números de Fábulas, a ausência de um personagem famoso de contos-de-fadas chama a atenção. Onde está Chapeuzinho Vermelho? Perdeu-se na floresta? Finalmente foi comida (literalmente, gente de mente suja) pelo lobo mau? O Último Castelo vem, então, responder essas perguntas.

O tal castelo do título é, literalmente, o último bastião de defesa contra o Adversário nas terras natais. A narrativa, que se passa em flashback a partir das lembranças de um tristonho Garoto Azul contando-as para Branca de Neve, é cativante logo a partir de sua imagem inicial, com uma bela ruiva cavalgando desesperadamente em direção ao castelo, com as forças do Adversário atrás dela.

A disposição do castelo, seu caráter de último local de fuga dos fábulas (o castelo encobre o último portal aberto para nosso mundo) lembra em muitos detalhes – que, tenho certeza, não foi sem querer – a batalha do Abismo de Helm de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres ou talvez até mesmo a batalha nas Termópilas, entre espartanos e persas. O castelo, situado ao final de um desfiladeiro, é povoado por uma pletora de fábulas das mais variadas naturezas, guerreiros ou não, tentando sobreviver. Do outro lado, há uma força desproporcionalmente descomunal formada, em sua maioria, por fábulas monstruosos, sem nenhum medo de morrer aos milhares para destruir o punhado não leal ao Adversário no castelo.

Mas, no meio disso tudo, Willingham ainda tem tempo para inserir uma história de amor entre Chapeuzinho e Garoto Azul, então braço direito do Coronel Bearskin (retirado de uma história germânica mais obscura coletada pelos Irmãos Grimm). De certa forma, o autor cria uma estrutura shakespeariana aqui, com forte sabor da tragédia romântica Romeu & Julieta e, por mais clichê que isso possa ser, a narrativa funciona à perfeição. A mescla entre batalha valorosa e amor à primeira vista tem ritmo e há, ainda, a oportunidade de conhecermos diversos fábulas que não vimos na Cidade das Fábulas, especialmente a já citada Chapeuzinho e Robin Hood.

Talvez o elemento que realmente permita a amálgama dessa história seja a bela arte de Craig Hamilton, que trabalhara como arte-finalista no mini-arco Uma Aventura em Duas Partes, do volume anterior. Agora, no lápis de O Último Castelo, ele mostra segurança e desenvoltura em um trabalho que encanta pelos traços fortes que misturam realismo com elementos fantásticos naturalmente, com extrema eficiência no retrato de rostos e corpos humanos e humanoides. Ele não extrapola no uso criativo da sucessão de quadros como Mark Buckingham, mas ele torna a leitura fluida usando o básico de maneira uniforme e bem distribuída ao longo das páginas, com ocasionais páginas inteiras (como a primeira vez que vemos Chapeuzinho) e meias-páginas (como o ataque do dragão) de tirar o fôlego.

A Marcha dos Soldados de Madeira

estrelas 4,5

O primeiro maxi-arco da série principal (são oito números!) lida com a ameaça do Adversário em plena Cidade das Fábulas. Com ele, nós e os personagens aprendemos que nenhum fábula, em lugar algum, está a salvo da sana destruídora desse misterioso conquistador cuja identidade ninguém até agora conhece. Mas, em A Marcha dos Soldados de Madeira, as primeiras pistas sobre quem é essa figura nas sombras começam a aparecer para aqueles leitores que estiverem atentos.

A história começa sem pressa, ainda que mergulhe na ação imediatamente com uma fábula ruiva (adivinha quem é?) chegando ao nosso mundo, a primeira depois de mais de um século. Ela chega pelo portal do Canadá e está sendo transportada para a Cidade das Fábulas em Nova York quando seu transporte é interceptado por goblins. Ao mesmo tempo, vemos Branca de Neve recebendo, em um sonho, a cabeça cortada de Colin (ou Cícero), um dos três porquinhos que fora assassinado por seus irmãos em A Revolução dos Bichos. Nesse sonho – ou visão – Colin avisa para Branca que uma grande ameaça chegará, sem especificar o que.

No dia-a-dia na Cidade das Fábulas, o que vemos são os eventos posteriores ao assassinato de Barba Azul pelo Príncipe Encantado enquanto Bigby e Branca estavam perdidos nos arredores de Seattle em O Livro do Amor. Os bens de Barba Azul estão sendo catalogados  para serem absorvidos pelos cofres da cidade pelo aproveitador faz-nada Rei Cole e o Príncipe Encantado, com a ajuda do Sr. Hobbes, o mordomo-goblin de Barba Azul continua sua campanha para tornar-se o próximo prefeito.

Galeria de capas de James Jean - #O Último Castelo e Fábulas #19 a 21 e #23 a 27

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A chegada de Chapeuzinho Vermelho coloca os fábulas em rebuliço, com o Rei Cole querendo usá-la para fins políticos, claro. Bigby, por outro lado, fica extremamente desconfiado da presença da moça ali e faz de tudo para que ela não seja recebida oficialmente como habitante do local antes de uma investigação completa que o obriga a viajar ao Canadá, deixando Branca de Neve, grávida dele, sozinha na Cidade das Fábulas.

Não demora e três homens de paletó e óculos escuros enviados pelo Adversário chegam na região e começam a colocar as garras de fora, em ótimos momentos de roteiro que fazem referência a O Exterminador do Futuro Homens de Preto. Willingham continua a narrativa em um crescendo constante, envolvendo João das Lorotas, Pinóquio, Príncipe Encantado, Rosa Vermelha e os fábulas da Fazenda e, claro, Branca de Neve no comando de uma fantástica batalha campal com direito a diversas estratégias sofisticadas para resistir ao avanço dos “soldados de madeira” do título.

Mark Buckingham solta as amarras de sua arte desenhando a batalha ao longo de dois números inteiros e com a participação de todos os personagens apresentados nesse universo até agora. Ele distribui os personagens de maneira equilibrada em seu trabalho, sem que eles percam a individualidade. Mesmo os soldados de madeira, diferenciados apenas por cores diferentes de cabelo, são inteligentemente usados ao longo das páginas, em uma sucessão de técnicas de guerrilha empreendidas com mais ou menos sucesso por Branca de Neve que não conta com Bigby ao seu lado. E não há economia na violência gráfica. Vários fábulas morrem sob o fogo dos soldados de madeira e muitos saem extremamente feridos tanto física quanto psicologicamente.

A Marcha dos Soldados de Madeira eleva o jogo em Fábulas. A segurança da Cidade das Fábulas e da Fazenda foi posta em jogo e o Adversário mostrou que ninguém está longe demais de seu alcance. Esse arco é o que verdadeiramente inicia a guerra franca entre os dois lados, com resultados imprevisíveis.

Fábulas: Vol. 4 – A Marcha dos Soldados de Madeira (Fables: Vol. 4 – March of the Wooden Soldiers, EUA – 2003/4)
Contendo: Fábulas: O Último Castelo (one-shot) e Fábulas #19 a #21 e #23 a #27, publicados originalmente entre novembro de 2003 (O Último Castelo) e janeiro a setembro de 2004
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Craig Hamilton (O Último Castelo), Mark Buckingham
Arte-final: P. Craig Russell (O Último Castelo), Steve Leialoha
Cores: Lovern Kindzierski (O Último Castelo), Daniel Vozzo
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2009 (encadernado)
Páginas: 231

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.