Crítica | Fábulas: Vol. 5 – Os Ventos da Mudança

estrelas 4

Obs: Há spoilers dos volumes anteriores, cujas críticas você pode ler aqui.

fabulas os ventos da mudanca capaO quinto volume de Fábulas é composto de uma história one-shot solta focada em Cinderela (Cinderela Libertina) e que, em termos cronológicos, deveria ter sido incluída no volume anterior (não o foi, pois ela quebraria a narrativa una formada por O Último Castelo e A Marcha dos Soldados de Madeira), um mini-arco em duas edições contando um pouco sobre o passado de Bigby Lobo e Os Ventos da Mudança, o arco principal em quatro partes. São, respectivamente, as edições #22, #28 e #29 e #30 a #33 da série.

Como de praxe, a nota acima é para o conjunto geral do volume (não necessariamente uma média), mas cada história tem sua própria crítica e nota, de maneira que o leitor possa ter uma ideia mais precisa da eventual oscilação de qualidade das histórias.

Cinderela Libertina

estrelas 4,5

O que Bill Willingham faz aqui com a amada personagem Cinderela dos contos-de-fada mostra que o autor não está para brincadeiras, apesar do tom jocoso e leve de seu texto. Em uma história contada única e exclusivamente para informar aos leitores que a ex-princesa, atual dona da sapataria Sapatinho de Cristal, é muito mais do que isso. Cinderela é, para todos os efeitos, a versão James Bond da Cidade das Fábulas.

Mas ninguém sabe disso, a não ser Bigby Lobo, seu chefe, que a contrata e treina na surdina, de maneira que ela possa fazer o trabalho sujo que o próprio Bigby não consegue. E a dinâmica criada entre ela e seu “chefe misterioso” diverte e prende a atenção do leitor, pois Willingham dá a entender que Cinderela trabalha para o Adversário. Pode ser que alguns considerem essa minha revelação aqui como spoiler, mas o mistério não é o foco da narrativa e as peripécias de Cinderela ganhariam até série derivada mais tarde. Além disso, escrever sobre esse número sem revelar o segredo de Cinderela é uma missão impossível.

De toda forma, a ex-princesa nos é apresentada como uma femme fatale que já enfeitiçara Ichabod Crane (extraído do conto A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, do século XIX) com seus dotes femininos. Ela quer descobrir se o fábula vem vendendo itens mágicos aos mundanos. Toda a estrutura da história é simples, mas perfeitamente dentro do espírito de obras de espionagem clássicas. O autor não economiza nas citações e nem se esquiva de resolver a questão sem papas na língua. Ele realmente solta os freios e entrega bons momentos em uma história que funciona muito bem sozinha.

A arte de Jeremy Palmiotti combina com a ação, toda ela passada em Paris. Seus traços criam uma Cinderela sedutora, mas sem perder um ar caricatural que é bem-vindo. Ichabod Crane é recriado de maneira a emular perfeitamente o personagem do conto de Washington Erving e a gerar ao mesmo tempo repulsa e uma estranha atração ao leitor, algo que talvez venha de um senso de piedade pela figura triste que ele é.

Cinderela Libertina é a perfeita introdução ao lado sombrio da “princesinha indefesa”. É Willingham pervertendo expectativas novamente e recriando – melhorando! – personagens amados.

Histórias de Guerra

estrelas 3

Histórias de Guerra começa com Bigby visitando um veterano da Segunda Guerra Mundial seu amigo, que revela que está morrendo. Logo descobrimos que os dois lutaram juntos na guerra e que, claro, o veterano sabe o segredo dele e, então, aprendemos como isso aconteceu por intermédio de um enorme flashback que nos leva à história propriamente dita.

Com essa volta ao passado, acompanhamos uma unidade do exército americano infiltrada atrás das linhas inimigas e que recebe ajuda de Bigby. Ele é introduzido ao grupo como alguém acima dos demais, profundamente infiltrado na Alemanha nazista para permitir missões dessa natureza. E que missão seria essa? Bem, basta dizer que Bigby não é a única criatura sobrenatural que os soldados têm que lidar e que o banho de sangue é liberado…

A narrativa é interessante, ainda que pouco original. Fica aquela impressão de já termos visto isso antes em algum lugar, com Bigby efetivamente fazendo as vezes de um Wolverine licantrópico. Não que seja ruim, longe disso, mas a história não acrescenta muita coisa à mitologia dos personagens e tem toda a “cara” de filler.

Novamente, Jeremy Palmiotti ficou encarregado da arte e seu estilo, que funcionou bem no one-shot comentado acima, é apenas ok para uma atmosfera mais séria e pesada como a situação de guerra retratada aqui. O artista sabe trabalhar a composição dos quadros e suas transições, mas é seu traço que parece mais talhado para uma narrativa mais leve.

Histórias de Guerra reitera o quanto Bigby é badass na mitologia de Fábulas, mas isso já é algo que havia ficado sobejamente demonstrado antes. Faltou garra nesse mini-arco.

Os Ventos da Mudança

estrelas 4

O arco que dá nome ao volume e que, em inglês, foi batizado de Mean Seasons, que poderia se traduzido livremente como Más Estações, é dividido apropriadamente em quatro números, cada um passado em uma estação do ano e todos focados em Branca de Neve e seus seis (ou seriam sete?) filhos com Bigby, que nascem nesse volume. Como pano de fundo, há a campanha política do Príncipe Encantado para tornar-se prefeito que efetivamente funciona par alterar o status quo da Cidade das Fábulas.

Os Ventos da Mudança é também um arco para o leitor respirar um pouco depois da intensa e destruidora ação vista em A Marcha dos Soldados de Madeira. Willingham faz uma pausa estratégica para abrir outra linha narrativa importantíssima, sem, porém, desenvolvê-la muito aqui. Trata-se do mencionado nascimento dos “lobinhos”, filhotes de Branca e Bigby. Com exceção de um, todos tem aparência lupina e, por isso, Branca de Neve é obrigada a mudar-se para a Fazenda, local onde Bigby não pode entrar em razão de seu passado engolidor de fábulas.

Galeria de capas de James Jean - Fábulas #22 e #28 a #33

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Além disso, o autor inteligentemente insere um mistério na narrativa sobre o número de filhos dos dois que deixarei sem maiores comentários aqui. Mas basta dizer que Branca de Neve é muito mais afeita a “sete” baixinhos ao redor dela do que seis. E, como isso não bastasse, finalmente conhecemos, ao vivo e a cores, o pai de Bigby, o Vento do Norte – uma figura que lembra um Papai Noel mais parrudo – que chega para visitar os netos e acaba ficando para treiná-los em suas aparentemente várias habilidades especiais.

A narrativa é decididamente lenta aqui, sem qualquer tentativa de criar clima de ação. Como disse, Willingham faz uma pausa para abrir o leque das possibilidades e, no processo, retira Bigby da jogada, altera completamente a vida de Branca de Neve, introduz o Vento do Norte e os filhotes e modifica a situação política na Cidade das Fábulas, com novos e importantes peões no jogo, como a Bela e a Fera (que já haviam aparecido, mas que agora passam a ser figuras centrais), além de um misteriosamente sumido Garoto Azul. As correlações com o ataque do Adversário ficam apenas no processo de reconstrução da Cidade das Fábulas e algumas menções aqui e ali, sem maiores desenvolvimentos nesse fronte, mas essa impressão de tranquilidade é mesmo só impressão, pois, como uma panela de pressão, a situação está pronta para estourar.

Como de praxe, a arte fica ao encargo de Mark Buckingham e, também como de praxe, ele entrega um trabalho fenomenal. Como há personagens novos e destaques a personagens já constantes da trama, ele tem bom espaço para trabalhar sua criatividade. Os lobinhos na Fazenda ganham muito destaque e, mesmo nesse momento inicial, já vemos suas personalidade se formando. Além disso, o desenhista continua a tendência de enfeitar as bordas das páginas com ilustrações temáticas em relação ao conteúdo, de maneira que há muito material visual para o leitor saborear.

Os Ventos da Mudança realmente cumprem o prometido e alteram muita coisa. Resta agora saber se essas modificações serão duradouras.

Fábulas: Vol. 5 – Os Ventos da Mudança (Fables: Vol. 5 – Mean Seasons, EUA – 2004/5)
Contendo: Fábulas #22 e #28 a #33, publicados originalmente entre abril de 2004 e março de 2005
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Jeremy Palmiotti (#22, #28 e #29), Mark Buckingham
Arte-final: Tony Akins (#22, #28 e #29), Steve Leialoha
Cores: Daniel Vozzo
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: junho de de 2010 (encadernado)
Páginas: 162

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.