Crítica | Fábulas: Vol. 6 – Terras Natais

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers dos volumes anteriores, cujas críticas você pode ler aqui.

fabulas terras natais fables homelandsO sexto volume de Fábulas, como já tornou-se padrão, traz uma pequena história inicial, composta aqui de dois números e uma maior, que dá nome ao encadernado propriamente dito. E, assim como no volume anterior, são arcos que não têm ligação direta além do fato de se passar no mesmo universo de quadrinhos.

No entanto, neste caso, o conjunto da obra forma talvez o mais importante volume (e um dos melhores!) de Fábulas, pois o mini-arco de abertura, João, Seja Ágil, abre as portas para o mais longevo spin-off da série, João das Fábulas e o segundo arco, composto de cinco partes divididas por um “interlúdio”, finalmente revela a identidade do misterioso Adversário. Além disso, ele firma o terreno para a vindoura vingança dos fábulas contra o tirano, com a tentativa da retomada das chamadas Terras Natais.

Como venho fazendo, a nota acima é geral, para o volume como um todo e, abaixo, as notas são para cada arco. Como o leitor verá, esse é um dos poucos casos de coincidência nas avaliações.

João, Seja Ágil

estrelas 5,0

Contado em duas partes, esse mini-arco abre as portas para a série spin-off João das Fábulas, que durou por nove volumes, focada única e exclusivamente nas desventuras de João das Lorotas (a amálgama de todos os “Joões” dos contos-de-fada, especialmente o matador de gigantes e do do pé de feijão), personagem que foi importantíssimo para o pontapé inicial da enorme saga de Bill Willingham em Lendas no Exílio, mas que, desde então, não vinha recebendo destaque algum. Nessa história, João e a diminuta Jill são revelados como fugitivos da Cidade das Fábulas levando um caminhão de preciosidades furtadas da fortuna de Barba Azul, nobre morto pelo Príncipe Encantado como parte de seu plano para derrubar o Rei Cole e tornar-se prefeito.

Willingham não perde tempo explicando ao leitor como exatamente João furtou a fortuna, pois isso realmente não é algo relevante e apenas faria a história arrastar-se. O que interessa mesmo é plano milaborante de João, que quer se tornar o mais poderoso dos fábulas aumentando sua fama perante os mundanos. O leitor que vem acompanhando as críticas (ou a série) sabe que ficou determinado em A Revolução dos Bichos e nos volumes seguintes que quanto mais famoso for um fábula para o mundo dos humanos, mais imortal ele se torna. É  por isso que Branca de Neve não morre com o traiçoeiro tiro na cabeça que leva de Cachinhos Dourados e a razão pela qual a própria Cachinhos é um osso duro de roer em seu confronto com Bigby e Branca em O Livro do Amor.

Mas como tornar-se o fábula mais famoso de todos? Bem, como disse, o plano é mirabolante e João, usando sua fortuna, vai para Hollywood, funda um estúdio cinematográfico cuja primeira (e única) missão é criar e colocar nas telonas uma trilogia de filmes sobre a vida do próprio João, nos moldes épicos que Peter Jackson fez com O Senhor dos Anéis (essa comparação inclusive é feita com quase todas as letras no próprio arco). Para atingir esse fim, João faz aquilo que sabe fazer melhor: canalhices.

Do começo ao fim, Willingham se diverte – e nos diverte – transformando João em um magnata de Hollywood e amplificando todos os lados negativos dessa profissão. Ele é inclemente, aproveitador e manipulador ao extremo e é até possível sentir-se culpado por gostar dessa história. Mas o fato é que Willingham escreve com veneno em suas palavras, com um forte tom de crítica velada que fica nas entrelinhas e cativará o leitor que souber captar essas nuances. João, aqui, é o estereótipo do “dono de estúdio”, daqueles que já pudemos observar em obras seminais como O Jogador (1992) e, mais recentemente, na série Entourage, que ganhou até um filme.

A arte, que ficou ao encargo de David Hahn, é eficiente, mas no limite inferior dessa palavra. Hahn não se esmera em detalhes e trabalha muito no automático, mas acontece que o texto de Willingham não exige muitas ginásticas artísticas – o arco basicamente não tem ação no sentido “pancadaria e mortes” da palavra e precisava mesmo de uma arte que focasse na fluidez e que permitisse espaço para os diálogos ferinos. Nesse aspecto, o artista triunfa, criando uma arte muda que, em circunstâncias normais seria um aspecto negativos, mas que, em João, Seja Ágil, é uma necessidade.

Terras Natais

estrelas 5,0

Arriscaria dizer que Terras Natais é o melhor arco de Fábulas. Mas a revelação da identidade do Adversário (não direi quem é, mas é um fábula muito famoso e já tivemos pistas da identidade dele em arco anterior) não é nem de longe o fator principal, ainda que seja um momento absolutamente sensacional, que Willingham sabe lidar com maestria. O grande trunfo, aqui, é o foco em apenas um personagem em uma missão de vingança longa e sanguinolenta, fugindo completamente do eixo Bigby-Branca de Neve que dominou os arcos principais até aqui.

Toda a história se passa durante os anos em que o arco João, Seja Ágil se desenrola. Garoto Azul havia sumido da Cidade das Fábulas depois de quase morrer na batalha vista em A Marcha dos Soldados de Madeira e, em Terras Natais, descobrimos que ele, levando o manto mágico, a poderosíssima espada Vorpal (do poema Jabberwocky, de Lewis Carrol) e o corpo decapitado de Pinóquio (escondido no manto), voltou para as terras originais dos fábulas para se vingar do Adversário e achar Chapeuzinho Vermelho. Já havíamos visto que o Garoto Azul era muito mais do que um mero assistente de escritório de Branca de Neve na história O Último Castelo e, agora, Willingham realiza todo seu potencial.

O personagem, retirado de uma cantiga de ninar anglo-saxã, é, diferente de sua aparência jovem e inocente, uma verdadeira máquina de matar e um mestre estrategista. Agindo mascarado como o Zorro, o garoto, ao longo de anos nas terras natais – o manto o teletransporta magicamente para lá – cria um estrago enorme entre goblins, dragões e demais simpatizantes do Adversário, matando quem precisar sem dó na consciência para alcançar seus objetivos de longo prazo. Willingham todo o tempo o retrata como alguém sereno e calmo, mas essas qualidades, na verdade, escondem uma frieza e uma tristeza profundas, algo que fica nas entrelinhas do texto preciso do autor.

A passagem de tempo é trabalhada como muita transparência no texto e na arte de Mark Buckingham. Nada de legendas informando quanto tempo se passou, apenas pequenas palavras e informações visuais aqui e ali costuram uma progressão narrativa limpa, lógica e excitante, que não permite o leitor parar de ler até chegar ao final – ou ao menos até o interlúdio. É também nessa parte inicial do arco que somos apresentados, pela primeira vez, à poderosa Rainha da Neve, braço direito do Imperador e que ganharia grande destaque em volumes posteriores.

Quando chegamos ao “interlúdio”, intitulado, com bastante literalidade, de Enquanto Isso, nosso coração está batendo forte pelas impressionantes ações do Garoto Azul que efetivamente chegam às vias de fato. Como uma esteira ergométrica diminuindo a velocidade, Willingham, então, nos joga de novo para a Cidade das Fábulas para tratar da chegada de outro personagem importante: Mogli (sim, o Menino Lobo), que não mais é um garoto, mas sim um adulto que serve aos fábulas como um dos “turistas”, ou seja, um dos personagens que, como Cinderela, é agente secreto sob os auspícios originais de Bigby e, agora, da Fera e também do Príncipe Encantado, que se revela muito menos vão do que poderíamos imaginar.

Esse interlúdio realmente tem a função quase que única de introduzir Mogli na narrativa com um missão muito objetiva e cujos frutos veremos no volume posterior. Há também a descoberta de um outro espião na Cidade das Fábulas, um que é usado para explicar como, ao longo de séculos, o Adversário sabia sobre detalhes da vida dos fábulas em Nova York. Trata-se de uma “aparação de arestas” por Willingham que acaba funcionando.

Quando voltamos para as Terras Natais para acompanhar o final da história do Garoto Azul, o autor, então, finalmente revela quem é o Adversário. Confesso que, quando li o volume pela primeira vez, fui pego completamente de surpresa e fiquei maravilhado com a revelação. Agora, tive a oportunidade de ler sem a surpresa, mas prestando atenção na forma lenta e inteligente que Willingham costura todos os pedaços e monta um Adversário em que nós podemos acreditar, apesar de, por dentro, sofrermos por ele ter feito essa “inversão de personalidade” em personagem tão querido. O Adversário, com todo seu jeito meigo de ser, é crudelíssimo e ele não se importa de contar cada detalhes de suas ações ao longo de milênios para o Garoto Azul preso em uma gaiola.

A narrativa faz ótimo uso de flashbacks para ilustrar a história do Adversário e vemos, muito claramente, uma alegoria para o famoso adágio que diz que “o poder corrompe”. Faz todo sentido e podemos acreditar em cada palavra que o vilão nos conta, ou melhor, conta ao Garoto Azul.

Com exceção do interlúdio, cuja arte é de Lan Medina, com arte-final de Dan Green, todo o arco tem desenhos de Mark Buckingham com arte final de Steve Leialoha, a dupla que fez Fábulas desabrochar nesse quesito. E o trabalho dos dois continua brilhantemente aqui, com desenhos que, como mencionei, permitem a passagem de tempo sem que textos expositivos sejam necessários. Os quadros, com molduras temáticas, seguem a vingança do Garoto Azul com facilidade, sem confusão e as novas criaturas e personagens (destaque para a Rainha da Neve e, claro, o Adversário) são de cair o queixo.

Terras Natais marca sensacionalmente bem o começo da grande guerra dos Fábulas. Resta saber quem sobreviverá para contar a história.

Fábulas: Vol. 6 – Terras Natais (Fables: Vol. 6 – Homelands, EUA – 2005)
Contendo: Fábulas #34 a #41, publicados originalmente entre abril e novembro de 2005
Roteiro: Bill Willingham
Arte: David Hahn (#34 e #35), Mark Buckingham (#36 a #38 e #40 e #41), Lan Medina (#39)
Arte-final: David Hahn (#34 e #35), Steve Leialoha (#36 a #38 e #40 e #41), Dan Green (#39)
Cores: Daniel Vozzo
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de de 2010 (encadernado)
Páginas: 192

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.