Crítica | Fábulas: Vol. 9 – Filhos do Império

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers dos volumes anteriores da série principal, cujas críticas você pode ler aqui. Leia sobre João das Fábulas aqui e sobre as graphic novels da série, aqui.

fabulas_filhos_do_imperio_plano_criticoFilhos do Império é um volume muito eclético de Fábulas. Há o arco principal, um one-shot, quatro curtas histórias, o arco subsidiário e, para encerrar, outro one-shot, só que este inteiro dedicado a histórias curtas. Assim, a tarefa de redigir a crítica torna-se um pouco mais complexa do que o usual, já que, antes, bastava a divisão por arcos para uma análise mais detalhada. Agora, tive que usar estratégia ligeiramente diferente e mesmo assim sinto que não cobri o material todo adequadamente em função da grande quantidade de artistas que se envolveram no processo (17 no total, descontando Todd Klein, o letrista e James Jean, o capista).

Decidi pela seguinte estrutura: (1) o arco que nomeia o volume, Filhos do Império, composto dos números 52 a 55 da série; (2) as quatro histórias curtas que foram inseridas ao final de cada número de Filhos do Império; (3) o one-shot sobre o Papai Noel, publicado em Fábulas #56; (4) o mini-arco Pai e Filho, publicado em Fábulas #57 e #58 e, finalmente, (5) o one-shot composto de 11 curtas histórias independentes entre si.

Como de praxe, a nota acima é para o volume como um todo, não necessariamente uma média e as notas abaixo são para cada arco, one-shot ou grupos de histórias, conforme seja o caso.

Vamos lá?

Filhos do Império

estrelas 3,5

O que Bill Willingham faz aqui nesse arco é quase que uma traição a seus leitores, mas uma traição boa, se é que isso é possível. É que, estabelecida a iminente guerra entre o Império e a Cidade das Fábulas depois que Bigby fez uma visitinha a Gepeto e ateou fogo às suas árvores sagradas, que o permitiam talhar soldados de madeira, conforme vimos na história Felizes para Sempre, contida no volume anterior, o autor precisava arrumar uma desculpa para retardar a batalha em si e ele o fez de maneira muito original e instrutiva.

Vemos um conselho de guerra ser convocado por Gepeto, composto pelo Rei Gnomo, Lumi, a Rainha da Neve, João, o Inquisidor do Império (esse é o João da fábula João e Maria), Pinóquio (agora magicamente subserviente a seu pai) e Rodney (o ex-soldado de madeira transformado em humano e espião do Império na Cidade das Fábulas, como mostrado em A Balada de Rodney e June) para discutir o que fazer com os fábulas renegados. Assim, lentamente, vemos Lumi explicar em detalhes seu plano para destruir o mundo dos humanos (ou mundanos, como nós somos chamados), literalmente soltando quatro ameaças globais ao longo de anos e, do outro lado, Pinóquio e Gepeto explicando o porquê de essa estratégia ser falha. O embate entre os dois lados, ricamente ilustrado por Mark Buckingham como se estivéssemos vivendo as histórias, é muito interessante e mostra não só o poderio do Império e a crueldade de seus membros do mais alto escalão como também o potencial da pequena Cidade das Fábulas se atacada. Além disso, somos apresentados a João (Hensel) que se mostraria não só como o emissário oficial do Império na Cidade das Fábulas como, também, um perigoso e cruel inimigo.

Essa traição que mencionei mais acima é justamente pelo fato de a história ser, literalmente, uma discussão sobre os prós e contras de um ataque do Império ao mundo normal e não uma história que afete diretamente o status quo do universo criado pelo autor. Mas a leitura é cativante, já que a progressão narrativa de Willingham, com o maravilho suporte visual de Buckingham, não perde o ritmo em momento algum, mesmo quando fica evidente que os cenários são apenas hipotéticos.  O que porém fica muito claro é que a potencialmente vindoura guerra terá consequências devastadoras.

Histórias curtas contidas em Filhos do Império

estrelas 3,5

São quatro as histórias que foram publicadas como histórias curtas em cada número que compõe o arco Filhos do Império, todas as elas com o objetivou ou de brevemente apresentar personagens ainda não explorados ou trabalhar um pouco mais personagens que já apareceram.

Na primeira delas, Cabelo, descobrimos que Rapunzel é uma das fábulas em retiro na Cidade das Fábulas e aprendemos como é que ela consegue transitar entre os mundanos considerando seu cabelo mágico que não para de crescer. Na segunda, Torta para o Porco-Espinho, Willingham revela que há muito mais criaturas mágicas humanas transformadas em bichos do que podemos imaginar. Na terceira, Thorne, um Espinho no Pé, acompanhamos Kevin Thorne durante um dia típico dele? Quem é Thorne? Bem, antes ele foi apenas visto rapidamente, mas essa curta história revela que esse mundano está firmemente investigando, por conta própria, os eventos sobrenaturais na Cidade das Fábulas, o que pode representar problemas futuros para nossos heróis. Finalmente, a última história, A Estrada para o Paraíso, foca nos Três Ratos Cegos que, de maneira hilária, tentam chegar em Smalltown para receberem a premiação que eles acham que fazem jus por atos heroicos pela Cidade das Fábulas.

Em outras palavras, juntando histórias com e sem relevância para o plano maior que está costurando, o autor emprega tempo para nos dar ao menos um vislumbre de personagens que têm menos destaque. São histórias fáceis e gostosas de ler, que complementam e ampliam esse incrível universo. Vale lembrar que cada história dessas é desenhada por um artista diferente: Gene Ha, Joshua Middleton, Michael Allred e Inaki Miranda. Todos são hábeis em sua forma de retratar as histórias, mas sou sempre parcial ao estilo enganosamente simples de Allred.

Pelas Barbas de Noel

estrelas 4

Tenho certeza que você, leitor de Fábulas, já havia se perguntado se Papai Noel era um fábula. E Pelas Barbas de Noel vem responder positivamente à pergunta, em um simpatissímo one-shot focado nos filhos de Branca de Neve e Bigby e, claro, a noite de Natal. Ambrose é escolhido para ficar acordado e fazer uma pergunta para o Papai Noel e o resultado é um divertido e enternecedor conto que, porém, não é completamente solto da continuidade.

Willingham aproveita que está se divertindo com os diálogos entre o gorduchinho Ambrose e Noel e trata de incluir Bigby na história, sempre com propósitos escusos voltados à narrativa maior, dando um senso muito claro de direção em seu trabalho, por mais “solta” que uma história pareça ser.

Pai e Filho

estrelas 5,0

Esse mini-arco, focado na primeira visita da família Lobo completa (ou quase) ao castelo do Senhor Norte, pai de Bigby, é, sem dúvida, a melhor parte deste volume.

E são várias as razões para isso. A primeira e mais importante delas é que a relação entre pai e filho entre Bigby e Norte é explorada em detalhes, com a revelação do que aconteceu afinal de contas com os irmãos mais velhos do grande lobo. A segunda é o estabelecimento da conexão mais forte entre Bigby e seus próprios filhos, algo que fica evidente já pela narrativa em off de Ambrose em  algum futuro próximo ou distante (isso não fica claro, lógico), transformando o arco em “reminiscências do passado”. A terceira é que a reverência que Branca de Neve tinha pelo sogro diminui um pouco e equaliza-se com aquilo que Bigby acha do pai. Finalmente, há a questão da inter-relação dessa história com o arco maior da Guerra das Fábulas, já que Bigby tem também um propósito escuso em sua aparentemente inocente visita.

Em suma, é uma história riquíssima, contada com agilidade por Willingham que sabe como e onde inserir sequências de ação e que estabelece uma dinâmica familiar invejável, solidificando a família Lobo como o principal alicerce de sua estrutura narrativa. No entanto, há ainda outra vital razão para se apreciar o mini-arco: a arte é de Michael Allred, com cores de sua esposa Laura Allred. Usando seus traços mais simplificados, mas fortemente autorais, Michael Allred afasta essa história de todas as demais desenhadas por Buckingham, pela primeira vez imprimindo estilo totalmente aos desenhos, com as cores de Laura mais mudas, menos “felizes” do que as de Lee Loughridge nos números mais recentes. Mais até do que em Filhos do Império, o leitor sente a presença de um futuro talvez ruim não só para Bigby, Branca e seus filhos, mas também para todos os fábulas.

Perguntas Urgentes

estrelas 4,5

Que coisa bacana é o número #59 de Fábulas! Os mais cínicos chamarão de estratégia de marketing – e de certa forma é – mas eu chamo de carinho com os leitores. É que, de forma absolutamente inusitada, Willingham usa o número inteiro para responder perguntas de leitores recebidas ao longo da publicação de todos os 58 números anteriores. Mas não são respostas apenas por escrito, mas sim em forma de histórias em quadrinhos curtas, 11 no total, cada uma desenhada por um artista diferente. Nada mal, hein?

A seleção levou em conta a pergunta feita e se a resposta não afetaria eventos futuros. Portanto, não esperem, em Perguntas Urgentes, respostas que mudarão o universo criado por Willingham. O foco é no dia-a-dia, com respostas à perguntas prosaicas como “quem pegou o buquê de Branca de Neve”, “João das Lorotas avisou para alguém que estava saindo da Cidade das Fábulas?” ou “Hakim conseguiu um emprego normal?”. É uma resposta mais divertida que a outra, por mais que elas sejam, em seu conjunto, completamente “inúteis”. Mas é sempre bom ler algo assim, feito com amor e dedicação ao público que tornou a série um sucesso de vendas.

As variadíssimas artes são, todas elas, muito bonitas e eficientes no geral e seria uma tarefa hercúlea abordar cada uma delas. Uma coisa é certa, porém: não há nenhuma particularmente ruim, que não funcione em seu propósito, o que já quer dizer muito do time selecionado.

Fábulas: Vol. 9 – Filhos do Império (Fables: Vol. 9 – Sons of Empire, EUA – 2006/7)
Contendo: Fábulas #52 a #59, publicados originalmente entre outubro de 2006 e maio de 2007
Roteiro: Bill Willingham
Arte: Mark Buckingham, Gene Ha, Joshua Middleton, Michael Allred, Inaki Miranda, Eric Shanower, Barry Kitson, David Lapham, Andrew Pepoy, Jill Thompson, Matt Brooker – ‘D’ Israeli’, Joëlle Jones, John K. Snyder III, M. K. Perker, Jim Rugg
Arte-final: Steve Leialoha, Andrew Pepoy, Mark Buckingham
Cores: Lee Loughridge, Laura Allred, Eva de La Cruz
Letras: Todd Klein
Capas: James Jean
Editora (nos EUA): Vertigo Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2011 (encadernado)
Páginas: 204

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.