Crítica | Face Oculta: Bandidos

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… em que se narra como Ugo, de volta a Roma, encontra a amizade e o amor e como enfrenta a ameaça do terrível criminoso Verruga.

Cinco anos se passaram desde os eventos de Os Saqueadores do Deserto. Ugo Pastore voltou para a Itália após os acontecimentos tenebrosos na “Etiópia italiana” em 1889, onde ele esteve, ao lado de seu pai, em uma missão comercial. Este segundo volume da saga Face Oculta se passa quase exclusivamente na Itália, com o jovem Pastore trabalhando como contador e vendo o desenrolar de coisas ainda bastante obscuras para termos exata noção do que está acontecendo. E talvez por essa falta de maiores detalhes para os novos personagens ou coisas que liguem o protagonista à África e ao misterioso homem da máscara prateada é que este segundo tomo esteja um passo bem dado atrás da aventura anterior.

Bandidos nem parece uma trama de Face Oculta. E para todos os efeitos, temos uma maior dificuldade em entender o foco que o roteirista Gianfranco Manfredi procurou dar à história. Uma justificativa, frágil e nada convincente, é a de que “este é apenas o segundo volume da saga“. E sim, isto é um fato. Mas não é porque estamos na segunda parte de uma minissérie, numa HQ de 95 páginas, que informações soltas precisem ser aceitas apenas por sua óbvia conexão futura. O que tem peso aqui não é um mistério, não são as deixas para as outras edições, a entrada de novos personagens, o deslocamento. Isso a gente tem nas muitíssimas séries em andamento dos mais diversos super-heróis nos quadrinhos americanos, não é necessário uma ficção histórica europeia para termos esse entendimento. O problema é: para onde o autor nos quis levar?

A pergunta é propícia, porque Ugo tem uma vida que parece querer esquecer tudo o que viveu antes. É compreensível por um lado, a julgar pelo comportamento do jovem (e aqui ele me pareceu birrento, um tanto mais infantil até, se comparado ao do primeiro volume, o que não é nada bom, porque o moço já está cinco anos mais velho nesta aventura), que o trauma vivido no deserto ficasse em segundo plano. Isso tudo bem. Mas vejam, são cinco anos. E ele seguia estável, com um trabalho cheio de marasmo e nada que indicasse grandes emoções. Então conhece Vittorio de Cesari, que procura detalhes sobre o que Ugo viveu. E só aí é que o texto solta uma coisa ou outra sobre a estadia na Etiópia, mas a um momento já bastante tarde para ganhar qualquer peso verdadeiro no roteiro.

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É, Ugo… seu menor problema são os ratos, pode ter certeza.

Mas se o roteiro falha bastante na construção de mais detalhes contidos em uma única edição — especialmente para construir os novos personagens, o que é imperdoável — temos a arte de Massimo Rotundo que compensa, e muito, o inconveniente narrativo. Diferente de Parlov, na primeira edição, que optou por colocar detalhes nas cenas de proximidade com os personagens, em interessantes planos fechados, Rotundo explorou o quanto pode todos os cantos de todos os espaços, valendo-se de composições mais escrupulosas, mesmo nos grandes quadros, em ocasiões onde não há exatamente muita coisa para mostrar e o trabalho com sombras poderia servir muito bem ao propósito de “preencher espaço”. O artistas, todavia, não se contenta com isso, e vai além. A cena em que Ugo volta da recepção de Matilde Sereni é um dos muitos exemplos. Os planos pela cidade, a cena noturna, os ângulos que o artista escolheu para desenhar os quadros… tudo poderia ser mais simplificado, mas ele deu o máximo de identidade à cidade, aos personagens, aos animais em cena… um alto padrão que segue por toda a edição.

No final do volume, Manfredi nos faz conhecer um pouco mais o Conde, mas ainda oculta (desnecessariamente, a meu ver) sua intenção primária. Não nos conectamos com o personagem, apesar de ele ter elementos bem interessantes e a relação com Ugo ser… digamos… um pouco suspeita, algo fortalecido pelas muitas perguntas que ele insiste em fazer sobre Face Oculta e a Etiópia. Pode não ser nada, mas eis aí algo que o roteiro nos deve. Se o personagem não é bem apresentado, abre-se espaço para hipóteses que só fazem mal à minissérie. O que não podemos negar é que Bandidos ainda é uma aventura interessante, a despeito de um bloco inteiramente descartável com o bandido Verruga — e não, não importa se ele volta no futuro da série. Aqui, ele não funciona. Como o texto não cria condições que sustentem nem o principal apresentado do enredo, o Conde Cesari, quem dirá um bandido de estrada. A joia da coroa é realmente a arte. E a curiosidade do leitor, enfim elevada no final da obra, com a cena no palácio do rei Menelik II. O que será que o monarca viu?

Face Oculta: Bandidos (Volto Nascosto #2: Briganti) — Itália, novembro de 2007
Editora original: Sergio Boneli Editore
No Brasil: Face Oculta – Volume Um (Panini, 2016)
Roteiro: Gianfranco Manfredi
Arte: Massimo Rotundo
Capa: Massimo Rotundo
95 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.