Crítica | Fahrenheit 451 (2018)

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Um futuro distópico onde os bombeiros não apagam, mas ateiam fogo em livros, casas e estabelecimentos que vão contra o regime totalitário em vigor, dispostos a engordar a mídia de massas e a “hipnotização” da população, levando a cabo um “programa de extermínio” de todo o conhecimento impresso em papel, considerados subversivos, uma doença para a humanidade. Este é o ambiente terrível criado por Ray Bradbury em seu livro Fahrenheit 451, lançado em 1953, que em sua proposta conceitual, criticava as barreiras e a perseguição artística que o macartismo empreendeu nos Estados Unidos. Em 1966, François Truffaut adaptou a obra para o cinema, e em 2018, foi a vez da HBO fazer a sua própria versão, em um telefilme dirigido por Ramin Bahrani.

A percepção de que manuscritos e livros são poderosas armas começou cedo na humanidade, assim como a sua destruição. Aqui, faço questão de enumerar algumas das principais ocorrências disso na História. Se você não tem interesse em acompanhar e ver que isso não é algo só da ficção, pode passar para o parágrafo seguinte. Podemos começar enumerar as grandes queimas propositais no século III a.C., na China e em Alexandria, no Egito. Depois, no século IV, em Roma, sob a égide do Cristianismo, destruindo manuscritos que fossem “inaceitáveis” do ponto de vista da igreja. E ainda os manuscritos judaicos queimados em Paris, em 1244; os cinco mil manuscritos árabes queimados pela Inquisição em Madri, em 1499; manuscritos maias e astecas na década de 1560, destruídos e comemorados pelo bispo Diego de Landa; traduções da Bíblia de Lutero em 1640, na Alemanha; livros protestantes na Áustria, em 1730; três mil livros da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, em 1813; quinze toneladas de livros, além de fotografias e placas de impressão pela “Sociedade Novaiorquina para a Supressão do Vício“, em 1873 — que ainda conseguiu passar a Lei de Comstock, no Congresso; anos 1920 a 1940 na União Soviética (de forma esparsada); 1933, na Alemanha Nazista; anos 1950, nos Estados Unidos, onde centenas de bibliotecas pelo país queimaram livros considerados “ameaças comunistas“; 1973, no Chile, durante a ditadura de Pinochet; mais de dez mil livros e raros escritos em língua tâmil no Sri Lanka, em 1981; queima de bibliotecas pelos sérvios durante da Guerra da Bósnia (1992 – 1995). E sim, no Brasil também tivemos a nossa versão, durante o Estado Novo de Vargas, como vemos na reportagem abaixo, de 1937.

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O Jornal do Estado da Bahia: queima de livros pelo Estado Novo, em 1937.

Nesta versão de 2018, o conceito geral da história — sempre interessante — está intacto. O governo controla com mão de ferro a população, que assiste às queimas como um grande espetáculo, para o qual lança emojis e fazem aquilo que se tornou o grande passatempo na Era de redes sociais: o exercício do Tribunal da Internet. O enredo parece uma mistura de Black Mirror com The Handmaid’s Tale focada no campo intelectual, de produção e disseminação de cultura. Historicamente falando, esse tipo de atitude é conhecido de todas as ditaduras do mundo, claro que não no mesmo nível, mas ainda assim, presente. Destruir, proibir exibição, alterar conteúdo, criminalizar, impedir que outras pessoas vejam e coisas similares, em relação a qualquer obra de arte (lembram-se do episódio do Queer Museu e das discussões e exposições de Arte Degenerada no Brasil, em 2017?), entram nesse balaio que forma a sociedade de Fahrenheit 451. E é nesse aspecto, por onde o grande toque crítico do filme poderia vir, que o roteiro de Bahrani e Amir Naderi começa a tropeçar.

Um dos grandes trunfos da obra literária — e que também estava na versão de Truffaut, em 66 — é a abordagem dos motivos pelos quais a sociedade chegou a este ponto. Claro que no momento em que esta narrativa ocorre, existe uma questão governamental estabelecida para isso e uma população vivendo em medo, mas se achando livres e felizes porque dizem a elas que elas estão livres e felizes. Mas por quê o mundo chegou a este estado? Essa é uma característica muito importante para qualquer obra distópica. Não necessariamente vinda como explicação formal ou didática através do texto, mas pelo menos colocada como entendimento sobre chegada da sociedade nesse horror. O desinteresse cada vez maior pela leitura (e nesse caso, mensagens de WhatsApp, frases aleatórias de autores clássicos no Facebook ou tweets de autoajuda não contam); tentativas de diversos grupos em silenciar, barrar, proibir e destruir artes que não gostam ou acham “de mal gosto”, “feia”, “ofensiva”, etc.; e uma vontade sempre crescente do Estado de controlar e dizer o que é bom para as pessoas ou não — algo que a mídia já faz livre e solta, formando diversos padrões pelos quais todos julgam todos e ainda pagam por isso — são exemplos de sementes desse estranho fruto social.

Nesta versão de Bahrani, o roteiro foca muito mais na interação do Capitão Beatty (Michael Shannon) com Guy Montag (Michael B. Jordan) — ambos atores em ótima interpretação — do que no desenvolvimento verdadeiro da narrativa. O problema aqui existe apenas como um conceito automático. O trabalho dos bombeiros acaba seguindo por uma linha repetitiva e o lado da reação e transformação dos indivíduos em livros é minimizado até bem próximo de zero, dando lugar a uma solução igualmente esperançosa, mas nem de longe, tão boa.

A passagem de Montag de uma realidade para outra, seu encontro com Clarisse (Sofia Boutella, insossa em tudo) e o que ela representa na mudança de sua visão, garantem momentos interessantes e também recebem amparo de suspense pelo próprio roteiro e ajuda da trilha sonora intimista de Antony Partos (Tanna) e Matteo Zingales (O Caçador). Com os pés fincados em varições tecnológicas e pouca importância à própria atitude em vigor, com tudo é muito burocrático, “espetacular” demais, tendo poucas cenas onde uma queima tem um profundo significado (não fosse a presença de Michael B. Jordan e Michael Shannon, menos coisas ainda se salvariam delas), Fahrenheit 451 (2018) é uma leitura típica de seu tempo, para uma realidade que, em diversas medidas, já vive, tanto em ação quanto em preparação. É uma pena que o esvaziamento tenha diminuído a força crítica e profética, o horror e disfarce de onde estão as raízes desse evento tão conhecido por nós, elevado ao padrão fixo de uma sociedade. Um lugar onde a memória e os livros são um perigo. Mais um alerta sobre a ação dos controladores e juízes daquilo que acham que deve ser publicado, exibido, visto ou pessoalmente apreciado pelos outros. Não é preciso ir tão longe. Nosso quintal está cheio deles.

Fahrenheit 451 (EUA, 2018)
Direção: Ramin Bahrani
Roteiro: Ramin Bahrani, Amir Naderi (baseado na obra de Ray Bradbury)
Elenco: Michael B. Jordan, Aaron Davis, Cindy Katz, Michael Shannon, Mayko Nguyen, Dylan Taylor, Saad Siddiqui, Katherine Cullen, Edsson Morales, Jordan Baker, Lilly Singh, Warren Belle, Sofia Boutella, Drew Nelson, Raoul Bhaneja, Keir Dullea, Daniel Gravelle
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.