Crítica | Fahrenheit 451

estrelas 3

Ao escrever sobre Fahrenheit 451, adaptação cinematográfica do livro homônimo de Ray Bradbury, dirigido pelo maestro das imagens François Truffaut, encontrei-me em um labirinto com duas possibilidades de análise fílmica: primeiro, a análise semiótica do filme, comparando-o ao conjunto total da obra do diretor francês, sendo este uma das produções menores no que tange o primor estético e a recepção da crítica; e a segunda opção analítica um processo relacional de escrita entre o filme e a minha profissão, pois além de crítico de cinema, atuo como professor de literatura, trabalhando com um produto audiovisual que questiona diversos aspectos da relação da literatura com a sociedade/humanidade. No momento decisivo, percebi que havia a possibilidade de unir os dois segmentos, coadunando no texto que você vai ler, refletir e comentar, se possível, ao final.

Crítico, poeta e cineasta, François Truffaut é considerado um dos principais diretores da história do cinema até então. Ao entrar na produção de Fahrenheit 451, assinou o roteiro em parceria com Jean-Louis Richard, e dirigiu um filme que nos conta a história de Guy Montag (Oskar Werner), um bombeiro que tinha como função queimar qualquer material impresso que fosse considerado perigoso para a humanidade, ou seja, os livros (romances, biografias, filosóficos, dentre outros), pois segundo os detentores do poder do enredo, estes produtos traziam infelicidade.

Montag incendia livros que nunca sequer leu, até o dia que presencia uma mulher sendo queimada junto aos itens da sua vasta biblioteca: para a personagem, viver sem os livros seria pior que ser queimada com eles, o que de fato acontece, abalando as estruturas mentais de Montag e deixando-o curioso diante daquele “material perigoso”. Em uma cena anterior, Clarissa (Julie Christie), uma professora estagiária que o acompanha todos os dias no mesmo meio de transporte entre o trabalho e a sua casa, questiona-lhe da função inicial dos bombeiros, ou seja, apagar incêndio, não queimar livros. Ele responde com ceticismo, mas percebemos que esta questão vai apontar em momentos decisivos da trama, mais adiante.

O bombeiro, casado com Linda (Julie Christie em seu outro personagem), vive em um futuro totalitário. As casas são construídas contra incêndios, o motivo pelo qual a função de bombeiro perdeu a sua antiga função. Nas casas, a televisão ocupa um lugar na parede, e, com programas interativos e alienadores, parece fazer parte do núcleo familiar, haja vista que os personagens do meio de comunicação dialogam com os espectadores, chamando-os de primos.

Certo dia Montag decide ler o seu primeiro livro, um clássico de Charles Dickens, envolve-se com a literatura de maneira apaixonada, é denunciado pela mulher, o que o leva a refugiar-se para a “Terra dos Homens-Livros”, um local distante onde as pessoas leem as obras e esperam que num futuro próximo possam repassar estas obras para o suporte livro novamente. Cada morador do local é uma obra literária ou filosófica, seja de Jean-Paul Sartre, Jane Austen, Lewis Carroll ou Edgar Allan Poe, e um livro de contos, Histórias de Mistério e Imaginação, torna-se a representação de Montag no local. Ele precisa memorizar o livro e transforma-se na obra ambulante, pois em breve o livro seria queimado.

Ao assumir o tom de distopia do livro que serve como ponto de partida, François Truffaut entrega uma história com requintes bem atuais: a relação dos intelectuais com a televisão, considerada como algo nocivo, numa lógica próxima ao que Adorno expõe em Indústria Cultural e Sociedade, clássico da área de Comunicação. É preciso nos descolar do contemporâneo e viajar no tempo, para buscar entender a relação das pessoas com a televisão na época do seu surgimento. Vale lembrar que o cinema precisou reinventar-se para conseguir concorrer com a televisão, pois este meio de comunicação, quando surgiu, mostrou-se cômodo e diminuiu consideravelmente o número nas bilheterias em todo o mundo.

A televisão manipula o sumiço de Montag. Procurado pelos bombeiros, mas não encontrado, foi preciso simular uma ação onde o ex-bombeiro é capturado e morto, pois desta forma, o sistema continuaria ileso. Outra cena que demarca essa demonização da televisão está na alienação de Linda, esposa de Montag. Ela é uma dona de casa viciada em pílulas e todo dia assiste aos programas como se fosse um robô, ou seja, como se a vida não pulsasse em suas veias.

Eis o mote do filme, uma distopia, assim como o livro homônimo de Ray Bradbury, lançado em 1953, num período que se convencionou chamar de pós-guerra: uma época marcada pela sociedade em vias de modernização eletrônica, com o computador e a televisão ao alcance de todos. Sendo assim, o roteiro do filme é um dos pontos mais altos, pois guia muito bem os personagens e consegue captar as sequências dramáticas do romance. Já nos aspectos estéticos, Truffaut e a sua equipe acertam em cheio em muitos pontos, mas a narrativa parece estagnar em alguns momentos, talvez mais bem conduzida se estivesse sob a batuta do mestre do suspense Alfred Hitchcock: as cenas de tensão e ação não atingem um ponto mais alto, mantendo-se brandas e razoáveis.

O trabalho de som do filme é assinado por Bernard Hermann, o mesmo responsável pela trilha sonora de Psicose, marco do cinema mundial, obra-prima de Hitchcock. Aliado ao trabalho da direção de fotografia, assinada por Nicolas Roeg, bem como o trabalho da direção de arte, setores aliados que concatenam as ideias do roteiro, Fahrenheit 451 possui alguns tópicos significativos que merecem destaque: primeiro, o uso da cor vermelha, associada ao fogo. Na mitologia grega, o fogo era dádiva dos deuses, mas Prometeu o entregou aos homens, que a partir daí, criaram todo o conhecimento. Já na Bíblia, o fogo é um símbolo de purificação, pois o Deus bíblico mandou o fogo para destruir cidades pecadoras como Sodoma e Gomorra, numa ótica próxima a distopia do filme. A Fênix, cuidadosamente ajustada no figurino e na cenografia, também possui a sua simbologia presente no filme, aproximando o espectador dos aspectos temáticos do enredo.

Com 112 minutos de duração, Fahrenheit 451 já começa expondo um dos pontos mais impactantes do filme: a ausência da palavra escrita. Numa estratégia inteligente, os créditos iniciais são narrados, com uma espécie de videoclipe que capta diversas antenas de televisão nas mais distintas casas do espaço fílmico. Leitura proibida é o lema. No final, apesar da narrativa em tom de distopia, há um fio de esperança na história, porém, vai tudo depender da relação do homem com a memória.

Apesar de não ser o melhor, ou um dos melhores filmes do diretor, Fahrenheit 451 tem em si um enredo pedagógico com riqueza de detalhes, dentre eles, a importância da literatura para o desenvolvimento intelectual e as relações de alteridade numa sociedade, bem como toca nas cordas sensíveis dos regimes totalitários, ou em épocas onde os livros eram proibidos, como as cenas inesquecíveis de filmes como O Nome da Rosa e A Menina que Roubava Livros. O último ângulo à iluminar, este, de ordem literária e teórica, é o seguinte: quais os livros seriam escolhidos para sobreviver nesta sociedade? Seria estabelecido um cânone literário após o período conturbado? Eis uma questão para reflexão.

Fahrenheit 451 (Reino Unido, 1966)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard (baseado na obra de Ray Bradbury)
Elenco: Julie Christie, Oskar Werner, Cyril Cusack, Anton Diffring, Jeremy Spenser, Bee Duffell, Alex Scott
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.