Crítica | Fanny & Alexander (1982)

estrelas 5,0

Concebido inicialmente para a TV sueca, com duração de pouco mais de 5h e dividido em quatro episódios (por sua vez, subdividido em atos internos) Fanny & Alexander recebeu um corte cinematográfico, com pouco mais de 3h de duração, e estreou em dezembro de 1982 na Suécia, com o anúncio de que seria o último filme de Ingmar Bergman, cujo trabalho como diretor seria voltado unicamente para a TV.

Com roteiro escrito pelo próprio Bergman e forte caráter autobiográfico, a obra é uma saga familiar, um conto misto de sonho, fantasia e naturalismo focado nos irmãos que dão título ao filme, Fanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve). Filhos de uma família aristocrata ligada ao teatro, os irmãos vivem em meio à exuberância um tanto austera e um tanto excessiva que se pode ver nas casas, na liberdade sexual, no (quase) livre pensamento em relação a algumas tradições e à religião, uma interessante abordagem para uma obra situada inicialmente em 1907.

Antes da história conquistar o espectador, antes de o roteiro mostrar o seu potencial onírico, filosófico e mágico, antes dos personagens começarem a ser desenvolvidos ou se apresentarem para o público, há um encanto imediado de quem vê e ouve o que está na tela, um encanto cujo núcleo é dividido em três partes trabalhando em perfeito conjunto: direção, fotografia e música.
Bergman segue um caminho de “migalhas cênicas” nos primeiros quinze ou vinte minutos da obra (e isso vale tanto para a versão de TV quanto para a de cinema, se bem que na primeira versão esse caráter é mais sentido), nos mostrando ações em separado que parecem não fazer muito sentido à primeira vista ou compor um corpo coeso de ideias mas que, aos poucos, se mostra um delicioso quebra-cabeça cômico (o tom da primeira parte do filme). Não há pressa e não há excesso de lentidão. A montagem de Sylvia Ingemarsson dá o ritmo certo entre um momento e outro, fechando os pequenos parênteses abertos no decorrer das apresentações e colocando-os adequadamente em um plano textual muito maior.

Sven Nykvist, que trabalhava com Bergman desde Noites de Circo (1953), transforma cada plano em um verdadeiro espetáculo visual. Ele divide o filme em duas paletas de cores quentes (com grande destaque para o vermelho), uma neutra e uma fria, cada uma fixa dentro de um momento da saga da família Ekdahl e com um sentido psicológico detalhadamente pensado. É impressionante vermos as variações que o fotógrafo faz de cada predominância cromática adicionando materiais, filtros, projetando sombras, escolhendo ângulos oblíquos ou ajustando a lente para que desse uma determinada impressão ou sugerisse determinada coisa ao espectador.

Se compararmos a sutil diferença de tonalidade do vermelho e do trabalho de direção para a casa matriarcal no início da obra e para este mesmo espaço na reta final do filme (mesclando o branco e o verde que já haviam sido predominantes na casa de veraneio), veremos que Nykvist e Bergman prepararam bem o terreno psicológico do cenário para refletir ou aumentar as mudanças pelas quais os personagens passaram. O mesmo vale para o figurino das crianças (mesmo com o eterno modelo de marinheiro vestido por Alexander) e os acessórios das mulheres. E entre esses dois momentos, adicionamos o contrate de tons cinzentos e térreos da casa do Bispo Edvard Vergerus (Jan Malmsjö em uma interpretação brilhante), onde o martírio físico, moral e psicológico de Fanny, Alexander e Emily acontece.

Essas mudanças visuais vão sendo pouco a pouco adicionadas ao longa, à medida que a terna comédia inicial dá espaço à tragédia e se finda com um drama pacífico de caráter filosófico. Em termos de força dramática, a longa celebração do Natal é um dos grandes momentos não só do filme mas da carreira de Bergman e também do cinema. E não quero com isso lançar um elogio de contemplação, apenas. Digo isso após pensar muito sobre todas as celebrações de Natal que o cinema ou a TV nos apresentaram ao longo dos anos e, ao comparar com o que Bergman faz aqui, não consigo encontrar nenhuma que tenha a mesma excelência de realização ou significado.

Talvez o exemplo mais famoso que temos, nesse sentido, é em A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra, mas o filme não tem exatamente uma celebração de Natal. Em Fanny & Alexander, a reunião da família, a pequena peça de teatro, a confraternização com os amigos, a libido, a fantasia, as pequenas birras, a doçura e inocência das crianças, a boa música, a brincadeira… tudo é pensado como um grande acontecimento, um evento que serve como raiz principal para o que virá a seguir. Para quem viu apenas o corte de cinema, eu indico firmemente que assista pelo menos ao primeiro episódio da série de TV. Existem cenas de beleza rara que não entraram na versão cinematográfica e acontecimentos que ajudam ao espectador construir sua visão da obra com mais detalhes e entender melhor os impulsos que guiam determinados personagens mais adiante, quando as máscaras, enfim, começam a cair.

Bergman não se deixa levar pelo apelo fácil ou plenamente convidativo que a TV normalmente exige de seus produtos. O diretor já havia provado em Cenas de um Casamento (1973) que trabalharia na TV com a crueza e poesia necessárias para contar a história que tinha em mente e ponto final. Mesmo que a trama apresentasse uma aparente paz ao final (uma falsa paz, diga-se de passagem) ela seria conseguida através de sacrifícios grandiosos e cicatrizes eternas deixadas na memória dos personagens. Nesse sentido de aparente paz externa e guerra interna, é vital a presença do teatro em Fanny & Alexander, um diálogo formal que vemos desde a abertura do filme. Todos representam alguma coisa, algum papel em determinada parte da saga e o único que parece se mostrar de verdade é o odioso Bispo Vergerus, com sua máscara de ferro presa de forma vital ao corpo, a única que ele tinha.

Boas sagas familiares não são exercícios dramáticos fáceis de se conceber. Criar e desenvolver um grande número de personagens, explorar e entrelaçar suas histórias, experimentar narrativas dentro de narrativas e dar um sentido geral plural (mas coerente) e reflexivo ao final de tudo não é tarefa para todo roteirista e diretor.

Em Fanny & Alexander, temos um bom exemplo de como isso pode ser feito da melhor maneira possível. Apoiado por um excelente elenco e uma equipe técnica primorosa, Bergman criou uma dessas poucas sagas familiares que realmente valem a pena. A história de uma vida através de um ponto de vista incomum, que não tem medo de mostrar que a realidade também pode ser visitada pela fantasia e que através do olhar de um personagem de pouca idade (visão narrativa que predomina na obra), as ações dos outros se tornam ainda mais absurdas, curiosas e, de alguma forma, fascinantes. Qualquer um que se dispor a lembrar e reconstruir sua infância entenderá isso e perceberá que Fanny & Alexander é um pequeno detalhe da realidade dramatizado pela ficção.

Fanny & Alexander (Fanny och Alexander) — Suécia, França, Alemanha Ocidental, 1982
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Kristina Adolphson, Börje Ahlstedt, Pernilla Allwin, Kristian Almgren, Carl Billquist, Axel Düberg, Allan Edwall, Siv Ericks, Ewa Fröling, Patricia Gélin, Majlis Granlund, Maria Granlund, Bertil Guve, Eva von Hanno, Sonya Hedenbratt, Jarl Kulle, Lena Olin, Pernilla August, Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson
Duração: 188 min. (corte de cinema) 320 min. (série de TV).

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.