Crítica | Fantasia 2000

Confesso que não sou um dos entusiastas mais notórios do Fantasia original, lançado ali no início dos longínquos anos 40. E não apenas pelo envelhecimento natural de sua proposta (poucos filmes conseguem resistir realmente bem ao tempo), mas pelas próprias escolhas narrativas de Walt Disney que quebravam o ritmo de um conceito muito difícil de ser aceito naquela época (a junção de um gênero popular como a animação com diversas histórias acompanhadas de composições clássicas), o que condenou Fantasia a um imediato fracasso de público e crítica, alcançando seu status atual anos depois.

Fantasia 2000 chegou ao público num momento onde este conceito experimental já estaria  simplificado e mastigado, sem o mesmo frescor de antes, mas ainda repleto de possibilidades imaginativas se caindo nas mãos certas. O abstratismo, a psicodelia, a vontade de navegar pela infinitude de possibilidades do mundo das animações era o que mantinha o interesse por Fantasia em alta, e é o que Fantasia 2000 visa manter para si, trazendo na bagagem vozes mais populares de figuras populares do cinema como Steve Martin, Bette Midler, Angela Lansbury e James Earl Jones, o eterno Darth Vader. Uma pena que o próprio conceito da continuação a condene a uma identidade menos fascinante que o original.

Dividido em seis novos segmentos repletos de cores e movimentação, Fantasia 2000 não se poupa em começar com uma homenagem declaradamente aberta ao original dos anos 40, que se contenta em exibir uma série de imagens sensoriais, aparentemente desorganizadas e kitschs, mas que colocam na mesa as cartas do conceito de Fantasia, deixando claro ao público a proposta do que irá se seguir a partir dali.

E como qualquer narrativa não tão bem planejada para desmembrar bem suas várias esquetes, Fantasia 2000 oscila comumente entre segmentos interessantíssimos e visualmente cativantes com outros que apresentam um empenho não tão notório em manter a mesma força. “Pinheiros de Roma”, em especial, é o grande destaque da animação, contando a história de uma baleia que se perde a mãe com impecáveis toques tridimensionais, que ressaltam o aspecto mais cinzento e desesperançoso desse momento, quebrados ocasionalmente por um balé esplendoroso de imagens surreais com o céu estrelado.

Em contraponto, “Rapsódia em Azul” deixa a dever quando surge logo em seguida ao “Pinheiros de Roma”, e mesmo sua proposta em reviver a vida dos trabalhadores operários da NY nos anos 30 pouco compensa diante dos traços simplistas e uma dinâmica bem menos curiosa entre os personagens que surgem em tela. “O Soldadinho de Chumbo”, segmento seguinte, recupera o fôlego ao recontar a clássica história de Hans Christian Andersen através dos moldes narrativos que o início dos anos 2000 ofereciam para as animações computadorizadas, e novamente temos aspectos visuais elegantemente bem explorados e tonalizados em suas cores, e momentos de tensão que são muito bem representados pela trilha sonora do russo Dmitri Shostakovitch.

E se “O Carnaval dos Animais” diverte sem dificuldades, mas sem configurar-se entre os destaques do longa, “O Aprendiz de Feiticeiro” retoma a força da proposta ao trazer o personagem mais famoso da Disney em sequências de encantar os olhos e tirar o fôlego, como bem comprova a sequência da multiplicação de vassouras. “Pompa e Circunstância”, que resgata o icônico pato Donald, oscila com perigo no equilíbrio entre drama e humor, o que abre alas para que Fantasia 2000 seja salvo pelo gongo com “O Pássaro de Fogo”, baseado num conto do lendário Ígor Stravinski, e esse finale reúne instantes primorosos de melancolia e poesia ao abordar temas intimistas como morte, ressurreição, espiritismo e esperança.

Ainda funcional em sua proposta, porém bem menos encantadora do que sua ideia havia sido anos atrás, Fantasia 2000 carrega energia suficiente para manter viva sua força enquanto entretenimento experimental, mas peca mais do que deveria no mal equilíbrio entre suas histórias, oscilando perigosamente entre o saldo positivo e a frustração de um conto narrativamente mal imaginado.

Fantasia (2000) – EUA, 2000
Direção: James Algar, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Hendel Butoy, Francis Glebas, Eric Goldberg, Pixote Hunt
Roteiro: Eric Goldberg , Joe Grant, Perce Pearce, Carl Fallberg, Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi, Brenda Chapman, Elena Driskill, Irene Mecchi, David Reynolds
Elenco: Steve Martin, Bette Midler, Angela Lansbury, James Earl Jones, Wayne Allwine, Frank Welker
Duração: 74 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.