Crítica | The Lost Stories 2X01: Farewell, Great Macedon

Farewell, Great Macedon

estrelas 4,5

Equipe: 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara
Espaço-tempo: Babilônia,  maio/jun, 323 a.C.

A série Lost Stories, da Big Finish, nasceu da intenção da produtora em realizar os roteiros escritos para o 6º Doutor durante a 22ª Temporada Clássica de Doctor Who, mas que jamais chegaram a ser produzidos pela BBC. Ou seja, a BF almejava criar “a temporada que nunca foi”, com o Colin Baker protagonizando arcos que só existiram no papel, e que, na intenção da BF, seriam enquadrados na 23ª Temporada, para acompanharem o único e gigantesco arco que a forma: The Trial of a Time Lord. Se olharmos toda a 1ª Temporada de Lost Stories, veremos que os seus 8 episódios são histórias do 6º Doutor.

Mas uma mudança estava para acontecer na temporada seguinte. A Big Finish recebeu autorização de Moris Farhi, escritor turco-britânico, para adaptar os dois roteiros que ele escrevera para o 1º Doutor entre 1963 e 1964. Um deles, Farewell, Great Macedon, chegou a ser cogitado para produção, mas acabou sendo levado para a gaveta devido às muitas exigências dos Executivos da BBC para mudanças no texto e as constantes recusas de Farhi em realizá-las, porque não queria perder o caráter histórico no qual tanto trabalhara. O autor tentou outras vezes submeter o script para produção, mas nunca foi atendido.

Não há registros oficiais sobre a localização cronológica de Farewell, Great Macedon na era do 1º Doutor, mas, com um pouco de atenção, é possível ver que ele só poderia ser exibido entre O Reino do Terror e Planeta dos Gigantes, os únicos dois arcos com Susan, Ian e Barbara que não tiveram narrativas de conexão/cliffhanger.

***

Abaixo, temos o incrível fanzine produzido pelo grupo Nothing at the End of the Lane. O pessoal dessa revista é especializado em fazer caças a tesouros de Time Lords e publicar coisas raras e clássicas de Doctor Who. Eles vêm fazendo um trabalho incrível nos lançamentos de obras restauradas ou (re)descobertas, como aconteceu com os dois roteiros de Moris Farhi nunca produzidos: The Fragile Yellow Arc of Fragrance (um roteiro-teste que nunca seria produzido, mas que também acabou sendo transformado em arco pela Big Finish) e este sobre o qual falamos no presente texto.

.
Farewell, Great Macedon
 é composto por 6 episódios e conta a chegada do Doutor e seus primeiros companheiros na Babilônia, cidade da antiga Mesopotâmia, no ano 323 a.C.. Nessa aventura, eles encontrariam Alexandre, o Grande em um dos momentos mais dramáticos de sua vida, drama pessoal que o roteiro de Farhi trabalha com perfeição, em par com uma acurada pesquisa histórica. Ainda bem que esse tratamento original não se perdeu na adaptação para a plataforma de audiodrama feita por Nigel Robinson.

Abaixo, segue a lista com os nomes de cada um dos episódios.

1. The Hanging Gardens of Babylon
2. The Wrath of the Greatest Grecian of Them All! / O, Son! My Son!
3. A Man Must Die
4. The World Lies Dead at Your Feet
5. In the Arena
6. Farewell, Great Macedon!

Desde o início do primeiro episódio, temos um plot de conspiração armado para matar Alexandre e alguns de seus leais seguidores. O roteiro não se perde em sentimentalismos, colocando sempre a motivação histórica como ponto de partida para o ódio e a ganância. Levando em consideração que Alexandre governava 90% de todo o mundo conhecido em sua época, é natural que houvessem membros de sua corte interessados em tomar o poder, ou, em alguns casos, apenas se valerem de um imperador “fabricado” para enriquecerem com os favores cedidos pelo monarca.

Moris Farhi conquista o ouvinte com um texto que equilibra emoção, medo, angústia, suspense e detalhes históricos muitíssimo bem vindos, inclusive no que se refere à interação dos povos conquistados por Alexandre, a citação da educação do conquistador por Aristóteles, o papel de Ptolomeu no fim da trama e a promessa da construção da Biblioteca de Alexandria – juntamente com o governo do Egito que, a partir dele, teria a inicialmente gloriosa Dinastia Ptolomaica… Todos esses detalhes são contextualizados sem pressa e no momento certo da trama, trazendo revelações notáveis em cada capítulo e características corretas da cultura macedônica, bem como a forma de Alexandre em encarar o poder e a educação.

O único capítulo que traz um ponto fraco no arco é o de nº5 (In the Arena), apesar de toda a irretocável retratação dos conceitos das Olimpíadas gregas e a relação de poder e dedicação de amizade vindas de Alexandre para com os viajantes no tempo.

Ao ouvir todo o arco, fica fácil perceber o por quê a BBC impôs tantas condições para produzi-lo e o porquê Moris Farhi se recusou a ceder. Todavia, Farewell, Great Macedon é uma pequena pérola, um entalhe histórico na timeline do 1º Doutor que é de fazer orgulho a qualquer whovian.
.

Capas com o 1º Doutor, Susan e Ian, produzidas para o arco da Big Finish.

.
A produção da Big Finish está, como sempre, impecável. Uso correto de uma incrível trilha sonora, volume bem dosado para os efeitos sonoros da dramatização e um modelo de exposição do roteiro que eu particularmente gostei bastante. Os atores também adotam o papel de narradores, lendo as especificações do roteiro para lugares e passagens do tempo, algo que combinou muito com o conceito de “lost stories”.

O elenco é composto por Carole Ann Ford (Susan, na série clássica e que aqui também interpreta Barbara); William Russell (Ian, na série clássia e que aqui também interpreta – maravilhosamente, diga-se de passagem – o 1º Doutor) e John Dorney, roteirista e ator de vários áudios da Big Finish, que faz o papel de Alexandre, o Grande.

Seja como evento histórico, seja como arco jamais produzido para a série clássica ou apenas como entretenimento, Farewell, Great Macedon é uma excelente pedida. O final da história não cede a maneirismos chorosos: é emotivo na medida certa, um fator passional que, acumulado durante toda a saga, desemboca nesse momento com bastante força e verossimilhança. Alexandre, o Grande, ficaria orgulhoso.

The Lost Stories (Reino Unido, nov, 2010)
Roteiro: Moris Farhi (adaptado por Nigel Robinson)
Direção: Lisa Bowerman
Elenco: William Russell, Carole Ann Ford, John Dorney
Duração: 6 episódios de 30 min.
Distribuidora: Big Finish Productions

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.