Crítica | Fargo – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Bemidji, Minnesota. Uma cidade fria, com neve o tempo todo e onde nada de relevante realmente acontece. Um encontro casual coloca em movimento uma engrenagem de muito sangue que deixa evidente o que está logo abaixo da superfície da natureza humana.

Isso é, em poucas palavras, o que é Fargo, a série baseada no filme cult de mesmo nome dos irmãos Coen, que atuam como produtores executivos. Noah Hawley é o showrunner e roteirista que, usando uma estrutura de antologia, na linha de True Detective e American Horror Story, em que cada temporada conta uma história diferente, com personagens e atores diferentes, consegue fazer uma das séries mais cativantes e perturbadoras do ano.

Àqueles que consideram Fargo (o filme) uma obra-prima que não deveria ser tocada, vale deixar claro logo de início: a série não é uma adaptação do filme. Trata-se de uma história com a atmosfera e traços de personagens extraídos da obra dos Coen, mas o que vemos na tela é algo diferente, novo e excitante assim como o filme foi em 1996 e continua sendo até hoje. Pode parecer estranho esse tipo de arroubo criativo – e eu realmente achava isso até ver o magnífico primeiro episódio – mas é impressionante como tudo funciona bem, tanto para quem conhece como para quem não conhece a obra original (e, quem não conhece, faça um favor a si mesmo e assista!).

O encontro casual que mencionei no início se dá entre Lester Nygaard (Martin Freeman em papel claramente refletindo o de William H. Macy, na pele de Jerry Lundegaard, do filme), vendedor de seguros e Lorne Malvo (Billy Bob Thornton), assassino profissional. O que os dois estão fazendo juntos? O destino os levou ao hospital onde se encontram. Lester sofreu bullying do eterno valentão de escola Sam Hess (Kevin O’Grady) e machucou o nariz e Lorne bateu com o carro que, no porta malas, continha uma de suas vítimas, que saíra correndo, de cueca, pelo meio da neve.

Como o famoso diabinho do ombro de Lester, Lorne planta a semente que viria, logo no final do primeiro episódio, deflagrar, na mente mais fraca e influenciável de Lester, a vontade de se libertar do que ele vê como a principal fonte de suas agruras: sua esposa que o massacra com comentários que o emasculam e sempre o compara com seu irmão bem-sucedido Chazz (Joshua Close). Ao mesmo tempo, Lorne, sempre o diabo, interpreta um desejo de Lester de se livrar de Sam Hess como uma encomenda de assassinato.

O que vemos, a partir daí, é a tenaz policial Molly Solverson (Allison Tolman) desconfiada do envolvimento de Lester no que aconteceu em sua pacata cidade. Em Duluth, cidade “grande” próxima, Lorne fornece elementos para tornar o pacato policial Gus Grimly (Colin Hanks) desconfiado que há alguma coisa errada. É evidente que os caminhos de Gus e de Molly convergirão em algum momento. Com isso, estabelece-se as linhas narrativas que pavimentam o caminho nevado que a série toma.

Com uma fotografia excepcional, que emula a de Fargo (o filme), a temporada consegue ser um prazer visual a todo momento. O branco da neve e o vazio da cidade são utilizados de forma a refletir o estado de espírito e mental de Lester ao longo dos episódios. Cores frias entrecortadas por elementos específicos com cores fortes – como o inesquecível laranja do casaco de neve de Lester – passam a tristeza de uma vida empacada, sem a mais remota chance de crescimento. Culpa da esposa de Lester em sua cabeça, mas nós sabemos, claro, que o único responsável por seu comodismo é ele mesmo, um homem preso à sua falta de coragem e ambição, por sua inveja do sucesso das pessoas ao seu redor. Lester é um homem que, com o tempo, adota uma persona que não é a sua, quase que tentando, orgulhosamente, se parecer com seu “mentor” Lorne Malvo. Mas o que Lester não consegue perceber é que Malvo é o que ele é e qualquer outra persona dele é um disfarce. Malvo sabe quem é e quem quer ser e esse embate de personalidades, que se dá, na verdade, com os dois traçando caminhos separados durante fundamentalmente quase toda a temporada, é absolutamente fascinante e transforma cada episódio de pouco menos de uma hora em experiências curtas, que sempre deixam o gosto de quero mais.

Acontece que uma temporada inteira não poderia se sustentar sem outros personagens quase igualmente fascinantes. A dupla Solverson e Grimly funciona como uma boa contrapartida a Nygaard e Malvo. Os dois são fundamentalmente bons. Enquanto Solverson representa a vontade de trabalhar e a inteligência de lidar com uma situação impossível (traços presentes também em Nygaard), Grimly é o inocente útil, um homem completamente sem ambições e que sabe e aceita isso sem pensar duas vezes.

O novo chefe da polícia de Bemidji, Bill Oswalt (o ótimo Bob Odenkirk, o Saul de Breaking Bad e Better Call Saul) representa a inoperância do serviço público. Nada acontece em sua cidade e, quando acontece, ele só quer se livrar do caso, encerrando-o de qualquer jeito, sem se preocupar – ou refutando como maluquice – as elaboradas teorias de Solverson. Mas Oswalt também é um personagem fundamentalmente bom e não faz o que faz (ou o que não faz, na verdade) por mal, mas sim talvez por não compreender de verdade o quão sombria pode ser a alma humana. Seus momentos de realização do que o mundo é na verdade são tocantes e inesquecíveis, convertendo-o em um personagem que, se em um primeiro momento temos uma certa ojeriza, passamos a nos compadecer por ele.

Mas Fargo é uma série definitivamente diferente e essa qualidade foi vista, por muitos comentadores, como seus aspectos negativos. São dois os momentos tidos como “falhas”, mas que fazem a série ser o que ela é. O primeiro deles ocorre logo após os eventos do primeiro episódio, com Lorne Malvo iniciando uma nova missão – completamente diferente da que a levou a Bemidji – em Duluth. Trata-se de uma trama envolvendo a chantagem de Stavros Milos (Oliver Platt), um magnata local dos supermercados que é protegido pela máfia que contrata Malvo para resolver o problema. Malvo tenta inverter o jogo, passando de hitman para chantageador sem uma explicação aparente, iniciando uma trama que envolve as pragas bíblicas e uma fantástica sequência de invasão de uma casa pela polícia local (não entrarei em detalhes para manter a presente crítica sem spoilers).

Toda essa história paralela, porém, é de tirar o chapéu em toda sua construção e execução. Ela serve de comentário para a história principal, novamente lidando com a corrompida e desesperançosa alma humana sendo manipulada pelo diabo. A ligação bíblica direta com as pragas de Moisés não deixa isso em mistério e Malvo fica cada vez mais próximo da figura do diabo. Ao mesmo tempo, começando em Bemidji, dois pistoleiros (Mr. Numbers e Mr. Wrench, vividos por Adam Goldberg e Russell Harvard) de Fargo tentam descobrir quem matou Sam Hess, levando a outra fantástica sequência na neve, durante um whiteout (quando ninguém consegue enxergar um palmo à sua frente diante do branco da neve e que faz o elenco principal convergir para um ponto só, mas por razões completamente diferentes e descoladas da trama que envolve Lester Nygaard. E claro, não deixem de se deliciar com o plano sequência em Fargo, que vem em decorrência do whiteout, em que Malvo faz o que faz de melhor. Nosso olhar é externo apenas e dependemos dos sons para entender a cena – nada complicado – mas é um momento para se aplaudir de pé em termos de eficiência dramática, direção e fotografia.

O segundo ponto que foi criticado diz respeito ao salto temporal de um ano que acontece no oitavo episódio. Serei particularmente críptico aqui, para evitar spoilers, mas o fato é que Noah Hawley recorre esse artifício não para permitir a resolução da trama de maneira mais fácil, mas sim para nos mostrar que a vida continua, mas que, no final das contas, tudo é cíclico e atos bons ou maus cometidos em determinado momento de sua vida inevitavelmente voltarão em algum momento futuro. Parece que Hawley “nos engana” com a passagem de tempo, mas acreditem em mim quando eu digo que ela funciona perfeitamente, sem artificialidades além do que o que a própria narrativa nos impõe desde o começo (lembram-se da coincidência que começa tudo?).

Se Fargo será renovada para uma segunda temporada, pouco importa. A história de Lester Nygaard e Lorne Malvo acaba aqui e ela merece ser conhecida por todos. Se a série é alguma coisa, ela é uma bela e consistente homenagem a um grande pequeno filme de 1996, mas uma homenagem de roupagem própria, de vida própria e de personalidade própria. Deleitem-se com a podridão humana no melhor estilo dos Coen mais uma vez!

Fargo – 1ª Temporada (Fargo – Season 1, EUA – 2014)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Adam Bernstein, Randall Einhorn, Colin Bucksey, Scott Winant, Matt Shakman
Roteiro: Noah Hawley (baseado em filme de Joel e Ethan Coen)
Elenco: Billy Bob Thornton, Martin Freeman, Colin Hanks, Allison Tolman, Bob Odenkirk, Kate Walsh, Adam Goldberg, Russel Harvard, Oliver Platt, Shawn Doyle, Tom Musgrave, Keith Carradine, Joshua Close, Adam Goldberg , Russell Harvard
Duração: 550 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.