Crítica | Fargo – 2ª Temporada

estrelas 5,0

Quando foi anunciado que Fargo, um dos melhores e mais divertidos filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen, viraria uma série de TV, imediatamente torci o nariz. E isso aconteceu novamente após eu mergulhar de cabeça no universo desenvolvido por Noah Hawley com o FX, acertando em cheio com personagens, situações e eventos que conversam com o filme dos Coen, mas que têm vida própria. Foi, de longe, a melhor produção televisiva de 2014, e ainda me entristece ver que nenhum canal brasileiro adquiriu os direitos para distribuição. Shame on you!

Emmys, Globos de Ouro e outros prêmios depois, Hawley se viu no desafio de continuar sua história única com uma segunda temporada. Assim como Nic Pizzolato com sua badalada True Detective, o showrunner optou pelo formato de antologia, então a trama desta nova temporada acontece isoladamente da primeira, ainda que traga uma clara conexão: se passa na década de 70, explorando a juventude de um dos personagens envelhecidos. Esse personagem é Lou Solverson, vivido por Keith Carradine no primeiro ano, e agora por Patrick Wilson como sua versão mais jovem.

Dessa vez, a trama tem início quando somos apresentados à Família Gerhardt, uma organização influente na Dakota do Norte que começa a se desequilibrar com o repentino derrame do patriarca, Otto (Michael Hogan). Assim, a liderança do grupo passa a ser disputada pela esposa, Floyd (Jean Smart) e os três filhos: o esquentado Dodd (Jeffrey Donovan), o “urso” Bear (Angus Sampson) e o caçula Rye (Kieran Culkin). Quando Rye tenta demonstrar sua maturidade, assim como fechar um negócio importante, ele acaba deixando três mortos em um restaurante.

É aí que entra Lou e seu parceiro/sogro Ted Danson (Hank Larsson) para investigar o caso, ainda envolvendo o casal Peggy e Ed Blumquist (Kirsten Dunst e Jesse Plemmons), que tentam encobrir a morte acidental de Rory, atropelado por Peggy na estrada. Além disso, a situação com os Gerhardt só piora com a iminência de uma guerra de famílias criminosas.

Muita coisa, não é? Nas mãos de uma equipe menos habilidosa, esta segunda temporada de Fargo estaria fadada ao fracasso. Felizmente, Noah Hawley é um sujeito muito inteligente e talentoso. A quantidade de linhas narrativas e personagens é muito bem amarrada pela equipe de montagem, que ora equilibra diversos eventos em um único episódio (como no primeiro, Waiting for the Dutch) ou concentra seus preciosos minutos em uma situação alarmante, como no excelente Rhinoceros, que envolve a gangue dos Gerhardt tentando invadir uma delegacia.

Em decorrência do excesso de situações, o departamento de montagem inteligentemente aposta no uso recorrente de telas divididas, até mesmo para dois personagens em um mesmo local; como quando Ed e Peggy conversam dentro do carro, mas cada um foca sua atenção em um elemento distinto – revelando um uso inteligente desse recurso gráfico tão esgotado. É uma verdadeira aula de como se usar a tela dividida, que aqui alcança o nível de estudo de personagem, e trago novamente um exemplo simples mas efetivo: Em uma tela, temos um personagem em close conversar ao telefone em uma cabine, na outra, temos um plano aberto deste voltando para seu carro logo após dita conversa. É quase como se a tela com o close nos permitisse observar a dúvida crescente dentro do personagem, ao mesmo tempo em que caminha com sua escolha tomada.

Por esses e outros motivos, essa segunda temporada de Fargo talvez seja a série em que um binge watching é mais do que recomendável, já que o intervalo semanal certamente provoca uma quebra no ritmo construído.

Nem de longe tenta replicar a fórmula da primeira temporada, apenas casualmente nos remetendo à Lester com a situação do casal Blumquist, no sentido de ter alguém tentando encobrir um assassinato. E ao contrário do personagem de Martin Freeman, Ed e Peggy são sujeitos ingênuos e sem muito brilhantismo, mas com muito carisma e ambição – especialmente da Peggy de Kirsten Dunst, que é uma das muitas personagens que vai revelando um traço feminista fortíssimo ao longo da história, merecendo destaque sua catarse espiritual em uma cena que é digna de Um Homem SérioE ainda que tenha um papel limitado, Cristin Millioti (agora imortalizada como a Mãe de How I Met Your Mother) faz bem mais do que uma mera dona-de-casa como a esposa de Lou, comprovando sua inteligência ao encontrar uma pista importante ou a coragem ao não demonstrar o menor desespero ao encontrar sua casa arrombada; sua reação é simplesmente apanhar um rifle no armário e vasculhar os cômodos com suave calmaria.

Já aproveito a deixa para falar da espetacular Jean Smart, na pele da sábia Floyd Gerhardt. Sob diversas acusas de não conseguir liderar a família “por ser uma mulher”, Floyd é uma das mais fascinantes personagens da série, especialmente por seu habilidoso planejamento para manter seus rivais afastado, que logo revela-se um calculismo sem igual. E eu disse calculismo? Esperem só para conhecer Hanzee Dent, o silencioso e mortal capanga de Dodd Gerhardt, que é tão inteligente e perigoso como Anton Chighurn em Onde os Fracos Não têm Vez, mas capaz de momentos de calmaria inimagináveis; como quando interrompe uma chacina apenas para pedir um corte de cabelo e revelar uma faceta inesperada.

Outro antagonista memorável é o Mike Halligan de Bokeem Woodbine, um gângster de Kansas City que planeja acabar com os Gerhardt. Um sujeito imprevisível, educado, sanguinário e capaz de recitar os trechos literários mais improváveis, e Woodbine domina cada segundo de participação com uma performance calma e cortês – diferente do cortês de um Hans Landa, por exemplo -, sem transformar Mike ema figura cartunesca. Claro, seus capangas gêmeos e mudos são extremamente caricatos, mas é um toque sutil, e também um leve ode à dupla de capangas da primeira temporada.

Ora, com tantos personagens de conduta duvidosa, quem é a bússola moral da série? Definitivamente é Lou Solverson, vivido aqui por um inspirado Patrick Wilson. Simpático e aparentemente inofensivo, a performance de Wilson se mostra fascinante quando vemos o lado bad ass de Lou, como ao enfrentar sozinho toda a família Gerhardt em um impasse. Sua relação com o sogro/parceiro Hank Larsson (o eficiente Ted Danson) também é interessante, e não é difícil imaginar um backstory no qual o veterano provavelmente apresentou o parceiro para sua filha. Por último, mas não menos importante, o comediante Nick Offerman tem alguns momentos verdadeiramente brilhantes como Karl Weathers, amigo pinguço de Lou que acaba demonstrando um surpreendente heroísmo em Rhinoceros; e o discurso completamente embriagado de Offerman é o suficiente para que seu personagem se destaque como um dos pontos altos da temporada.

Bem, fica evidente que 5 vagas em cada categoria de atuação do Emmy é pouco para o elenco de Fargo, não?

Visualmente, mantém a proeza da primeira temporada. A fotografia aposta pesado na luz natural das paisagens geladas de Minnesota e as Dakotas, ao passo em que traz interiores geralmente aconchegantes com uma iluminação quente; a mansão dos Gerhardt é a exceção, já que o ambiente pouco iluminado constantemente passa uma atmosfera de prisão, simbolizando o próprio estado da família. A atenção aos detalhes também é genial, como o sutil momento em que Floyd acaricia a parede marcada com as medidas de crescimento dos filhos ou como quando um personagem fala ao telefone em uma cabine de vidro onde vemos o desenho de um jogo da forca inacabado – servindo como um ótimo foreshadowing para o destino deste determinado personagem.

As súbitas explosões de violência – tensas ou cômicas – também marcam presença aqui, e de formas distintas de acordo com a exigência narrativa. Por exemplo, em Loplop, uma bizarra situação de refém garante humor negro genuíno com uma simples negação por comida – seguida por uma reação nada convencional – ou o impecável The Castle, que traz uma cena de ação primorosa ao enfim fazer com que as diferentes tramas se enfrentassem em um feroz tiroteio. A segurança de Hawley é tão grande que este último episódio resolve se iniciar com um narrador aleatório (revelado posteriormente como a voz de Martin Freeman, o protagonista da primeira temporada) que apanha um livro e acompanha os eventos como se fossem parte de uma fábula violenta; não é apenas um grande exercício de estilo, mas também um artifício inteligente para relembrar alguns motivos e tentar encontrar uma síntese da personalidade de suas personagens, em especial a jornada de Hanzee.

Então, temos aquele elemento que deixou todo mundo maluco. Leve spoiler, pule o próximo parágrafo se preferir.

Logo no primeiro episódio, um dos personagens avista nos céus aquilo que, à primeira vista, parece ser um OVNI, enquanto no episódio seguinte temos uma narração de Guerra dos Mundos de H.G. Wells e diversas outras pequenas referências a uma possível participação alienígena no seriado. E quando finalmente a série nos presenteia com respostas (ou algo parecido), é uma sensação absolutamente inebriante; uma série que pode literalmente apostar em tudo. É, no mínimo, ousado que esse flerte com a ficção científica aconteça de maneira tão espontânea e funcione dentro da história.

Por fim, é obrigatório comentar a impecável trilha sonora incidental escolhida por Hawley. Se a série carrega o espírito dos Coen, a coletânea musical é digna de Tarantino; o primeiro episódio já se encerra magistralmente com um cover de “Didn’t Leave Nobody But the Baby” (também apresentada em E aí meu Irmão, Cadê Você?) cantado pelo próprio Noah Hawley! Um momento absolutamente inebriante é a despedida inesperada de uma dos personagens na imensidão de uma floresta, acompanhada por “Danny Boy”, de Lisa Hanning, ou quando descobrimos o destino de uma carinhosa personagem com a triste melodia de “Sylvia’s Mother”, de Dr. Hook e The Mother. Outros hits da década de 70 incluem “On the Run”, do Pink Floyd, uma escolha sensacional para o intenso confronto em The Castle e “Gettin it Back”, do Cymande, para uma tensa construção de suspense. Recomendo fortemente irem atrás da trilha, e ofereço um ótimo guia, aqui.

Sem medo de apostar em elementos fantásticos ou narrativas complexas, a segunda temporada de Fargo é uma sucessora digna para sua excelente estreia no ano passado, com a imbatível capacidade de nos surpreender, chocar e, mais importante, refletir. Revela-se uma obra magistral e que certamente deixou os Irmãos Coen orgulhosos.

Fargo – 2ª Temporada (Fargo – Season 2, EUA – 2015)

Showrunner: Noah Hawley
Diretores: Michael Uppendahl, Noah Hawley, Randall Einhorn, Jeffrey Reiner, Keith Gordon, Adam Arkin
Elenco: Patrick Wilson, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, Jean Smart, Ted Danson, Kieran Culkin, Cristin Millioti, Jeffrey Donovan, Angus Sampson, Michael Hogan, Zahn McClarnon, Bookem Woodbine, Nick Offerman, Rachel Keller, Bruce Campbell.
Duração: 50 min (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.