Crítica | Fargo – 3X01: The Law of Vacant Places

fargo_3x01_the_law_of_vacant_places_plano_critico

estrelas 4

  • Leiam, aqui, a crítica do filme original e, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Acho que é tranquilo afirmar que Noah Hawley, Matthew Weiner e Vince Gilligan formam a Santíssima Trindade moderna dos showrunners, reunindo estilos inconfundíveis e conteúdo em abundância em séries que ficarão por muito tempo na memória da televisão mundial. Mas Hawley é o único dos três que se mostra capaz de lidar quase que simultaneamente com duas séries, considerando que ele produziu tanto Legion quanto Fargo ao mesmo tempo, com datas de encerramento de uma e início da outra quase casadas. Um feito e tanto, sem dúvida alguma.

O formato de antologia de Fargo, inspirada pelo filme homônimo dos Irmãos Coen, exige a troca completa de elenco e a criação de histórias novas a cada temporada, ainda que traços estéticos em comum sejam mantidos em todas elas, tendo o nevado estado de Minnesota substancialmente como pano de fundo para os acontecimentos. No entanto, a 1ª e 2ª temporadas foram unidas por mais do que estilo e localização, já que a 2ª funciona como um distante prelúdio da 1ª considerando a presença em comum da família Solverson lidando com casos diferentes, em épocas diferentes. E, claro, a 1ª temporada tenta ser o mais próxima possível do filme, com direito até a policial grávida. Assim, a 3ª temporada, pelo menos em seu episódio inaugural, parece ser a primeira realmente desconectada mesmo das outras duas e da obra dos Coen, o que exige certos cuidados de Hawley.

Quando o capítulo começa, estamos em Berlin Oriental, em 1988, com um cidadão sendo interrogado por um oficial da Stasi sobre um assassinato. O diálogo é surreal, do tipo “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, já que o caso é claramente de identidade equivocada, mas que, como o Estado não erra, segundo o oficial, então claramente o cidadão está mentindo, apesar de todas as evidências em contrário. A tomada é claustrofóbica, em plano e contra plano em um ambiente sufocante em que vemos, atrás do oficial, apenas a sombra da neve caindo lá fora.

Sem resolver essa sequência, Hawley, então, nos leva para 2010, no Minnesota, ao aniversário de 25 anos de casamento de Emmit Stussi (Ewan McGregor) em sua mansão nevada. Em uma espécie de paródia da sequência inicial de O Poderoso Chefão, observamos Emmit e seu sócio e advogado Sy (Michael Stuhlbarg) recebendo visitas relacionadas com aspectos financeiros enquanto a festa rola no andar de baixo. Uma dessas visitas é do próprio irmão mais novo (que parece muito mais velho) de Emmit, Ray (também McGregor, debaixo de uma excelente maquiagem que o deixa quase careca), que vem pedir mais dinheiro ou a devolução de um aparentemente valioso selo que fica emoldurado na parede atrás da mesa de Emmit em razão de um passado não completamente explicado.

A negativa de Emmit faz com que Ray, um oficial da condicional que quer o dinheiro para poder se casar com a bela Nikki (Mary Elizabeth Winstead), uma criminosa em condicional sob sua guarida, contrate os serviços de outro criminoso em condicional, o constantemente bêbado ou drogado Maurice LeFay (Scoot McNairy), para roubar o selo do irmão. Paralelamente, outras situações nos são apresentadas, com a chefe de polícia Gloria Burgle (Carrie Coon) levando o filho para jantar com seu padrasto em sua casa no meio do nada com lugar nenhum e uma ameça mafiosa representada por um caricato David Thewlis vivendo o sinistro V. M. Varga que representa interesses escusos na empresa de Emmit e Sy.

Para quem já viu as outras temporadas de Fargo, não são necessários muitos detalhes. Hawley monta uma história muito diferente, mas ao mesmo tempo muito familiar e não há dúvidas que o episódio acaba em sangue e a conexão das duas narrativas paralelas. As marcas registradas visuais da série estão todas lá: violência gráfica, planos gerais desolados, normalmente brancos pela neve (aqui com um belo filtro que torna a neve levemente amarelada), um contraste com cores fortes, desta vez ao vermelho do Corvette caindo aos pedaços de Ray e do uniforme do padrasto de Gloria em sua lojinha de conveniência e o uso de músicas marcantes para marcar e comentar a narrativa.

É claro que o que chama mais atenção é o papel duplo de McGregor e isso não deixa de soar como um artifício justamente para “dar o que falar”, com o ator muito bem tanto como Emmit quanto como Ray, emprestando características marcantes para cada um que vão muito além das questões físicas. Essa brincadeira de Hawley parece rimar com a identidade trocada do prólogo na Alemanha e deve ser desenvolvida mais para frente para não parecer apenas como algo imaginado apenas como chamariz de espectador.

Mas há muito que se apreciar além de McGregor. A personagem de Carrie Coon, uma versão mais vivida e esperta da policial grávida Molly Solverson da 1ª temporada tem enorme potencial não só pela atriz em si, como também pela forma como age diante da ameaça iminente, deligando o “modo mãe” e ativando o “modo policial” de maneira crível e urgente, sem, porém, parecer uma super-policial pronta para lidar com qualquer bandido. Mary Elizabeth Winstead também se esforça no episódio para firmar sua personagem Nikki, jogadora semi-profissional de bridge que, desconfio, será a outra temática da temporada. Mas ela acaba saindo um tanto quanto genérica, do tipo “bonita, mas lugar-comum” e ainda precisará de maior desenvolvimento para realmente despontar como Carrie desponta logo nos primeiro segundos em que a vemos em cena.

Sem dúvida alguma, porém, talvez o maior atrativo seja a beleza plástica do episódio. Já falei do uso de planos gerais nevados e da claustrofobia do prólogo na Alemanha Oriental. Mas Hawley é um pintor televisivo. Ele faz muito mais do que apenas filmar o óbvio, ainda que lhe falte a delicadeza de Vince Gilligan. Mesmo assim, é incrível como ele faz uso de fontes de luz inusitadas para criar atmosferas inusitadas no episódio, como o brilho da televisão e do congelador do padrasto de Gloria gerando bons momentos de suspense em sua cabana. O mesmo vale para o contra-luz utilizado na mansão de Emmit para lidar com a submissão de Ray às regras e à empáfia do irmão. E isso sem contar com as cores quentes – quase mortais – do apartamento de Nikki, que reitera sua personalidade capaz de qualquer coisa para resolver um problema.

The Law of Vacant Places merece os selos de qualidade Fargo e Noah Hawley, sem dúvida. Não é um episódio sem problemas, mas é um excelente começo para o que promete ser mais uma deslumbrante temporada da série.

Fargo – 3X01: The Law of Vacant Places (EUA, 19 de abril de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Noah Hawley
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Ewan McGregor, Michael Stuhlbarg, Carrie Coon, Mary Elizabeth Winstead, David Thewlis, Scoot McNairy, Shea Whigham
Duração: 69 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.