Crítica | Fargo – 3X05: The House of Special Purpose

estrelas 4,5

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, a crítica do filme original e, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Nessas últimas críticas dos episódios de Fargo tenho dito que Noah Hawley é um dos principais fatores que fazem da série ser tão boa, mas não podemos esquecer, também, de seus atores. Por se tratar de uma antologia, o seriado possibilita que nomes de destaque, que não, normalmente, aceitariam se engajar em uma série, façam parte de seu elenco. The House of Special Purpose é um daqueles capítulos que nos lembra disso, trazendo o máximo de seus atores, que nos hipnotizam com o seus trabalhos.

Seguindo a tensão deixada no ar após o encontro de Sy com a policia, V.M. Varga o confronta, deixando bem claro o que acontecerá caso isso se repita. Em pânico em virtude disso e de ter descoberto que Varga agora é um sócio de sua empresa, Sy se encontra com Emmit. Ao chegar em sua casa, porém, ele se depara com seu sócio desestabilizado, desesperado após sua esposa o abandonar por ter visto a falsa sextape enviada a ele como chantagem por seu irmão. Cabe a Feltz, portanto, desarmar ambas essas situações, enquanto que a policial Gloria, ao lado de Winnie, continuam suas investigações, chegando cada vez mais perto na verdade.

O maior destaque desse episódio de Fargo certamente é Michael Stuhlbarg, que encarna com perfeição a figura do homem em pânico, mergulhado até o pescoço em situações inacreditáveis. O amontoado de coincidências da série transforma tudo isso em um delicioso humor negro, algo que apenas aumenta em razão das reações hilárias de Stuhlbarg, que chega perto de ter um mental breakdown na sequência do restaurante. O melhor é que tudo isso é feita com uma extraordinária simplicidade, nos fazendo acreditar no personagem. Seja pela seu falar hesitante ou suas expressões de choque, nos vemos completamente absortos na série, que passa em um piscar de olhos.

Claro que, ao seu lado, temos o excelente Ewan McGregor, cada vez mais sendo manipulado por aqueles ao seu redor (tanto Emmit quanto Ray). Enquanto isso, o paralelismo entre os dois continua aparecendo, solidificando a já falada atmosfera de humor negro. Enquanto que um perde a esposa o outro se casa e, por pouco, não perde também a mulher. Quando um é questionado pela Receita, o outro é interrogado pela polícia e McGregor, trazendo as diferenças claras entre os dois irmãos, coloca em tela duas figuras hesitantes, claramente culpadas de algo, demonstrando isso à suas próprias maneiras. O curioso é que, mesmo sem o bigode de Ray o vemos como outra pessoa, demonstrando de uma vez por todas a força da atuação desse ator.

Já Varga, interpretado por David Thewlis, rapidamente se torna uma figura cada vez mais ameaçadora. Sua primeira sequência no capítulo é emblemática, com o poder na sala claramente se depositando sobre ele, independente das vulgaridades cometidas por sua pessoa. É curioso observar como o ator oscila entre o vulgar e o educado com tamanha facilidade, demonstrando as duas facetas de seu personagem com exímia clareza. Enquanto isso, o mistério que o circunda apenas aumenta, deixando-nos curiosos em relação a quanto poder ele realmente detém, algo que vai apenas aumentando a cada semana, com novas informações sendo deixadas para nós, espectadores.

Não podemos nos esquecer, claro, da angustiante sequência no estacionamento, com Nikki sendo espancada. A direção de Dearbhla Walsh espertamente trabalha com o espaço fora da tela, aumentando o suspense, não deixando claro se ela irá sair viva ou não e, independente se gostamos ou não da personagem, não há como não se compadecer em razão da brutalidade, marcada pelos gritos da garota. A ameaça de V.M. se sedimenta completamente aqui, mostrando o quão violento ele pode ser. Diria que o único problema do episódio foi ter mostrado ela entrando no carro, algo que poderia ter ficado de fora a fim de aumentar o suspense até a cena de Ray a encontrando no banheiro em um plano verdadeiramente desolador, que transforma imediatamente todos eles em vítimas e Varga como o verdadeiro antagonista de toda a história.

Com todos esses elementos em harmonia, fica praticamente impossível não enxergar The House of Special Purpose como mais um excelente episódio de Fargo. Temos aqui claros avanços para a trama geral e mais construção dos personagens da série, todos vividos por atores que realmente se entregam aos respectivos papéis. Noah Hawley é um gênio, mas esses artistas, que dão vida a seus roteiros, claramente também o são.

Fargo – 3X05: The House of Special Purpose — EUA, 17 de maio de 2017
Showrunner:
Noah Hawley
Direção: Dearbhla Walsh
Roteiro: Robert De Laurentiis
Elenco: Ewan McGregor,  Carrie Coon,  Mary Elizabeth Winstead, Goran Bogdan,  David Thewlis,  Michael Stuhlbarg,  Shea Whigham, Scoot McNairy,  Olivia Sandoval, Linda Kash
Duração: 52 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.