Crítica | Fargo – 3X08: Who Rules the Land of Denial?

fargo-3x08-plano-critico

estrelas 5,0

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, a crítica do filme original e, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

É bastante comum, ao assistir um filme ou série de televisão, especialmente quando a obra não consegue captar totalmente nossa imersão, nos pegarmos olhando repetidas vezes para o relógio, imaginando quanto falta para a exibição terminar. Em casos mais raros, algo similar pode acontecer, acompanhamos a hora passar, mas não desejando que aquilo que estamos vendo acabe e sim desejando que o seu fim nunca chegue. Essa foi minha vontade ao assistir Who Rules the Land of Denial?, oitavo episódio da terceira temporada de Fargo, um verdadeiro primor da televisão, que explicita todo o poder da narrativa (completamente maluca) de Noah Hawley.

O capítulo inicia de onde fomos deixados na semana anterior. Nikki Swango está no ônibus à caminho da penitenciária quando ele acaba capotando em razão de uma rampa colocada no meio da pista pelos capangas de V.M. Varga. Tal sequência inicial já nos traz a dose necessária de tensão para que fiquemos presos à narrativa. Embora saibamos que ela irá sair viva dali é o “como” que nos mantém imersos, não tirando os olhos da tela. A presença de Mr. Wrench dá um toque especial à sequência, especialmente para aqueles que assistiram as temporadas anteriores. Mas o que verdadeiramente diferencia Fargo das outras séries que vemos por aí é o constante tom de ironia e humor negro, que se mantém presente em todo esse foco em Nikki e Wrench, humor esse pautado nas situações inacreditáveis que presenciamos.

Quando eles chegam no boliche a loucura fica ainda maior e o tema do capítulo começa a transparecer. Nikki conversa com Paul Marrane (Ray Wise) e a direção de Mike Barker, de imediato, o apresenta como uma figura “fora do lugar”, através de uma panorâmica que o insere na tela, como se não estivesse ali anteriormente. Paul pode ser simplesmente a figura do velho que sempre fica sentado no bar, como pode ser algo mais, algo do além, ali para ajudar ou julgar os personagens. No diálogo, aquela situação da personagem é estabelecida como uma transição, uma espécie de purgatório, noção ampliada pela presença do gato Ray – coincidência ou é realmente um dos Stussy reincarnado? O genial, porém, se encontra na própria estrutura narrativa, que coloca toda essa cena como uma transição por si só, um interlúdio no meio da caçada que acompanhamos nesse trecho inicial. A própria apresentação do boliche nos leva a crer que não é apenas um lugar qualquer, por estar vazio, silencioso, preenchido apenas por Mr. Wrench, Swango, Marrane e o barman que nunca vemos. Um verdadeiro momento de paz após o frenético e tenso trecho inicial.

Partimos, então, para o foco em Gloria, que não recebe tanta atenção em Who Rules the Land of Denial?, como se aparecesse apenas para nos lembrarmos dela. O importante aqui é deixar bem claro em que época do ano estamos, o Natal, algo que já fora falado em episódios anteriores. Vemos um lado mais humano da empenhada policial, com sua família, ponto importante para nos relacionarmos mais com a personagem, que, muitas vezes, parece ser mais uma entidade em razão de sua determinação em resolver os assassinatos ocorridos ali. O roteiro de Noah Hawley e Monica Beletsky continua a frear essa pessoa implacável constantemente, dessa vez com ela sendo impedida de olhar dentro do ônibus caído, similarmente ao seu novo chefe, que descarta sua teoria dos assassinatos relacionados. Somos, então, lembrados das portas automáticas que não abrem para a personagem, como se até mesmo essas quisessem impedi-la de caminhar para a frente.

Depois disso, praticamente todo o restante do capítulo é focado no lado de Emmit, VM e Sy e o brilhantismo de Fargo mais uma vez aparece com uma ótima elipse, que utiliza do coma de Feltz para nos levar para Março de 2011 (eis a importância de nos situar no Natal anteriormente). É interessante observar como Varga, nesse ponto, já se demonstra mais confortável, tendo completo domínio sobre Emmit, despreocupação essa que é aproveitada por Stussy a fim de escapar de sua mansão para ir até a delegacia, decisão essa motivada pelo seu medo de estar sendo julgado pelos seus crimes, como se seu irmão, já no além, tivesse retornado para infernizá-lo. Somos levados, portanto, de volta à temática do episódio: o julgamento de seus personagens. Chegou a hora, portanto, de Varga ser condenado e, com apenas dois episódios pela frente, podemos dizer que isso começou bem aqui.

Who Rules the Land of Denial? é mais uma verdadeira obra-prima televisiva, mostrando como Noah Hawley não quer apenas nos entregar uma boa história e sim uma série que estabelece sua forte identidade, através de sua distinguível narrativa. Próximos do finale da temporada, todas as peças caminham para um ponto comum e o cerco em Varga começa a se fechar.

Fargo – 3X08: Who Rules the Land of Denial?  — EUA, 7 de junho de 2017
Showrunner:
Noah Hawley
Direção: Mike Barker
Roteiro: Noah Hawley, Monica Beletsky
Elenco: Ewan McGregor,  Carrie Coon,  Mary Elizabeth Winstead, David Thewlis,  Michael Stuhlbarg,  Goran Bogdan, Ray Wise,  Olivia Sandoval,  Russell Harvard
Duração: 52 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.