Crítica | Fargo – 3X10: Somebody to Love

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Episódio e temporada:

estrelas 5,0

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, a crítica do filme original e, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Ao assistir Fargo chega a ser incrível constatar como uma sucessão de pequenos eventos, à princípio, bastante simples, pode levar à verdadeiras loucuras. No início da terceira temporada o que tínhamos eram dois irmãos brigando por causa de um selo, sócios que pegaram um empréstimo duvidoso e uma policial passando uma noite na casa afastada de seu padrasto. Nesse desfecho, tudo se desenvolveu da maneira mais desastrosa possível para cada um dos personagens, de tal forma que, no fim, ninguém verdadeiramente sai ganhando no sentido pleno da palavra: todos perderam coisas ou pessoas importantes e o que resta é somente a sua própria essência.

Somebody to Love tem início com Gloria se preparando para se demitir da policia enquanto que Emmit assina papéis entregues à ele por V.M. Varga. Ambos estão resignando de alguma forma, a primeira desistindo da investigação que há tanto acompanhara e o segundo desistindo, de vez, de sua empresa, estabelecendo, desde cedo no episódio, o paralelismo que vimos desde o première da temporada. Eles, porém, decidem se darem mais uma chance e, enquanto Burgle dá início àquilo que catapultaria sua carreira, Stussy, mais uma vez, falha miseravelmente, já sendo deixado bem claro que não veremos exatamente um final feliz nesse desfecho do terceiro ano do seriado. Enquanto isso, Nikki e Mr. Wrench dão continuidade a seus planos para acabar com Varga.

Noah Hawley novamente nos surpreende ao desenvolver seu finale, brincando com o espectador, que espera que ele irá seguir pelos caminhos mais óbvios, apenas para mudar a direção bruscamente ao longo da narrativa. A partir do momento que Nikki e Emmit se encontram no meio da estrada, absolutamente nada segue da maneira que esperaríamos, com direito a belas fusões que provocam o salto temporal de cinco anos, resumindo os eventos mais corriqueiros para que, então, cheguemos ao que importa. Dito isso, ele desenvolve cada um dos seus personagens os deixando, verdadeiramente, sem saída, tendo alcançado, de fato, o final de suas histórias, seja Swango que só queria vingança ou Emmit que ansiava por ter sua vida de volta.

Seu roteiro é inteiramente pautado no suspense, na expectativa de que cada um desses personagens irá encontrar o seu fim. Primeiro com Stussy, corajosamente e ingenuamente tentando fazer com que V.M. simplesmente saia de sua casa, depois com o próprio Varga tentando pegar os seus drives de volta, seguido pelo confronto na estrada, finalizando, brilhantemente com o interrogatório do principal antagonista da temporada no derradeiro fim. Toda essa tensão encadeada não nos permite, por um minuto sequer, tirar os olhos da tela, transformando os cinquenta e três minutos de duração do capítulo em meros segundos, que passam em um piscar de olhos. E o melhor disso é que Hawley não se compromete a desfazer todos os nós, não promete um final feliz, afinal, na vida real, nem sempre os “mocinhos” ganham, algo muito bem representado pela Stussy Lots. que é absorvida por outra empresa e isso é o último que vemos dela.

O auge do episódio se encontra no diálogo final entre Gloria e V.M., sem a menor sombra de dúvidas. Vemos aqui o retorno ao prólogo do primeiro episódio, uma cena que espelha aquilo que vimos antes de toda essa história começar, além, é claro, de estabelecer o paralelo com Stussy na delegacia no episódio anterior. Hawley nos tortura com seu final deixado em aberto, que chega a ser o final perfeito para essa temporada, brincando com a própria frase “this is a true story”, que se transforma em “this is a story” – se Varga, de fato, for preso, teremos a segunda opção e, se ele sair livre, a primeira, exibindo a triste e opressora realidade de que, nem sempre, a justiça será feita.

Somebody to Love fecha, com chave de ouro, essa que, infelizmente, pode ser a última temporada de uma das melhores séries da atualidade, que nos entregara uma temporada praticamente irretocável, com seu showrunner, Noah Hawley, a cada capítulo, experimentando com sua narrativa, seja através de trechos de animação intercalados com a história principal, ou uma sinfonia representando cada um dos personagens centrais. Agridoce e poderoso, não poderíamos esperar um melhor desfecho desse terceiro ano.

Fargo – 3X10: Somebody to Love  — EUA, 21 de junho de 2017
Showrunner:
Noah Hawley
Direção: Keith Gordon
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Ewan McGregor,  Carrie Coon,  Mary Elizabeth Winstead, David Thewlis,  Michael Stuhlbarg,  Goran Bogdan, Ray Wise,  Olivia Sandoval,  Russell Harvard
Duração: 53 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.