Crítica | Fårö: Um Documentário (1970)

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O primeiro contato de Ingmar Bergman com a pequena ilha de Fårö — localizada no Mar Báltico, alguns quilômetros ao norte de Gotland (Suécia) — se deu de maneira não muito simpática para o diretor, enquanto procurava locações para o filme Através de Um Espelho (1961), que acabou, de fato, tendo a maior parte de suas tomadas ali. De um encontro inicial pouco amigável, a relação do cineasta com a ilha passaria por muitas mudanças, e não levaria muito tempo para isso. Em uma famosa entrevista concedida em 27 de abril de 1970, o diretor disse:

No começo [foi] por razões românticas — a ilha, o mar, o velho e o mar. É uma dessas ideias completamente idiotas que as pessoas que nunca viveram à beira-mar têm […]. Mas Fårö se tornou indispensável para mim à medida que os anos se passavam. Ali as proporções das coisas são justas. Vive-se em contato permanente e espontâneo com um elemento natural — o mar. Os habitantes da ilha vivem assim, e eu também. Isto faz com que me conheça melhor, com que saiba exatamente quem sou, com que consiga medir meu próprio significado.

Com o tempo, Bergman estabeleceu moradia em Fårö, assim como utilizou o local para filmar algumas de suas obras, como Persona (1966), Vergonha (1968), A Paixão de Ana (1969) e Cenas de um Casamento (1973). Também dois documentários foram produzidos pelo diretor na ilha, este, de 1970 e outro em 1979, com o mesmo título, acrescido apenas do ano de produção. Aqui, a primeira intenção de Bergman era fazer uma análise profissional de um lugar pelo qual ele já tinha muito apreço e onde acabara de finalizar sua casa. Existe tanto uma curiosidade cinematográfica quanto pessoal e o diretor procura percorrer o máximo de lugares e entrevistar o máximo de pessoas com histórias relevantes, para mostrar algumas visões antigas do local, as razões políticas e sociais de seu despovoamento e o que pensam os que ali moram, com depoimentos que vão de vozes adolescentes até a de um homem centenário.

Talvez pelas limitações técnicas e mesmo pela proposta mais descompromissada de seu documentário anterior (Daniel, 1967), Bergman ainda não tinha mostrado as boas contribuições que poderia dar a este gênero complexo, um gênero que sempre esboça um convite para pensar a realidade de maneira crítica e a partir de sua possível transformação. Em Fårö, o diretor parte de uma premissa simples (a ideia inicial era abordar apenas a criação de ovelhas na ilha, mas o projeto cresceu) para algo mais bojudo, porém, sem deixar o fator humano de lado. Ao mesmo tempo que aborda os subsídios do Estado — ou a falta e desprezo deles –, a necessidade de melhorias na ilha e o descontentamento da maioria dos entrevistados, o diretor pergunta sobre histórias do passado, coloca diferentes faixas etárias de maneira bastante criativa na fita e cria uma percepção poética sobre o ciclo da vida, algo que se pode ver de maneira bastante intensa por falarmos de um lugar remoto, onde não temos muita coisa para desviar a nossa atenção, seja no olhar, seja no montante de problemas retratados.

No final da película, Bergman faz uma excelente retomada de conceitos, focando nas necessidades de infraestrutura e pedidos de melhor convivência apontados pelos habitantes. Sua conclusão tem um forte apelo político, cobrando de autoridades e dos embargos estatais uma posição definitiva para as melhorias naquele espaço geográfico. Talvez, se na edição final, o diretor fosse mais criterioso na forma como expôs alguns animais parindo ou na ligação entre alguns blocos da segunda metade da fita, o resultado fosse ainda melhor, mas Fårö é um interessante apanhado sobre a vida de um lugar claramente escanteado por seus administradores políticos, e ao mesmo tempo muito amado pelo seu povo. Uma prova de que um grande diretor de pesados dramas também pode capturar um pedaço da realidade de maneira tão interessante quanto as que imaginava para seus roteiros de ficção.

Fårö: Um Documentário (Fårö Dokument) — Suécia, 1970
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Ingmar Bergman, Liv Ullmann, Per Broman, Richard Ostman, Linn Ullmann
Duração: 58 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.