Crítica | Farrapo Humano

estrelas 4,5

A degradação moral parece ser um tema muito caro para Billy Wilder. Os personagens que povoam os filmes do diretor (os dramas em especial) entram em jornadas onde pelos mais variados motivos, sacrificam a sua dignidade, levando-os á um ponto que ameaça destruí-los. Podemos perceber isso em obras como Pacto de Sangue (1944), Crepúsculo dos Deuses (1950), A Montanha dos Sete Abutres (1951), entre outros. Mas isso nunca foi colocado de forma tão clara e crua quanto em Farrapo Humano (1945), que concedeu á Wilder o seu primeiro Oscar de melhor direção.

Baseado no romance de Charles R. Jackson, Farrapo Humano acompanha Don Birnan (Ray Milland), um aspirante a escritor alcoólatra, que é constantemente monitorado pelo irmão Wick (Philip Terry) e pela namorada Helen (Jane Wyman) para que fique longe do álcool. Quando estava prestes a viajar com o irmão para um fim de semana no campo, Don consegue adiar a viagem, o que é apenas um artifício para que consiga fugir para sustentar o seu vício. Decepcionado com o irmão, Wick o abandona na cidade, e parte sem ele, deixando-o sem dinheiro. Em um fim de semana, Don descobrirá o quão baixo o alcoolismo pode levá-lo.

Devo começar destacando a própria direção de Billy Wilder, que aqui está fantástica, valendo-se de enquadramentos bem pensados e de uma montagem criativa para dizer muito com pouco. Um grande exemplo é a cena de abertura, onde vemos uma panorâmica da cidade de Nova York, que lentamente se aproxima de um edifício e depois de uma janela. Nesta janela, vemos uma garrafa pendurada por uma corda, e na janela, percebemos um homem arrumando as malas. A câmera entra no apartamento, onde vemos Don pela primeira vez. Enquanto conversa com seu irmão, percebemos claramente que o personagem de Ray Milland não está concentrado na conversa ou em arrumar as malas, e sim na janela, onde uma garrafa de conhaque está pendurada. Dessa forma, em poucos minutos, Wilder já nos mostra sem nenhuma palavra, o status dos personagens, e o grande conflito do protagonista e de seu vício.

Este é um dos filmes mais “visuais” comandados pelo cineasta, que utiliza a montagem, e em algumas passagens, a não comunicação do som com a imagem para retratar a percepção alterada de Don pela embriaguez e pela abstinência. É curioso observar também que mesmo tendo o drama como o seu principal condutor, o filme transita com desenvoltura entre outros tons, ao possuir doses notáveis de humor aplicados de maneira cirúrgica, de modo á não prejudicar a dramaticidade da narrativa e a delicadeza de seu tema. A obra também usa a linguagem do horror para retratar o verdadeiro pesadelo em que Don se encontra durante as cenas passadas na ala de alcoólicos de um hospital, e na arrepiante cena em que Don sofre com as alucinações do Deliriun Tremens, provocados pela abstinência. Ao mesmo tempo em que mostra absoluto controle sobre o tom da narrativa, Wilder concede grande realismo para a obra, fazendo questão de filmar em locações nas cenas em que Don Birman anda pelas ruas de Nova York, tendo usando câmeras escondidas durante estas sequências, utilizando-se assim de transeuntes reais ao invés de figurantes.

O roteiro escrito por Billy Wilder, juntamente com seu antigo colaborador Charles Brackett é muito inteligente na forma como constrói a jornada dramática do protagonista, tornando-a gradativamente mais sombria á medida em que avança. Os flashbacks, que se concentram em contar como Don e Helen se conheceram, e como seu romance se desenvolveu são inseridos com precisão na narrativa, ajudando o publico a entender a extensão do vício do protagonista, e como este mesmo vício minou a sua relação com o irmão, já que há um claro contraste entre o Wick mais cúmplice e companheiro visto no flashback, com o homem impaciente visto no primeiro ato do filme.

Mas o maior mérito do roteiro de Wilder e Brackett está na construção do personagem principal, ligando seu alcoolismo a suas frustrações como escritor. Além disso, é triste assistirmos Don abrindo mão dos próprios princípios em nome do vício, sem ao menos perceber isso, como na cena em que tenta furtar a bolsa de uma mulher, e como a contestação de tal abdicação o atinge como uma marreta quando é chamado de ladrão. Os diálogos escritos por Wilder e Brackett são extremamente sagazes, e muitas vezes até cínicos, passando a mensagem do filme sem nenhuma aura panfletária.

Embora não tenha sido a primeira opção do diretor para interpretar o protagonista, o brilhante Ray Milland (que já havia trabalhado com Wilder em A Incrível Suzana, de 1942)) acabou sendo a escolha perfeita papel do alcoólatra Don Birman. Milland concede a Don o carisma e o bom humor necessário para que nos importemos e nos preocupemos com o personagem, mas sem com isso sacrificar os aspectos mais dramáticos e cínicos do protagonista. A frustração que esse homem carrega, e a dependência que tem pela bebida estão em cada gesto e expressão do ator, nos mostrando o quanto o alcoolismo pode degradar uma pessoa.

A trilha sonora de Miklós Rózsa (outro colaborador frequente de Wilder) também é essencial para a atmosfera construída em Farrapo Humano, funcionando como um complemento perfeito para a interpretação de Ray Milland, com notas que sugerem um verdadeiro estado de delírio. Finalmente, a fotografia de John F. Seitz evoca certo aspecto Noir, mas ainda mantendo uma veia bastante realista.

Farrapo Humano é mais um excelente trabalho de Billy Wilder, abordando o tema do alcoolismo de forma bastante crua e humana para a época, em um de seus trabalhos mais interessantes esteticamente. O filme pinta um retrato triste, mas honesto da vida de um viciado, pecando apenas por uma conclusão um pouco simplista. Mas isso não tira o mérito da obra de retratar os “Terríveis Fins de Semana” enfrentados não só por alcoólatras, mas por outros viciados, que continuam a acontecer de forma recorrente, até se tornarem um começo ou um fim na vida dessas pessoas.

Farrapo Humano (The Lost Weekend, USA, 1945)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder (adaptação), Charles R. Jackson (romance)
Elenco: Ray Milland, Frank Faylen, Jane Wyman, Philip Terry, Howard Da Silva, Doris Dowling, Mary Young, Fred Snowflake Toones, James Millican
Duração: 101 minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.