Crítica | Fatale: Book One – Death Chases Me

estrelas 4,5

Ed Brubaker e Sean Phillips têm sido parceiros no crime de criar excelentes histórias em quadrinhos há muitos anos. Sleeper, Incognito, Incognito: Bad Influences e as diversas narrativas da série Criminal, como Coward, The Dead and the Dying e The Sinners. Literalmente, quando essa dupla se junta, é certeza de roteiro engajador e desenhos hipnotizantes.

Fatale, publicada pela Image Comics, é a mais recente obra dos dois. Originalmente imaginada como uma maxissérie de 12 números, a publicação alcançou um sucesso tão grande em seu início (janeiro de 2012) que a editora e seus autores fizeram um upgrade (ou downgrade, esse julgamento fica em suspenso, claro) para uma série regular.

Fatale-Book-One-Death-Chases-Me-coverO primeiro volume, ou “livro”, foi batizado de Death Chases Me ou “A Morte me Persegue” e tem todos os ingredientes de um filme noir: uma mulher fatal (que batiza a série), um detetive, um jornalista e crimes tenebrosos. Mas Brubaker, brilhantemente, conta a narrativa sob dois pontos de vista separados temporalmente. No prólogo, interlúdio e epílogo, ele aborda o momento de “virada” na vida de Nicolas Lash quando, no enterro de Dominic Raines, seu padrinho, ele conhece uma belíssima mulher de cabelos negros, sobrancelhas finas e lábios carnudos. Narrado por Lash, essa breve introdução tem final trágico em um apoteótico acidente de carro depois que Lash encontra, na casa de Raines, um manuscrito de um livro não publicado.

Corta para o passado. Para 1956 precisamente.

Somos apresentados, claro, a Dominic Raines, jovem repórter que investiga a corrupção na polícia de São Francisco. Quando ele chega, o vemos se encontrar com uma mulher chamada Josephine, idêntica à mulher fatal que Lash encontraria no cemitério em 2011. Trata-se da avó dela ou é a mesma mulher? Pouco importa nesse momento. O que importa é que a misteriosa morena – Josephine – aparentemente tem a capacidade de seduzir com o olhar quem quer que esteja ao seu redor. E, por poder, quero dizer algo além de sua inerente e inegável beleza. Raines, mesmo casado e com mulher esperando seu filho, não resiste.

Mas Jo, como é conhecida, também tem relacionamento com Hank Booker, detetive de polícia coincidentemente – ou não – alvo da investigação de Raines. Seria ela um agente duplo? Talvez. Quando vemos Booker, doente e cuspindo sangue, ele investiga as horripilantes mortes ocorridas em um culto satânico.

Usando uma narrativa em off que emula muito bem os mais clássicos filmes noir, Brubaker vai alimentando o leitor de pouco em pouco, sem pressa, sem sofreguidão. Ele não deixa de dar pistas que há algo fora do comum na história, algo além de uma mera narrativa detetivesca. Mas, ao longo dos cinco números que formam o Livro Um, esse “além” só fica mais saliente em pouquíssimos e selecionados quadros e, mesmo assim, ainda deixa dúvidas. Com isso, no lugar de escancarar a história, o autor nos presenteia com uma verdadeira joia em quadrinhos, solidificando seu já impressionante trabalho independente.

Sean Phillips, por sua vez, com seus traços precisos, uma escolha perfeita de ângulos e um uso econômico, mas exata de cadência de quadros, dá vida muito facilmente à complexa estrutura narrativa criada por Brubaker. O uso de sombras, fumaça e cores (por David Stewart) emula à perfeição os filmes que inspiraram essa obra e, também, o espírito das narrativas pulp dos anos 40 e 50 nos EUA.

Com tantos elementos convergentes, é difícil colocar o dedo em algum defeito. Apesar de alguma confusão no início, causada pela introdução de diversos personagens, quando a história deslancha, ela segue fluidamente, sem furos e dentro de sua própria lógica. A decisão de Brubaker de manter o sobrenatural encurralado em um canto, somente escancarando as portas no finalzinho, é muito bem vinda, pois permite ao leitor apreciar os detalhes de cada quadro com calma e, ainda, cria oportunidades ao autor de deixar surpresas aqui e ali naturalmente costuradas nos diálogos e sucessão de quadros.

Resta agora saber se, ultrapassados os 12 números inicialmente imaginados para a série, Brubaker e Phillips terão material para desenvolver seu magnífico trabalho. Eu sei que vou acompanhar, pois, assim como Jo, a dupla de autores parece ter um estranho poder de atração.

Fatale Book One – Death Chases Me
Roteiro: Ed Brubaker
Arte: Sean Phillips
Editora (nos EUA): Image Comics (janeiro a maio de 2012, encadernado em junho de 2012)
Editora (no Brasil): ainda não publicado
Páginas: 138

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.