Crítica | Fatalidade

estrelas 3,5

Em Fatalidade, os roteiristas Ruth Gordon e Garson Kanin utilizaram do recurso da metalinguagem para levar às telas uma adaptação moderna e inovadora da obra de Shakespeare, Othelo. No filme, o ator Ronald Colman – que recebeu vários prêmios por sua interpretação, inclusive o Oscar – faz o papel de um ator de temperamento difícil, que ao atuar como protagonista no teatro no papel de Othelo, passa a incorporar em sua vida pessoal o ciúme doentio do trágico personagem shakesperiano, com consequências igualmente trágicas.

O ano era 1947 e o chamado film-noir estava no auge. Tanto roteiristas, o diretor George Cukor e o diretor de fotografia Milton R. Krasner se utilizaram da dualidade típica do film noir, mas que na maioria das vezes era utilizado apenas em filmes de suspense. Aqui, temos um drama que joga com as dualidades da trama: realidade versus ficção, razão versus insanidade, luz versus escuridão. O que era bastante interessante e inovador no filme é que os atores principais, na verdade, interpretavam 2 papéis: o de atores e o de seus personagens na peça.

Este recurso da metalinguagem, da trama dentro da trama seria mais utilizado somente a partir das liberdades de expressão do cinema conquistadas a partir da década de ´60. Posso estar enganado, mas Fatalidade, na minha opinião, recebeu uma espécie de homenagem numa das mais bem-sucedidas experiências com a metalinguagem com a adaptação de A Mulher do Tenente Francês (1981), onde o famoso livro de John Fowles se tornou no roteiro inteligente de Harold Pinter a história de um grupo de atores envolvidos nos sets de filmagem onde está sendo produzido uma adaptação para as telas da história contada no livro. Como em Fatalidade, os atores envolvidos na produção do filme acabam levando para suas vidas particulares o drama vivido pelos personagens que interpretam no filme em que atuam.

Hoje, Fatalidade pode parecer datado, principalmente pelo estilo de atuação e a trilha sonora de Miklós Rózsa, mas que representam bem as características deste período do cinema americano. Se você consegue enxergar além da superfície e souber relativizar um modo de fazer filmes que já sofreu grandes transformações até os dias de hoje, poderá apreciar um filme original e ousado para e época, e que se consolidou como uma experiência única dentro do drama convencional, assimilando elementos do gênero noir que até então eram utilizados somente nos filmes B de suspense. Igualmente,  a trama de Fatalidade vai lhe trazer a memória a lembrança de outro filme recente, Cisne Negro, provando que no mundo da narrativa, boas e velhas ideias estão sempre ganhando novas roupagens. 

Fatalidade (A Double Life) – Estados Unidos, 1947
Direção:
George Cukor
Roteiro: Ruth Gordon, Garson Kanin
Elenco: Ronald Colman, Signe Hasso, Edmond O´Brien, Shelley Winters, Ray Collins, Philip Loeb, Millard Mitchell, Joe Sawyer, Charles La Torre, Whit Bissell
Duração: 104 minutos

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.