Crítica | Fausto, de Wolfgang Von Goethe

Fausto é um dos marcos literários mais profundos da história da humanidade. Compreender algumas camadas da obra é algo que requer paciência e dedicação. Para aqueles que conseguem, a recompensa é grandiosa, afinal, conhecer o universo do homem que “cedeu a alma ao demônio” em troca de magnitude intelectual é refletir sobre a própria condição do ser humano moderno. Escrita ao longo de 60 anos, veiculada na época em dois volumes, hoje integrados, Fausto expõe concepções históricas, políticas, sociais e filosóficas de Goethe, um alemão que pensava muito além do seu tempo, uma espécie de visionário.

O fato de ter sido escrita por seis longas décadas também reflete uma confluência de estilos imensa, material que tal como o tempo de escrita, fornece combustível para uma vida inteira de estudos e análises acadêmicas. Produzida de 1772 até 1832, Fausto emerge de um contexto longo de mudanças, dentre eles, as atividades do poeta em parceria com o Estado, além dos seus interesses de ordem científica: estudo das cores, filosofia, teologia, mitologia antiga, mineralogia e até botânica. Importante ressaltar que Goethe nasceu em 1749 e morreu em 1832, uma existência que trafegou pelos acontecimentos que os historiadores definem como formadores da modernidade europeia: a Revolução Francesa, o Congresso de Viena, a Era Napoleônica, etc.

Dividida em duas partes, a obra versa sobre a seguinte “trama”, vinculada a uma série de questionamentos pertinentes que guiará o trajeto do personagem. Qual o sentido da vida? Você já se perguntou isso, caro leitor? Pois esse é o ponto de partida de Fausto, um homem bem sucedido que decide fazer um pacto com Mefistófeles para conseguir o que deseja: a totalidade, conhecer tudo sobre a origem das “coisas”, seus desdobramentos, em suma, saber o significado da existência. No pacto, há uma aposta. Se ele conseguir alcançar o que deseja, o demônio levará a sua alma para o inferno. Ao contrário, Fausto vencerá se terminar o processo com a sensação de insatisfação.

Espécie de herói titânico, Fausto estabelece uma rebelião interna contra as leis ditadas pela sociedade, propondo desafios caros e polêmicos. Amante do passado, o personagem necessita do avanço, do novo, para que a sua vida tenha sentido. A complexidade da questão é que ele se encontra constantemente insatisfeito. Nada o convence ou o completa. Ele precisa sempre de mais alguma coisa, num perfil social e psicológico complexo e versátil. Fausto é doutor, mago erudito, ambicioso, ansioso por conhecimento e sagaz, um erudito da renascença, além de muito esperto e inteligente.

Estruturalmente, Fausto possui uma unidade de ação clara, com versos irregulares, monólogos líricos e versos rimados como quadras populares, às vezes irregulares, com pontos de encontro entre o Classicismo e o Romantismo. A versão mais indicada no Brasil é a veiculada pela editora “34”, em dois volumes, traduzidos por Jenny Klabin Segall, com ilustrações de Eugène Delacroix. Repleto de trechos que coadunam com o conceito de carnavalização teorizado por Bakthin em Estética da Criação Verbal, o poema trágico é uma ode ao caos nas vias de análise estética, filosófica e temática.

O mito de Fausto modifica conforme o contexto histórico, mas a sua estrutura que envolve pacto e a necessidade de totalidade continua praticamente a mesma em qualquer cultura. São narrativas impressas e vendidas em feiras de Frankfurt, publicações anônimas contadas por meio de variações que desaguam no mesmo ponto nevrálgico: um homem que tem um demônio como ajudante durante a sua trajetória questionadora de vida. Personagem que não tem medo de “céu” e “inferno”, Fausto é a materialização do mito do homem moderno. Ao buscar um olhar atualizado para o poema, perceberemos a associação com a nossa sociedade contemporânea informatizada e “dominada” pela mídia. Vivemos num frenético fluxo de imagens, sons, notícias e outras informações praticamente intermináveis, renovadas constantemente na esfera virtual.

Parece uma reversão do pacto. O nosso ritmo acelerado não permite a reflexão sobre o fluxo de informações e o que temos é a negação constante do “presente”, sempre deixado de lado pela novidade. Fausto quer o “aqui e o agora”, manipular as coisas que descobre, numa obsessão desesperada por conhecimento como uma maneira de ser uma espécie de divindade, alguém que compreender o mundo de maneira arquitetônica, o “projeto de Deus” para a existência, num desejo da planta baixa de tudo. A primeira parte, “romântica”, começa com Mefistófeles a desafiar Deus, alegando que conseguirá a alma de Fausto, um homem admirado pelo “divino”. Prestes a cometer um atentado contra a sua vida, diante da incapacidade de compreensão oriunda do conhecimento científico e religioso repleto de limitações, Fausto decide aguardar um pouco mais e sai para uma festividade.

Assim, o inquieto personagem é abordado pelo demônio que lhe faz, dentre tantas situações insólitas, uma proposta, aceita logo adiante. Fausto deseja muito todo o conhecimento do mundo, mas também almeja o amor de Margarida. Na segunda parte, o sentimentalismo é deixado de lado em prol da discussão sobre questões políticas e sociais, com o personagem a perfazer um ciclo de aventuras em cinco atos, rumo ao Paraíso, numa perda parcial da aposta com Mefistófeles, demônio derrotado na etapa final.

Fausto deixou um legado extenso. Goethe, tal como Shakespeare em algumas tragédias, apropriou-se de uma história já contada popularmente e a intensificou por meio de um poema trágico adornado por um estilo sofisticado e complexo. Guimarães Rosa presta seu tributo em Grande Sertão Veredas e Machado de Assis no conto O Espelho e no romance Esaú e Jacó. Há ainda um longo feixe de obras que tomaram a “tragédia” de Goethe como ponto de partida, referências que promoveriam um gigantesco mapa mental.

Responsável pelos ritos iniciais do Romantismo na Alemanha, Goethe possui um traço bem característico do movimento: a ligação vida e obra. Conforme o prefácio de uma edição publicada na Espanha em 1991, a primeira versão da lendária história teria chegado ao contato de Goethe em 1725. A versão tinha um tom moralizante e com traços estéticos barrocos, algo que foi aproveitado na concepção da sua abordagem para a história. As informações biográficas também reforçam que em 1760, o poeta teria assistido a uma versão da Ópera Popular de Fausto num teatro de bonecos, situação que o instigou ainda mais.

Para a crítica literária, Fausto é importante para a literatura moderna da mesma maneira que a Divina Comédia é para a Idade Média. O anseio do personagem em tornar o texto literário num material potencialmente dramático faz de Goethe a versão de Dante da modernidade. Harold Bloom, talvez o crítico literário mais bem sucedido do planeta, elegeu Goethe como parte do seu polêmico cânone em Gênio, denso material de 900 páginas que aponta os escritores mais importantes da história literária “universal”, segundo o seu ponto de vista. O poeta alemão, personificação ideal do conceito de “gênio”, isto é, um homem que viveu a intelectualidade e a criação exaustivamente em sua vida, ganhou lugar ao lado de Dante, “o poeta supremo” e Shakespeare, “a divindade secular”.

Fausto (Alemanha, 1808)
Autor: Wolfgang Von Goethe
Editora no Brasil: Martin Claret
Tradução: Agostinho D’Ornellas
Páginas: 642

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.