Crítica | Fausto (2011)

estrelas 5

Por Quê Fausto?

Fausto (2011), a mais nova viagem imagético-poética de Aleksandr Sokúrov, é uma livre adaptação do famoso romance de Goethe, escrito no século 19. Ao atravessar os séculos, e para tornar a obra palatável ao púbico contemporâneo, Sokúrov precisou adequar com muito cuidado os principais elementos estéticos e narrativos do original – o espaço geográfico, o figurino, o verbo – às nuances de questionamento e desamparo do nosso tempo.

Fausto é um espelho da humanidade. Sua busca pelo conhecimento o põem em uma vanguarda existencial em relação a outros seres, deste e de outro plano. Ele é o cientista, o ateu, o racional, o experimentador, o homem além do seu tempo, capaz de assinar pactos com o diabo a fim de alcançar algo, mesmo que este seja apenas parte de sua busca interna. Ele deseja, duvida e nega.

Sendo a última parte da “tetralogia do poder” (ou do declínio do poder), composta por Moloch (Hitler), Taurus (Lênin) e O Sol (Hirohito), Fausto, que é a única peça literária dentre os filmes, representa a maior de todas as escolhas de Sokúrov para a  investigação do controle e da ânsia pelo domínio. Sendo um arquétipo da humanidade, Fausto é a maior representação do poder, a nossa própria espécie. Os simbolismos variam de interpretação para cada espectador, mas toda a nossa estrutura civilizacional está posta no roteiro do filme e engenhosamente relacionada à obra original: a descrença religiosa, o valor ao dinheiro (Mefistófeles é um agiota!), o desenvolvimento cronológico da ciência (Fausto é cientista e é filho de médico), a banalização da igreja como instituição, o pleno conflito entre pais e filhos, a proliferação de doenças, mortes violentas, sexualidade bizarra e misticismo (na presença do Homúnculus, um dos símbolos nucleares da alquimia).

Fausto é a Humanidade que transforma a Terra, que subjuga os fracos, que cria ideologias e caminhos para serem seguidos. Nesse ponto, em nada ele se difere dos outros três poderosos filmados pelo diretor, afinal de contas, também eram humanos, de sorte que Fausto é a representação da condição máxima de todos eles juntos. Mas é importante que se diga que apesar de exercer o poder, Fausto não é a representação da Humanidade passiva, alheia, desconectada das decisões importantes que garantem a sua existência. Observem que no filme, ele se opõe à natureza divina, procurando a alma em todos os lugares do corpo. Ele quer ir além do vazio da criação revelado no Gêneses e posteriormente reafirmado no Evangelho de S. João, quando diz que “no princípio era o Verbo”. Há uma sequência inteira do filme dedicada à reflexão dessa passagem, exemplo máximo de que esse Fausto/Humanidade não aceita que “o Verbo era Deus” ou que a “Terra era sem forma e vazia”.

Fausto quer saber o princípio da existência, o que lhe permite existir, onde está a sua alma e qual o seu valor. Sendo um homem em constante busca e sofrendo o vazio e as privações da vida secular – ele não come, não dorme, não ama, não tem dinheiro e é rejeitado pelo pai, que lhe nega até comida – seu caminho natural é a busca por algo que está além, e dado o estado de penúria do mundo real, nada parece demasiado ou medonho demais: ele se aproxima de Mesfistófeles, o agiota, como quem se sente feliz e salvo ao entrar em um bote salva-vidas.

Aleksandr Sokúrov arquiteta a raiz do poder, seu desenvolvimento e seu declínio, quando ao final de tantas buscas, o niilismo se mostra único: Mefistófeles é apedrejado por um Fausto (morto para sua realidade?) distante de tudo e todos, “muito longe e muito alto”, segundo o próprio roteiro do filme. Após tantas buscas, renúncias e dominação do ambiente e das pessoas à sua volta, o Fausto/Humanidade se vê entre um gêiser, rochas e geleiras, uma combinação de todos os estados dos elementos de sua ciência que acaba por isolá-lo da sua vila e vida ordinárias. A busca pelo conhecimento a todo custo fez a Humanidade ir além, até no sentido de negar a morte. Mas ao fim de tudo, essa busca exterior não chega a lugar algum a não ser à maior distância entre suas respostas e a satisfação pessoal com elas. A incerteza e o isolamento mortal é o fim apocalíptico de toda essa caminhada.

Vísceras da Imagem

Em um estudo sobre a imagem, Jacques Aumont discursou sobre as particularidades da nossa percepção a partir de cinco aspectos: o olho, o espectador, o dispositivo, a imagem e a arte. Dentre as muitas questões ali trabalhadas, gostaria de trazer os pontos de busca visual, a relação entre o olho e o olhar e a questão da atenção visual, para que possamos fazer jus à fotografia de Bruno Delbonnel e à montagem de Jörg Hauschild, dois dos grandiosos destaques da produção de Fausto.

A abertura do filme coloca o espectador na posição de observador supremo daquilo que está por vir. Um plano em movimento ininterrupto atravessa o céu estrelado, passa através das nuvens e nos mostra o maior simbolismo de ligação da obra: um espelho (refletor da verdade, da sinceridade e do conteúdo do coração) pendurado em uma corrente (símbolo de elos e relações entre o céu e a terra; entre dois extremos ou dois seres), ao qual se prende um pequeno sino (chamado de atenção, percepção do som, evocação tudo o que está suspenso entre o céu e a terra, estabelecendo uma comunicação entre os dois). Um lenço branco se desprende do espelho e voa até a cidade isolada entre as montanhas, talvez o mesmo lugar “alto e distante” para o qual Fausto vai em companhia de Mefistófeles. A luz é difusa e há predomínio do verde, pelo menos no início, quando somos apresentados à polaridade do filme: o verde do broto e o verde do lodo, a vida e a morte.

As distorções da imagem através de lentes especiais, as tonalidades absolutas em algumas sequências e o destaque para o marrom, o amarelo e o azul são itens a serem observados com atenção. O espectador é capturado pela beleza das imagens, e a construção do caráter das personagens e as propostas dramáticas do filme (genialmente conduzido pelo diretor) são depreendidas a partir da fotografia, que passou por um escrupuloso processo coloração digital, um trabalho magnífico de pós-produção que atendeu muito bem à intenção de Sokúrov em misturar doença, misticismo e pesadelo. A recusa do realismo é visível tanto na luz quanto nos enquadramentos e o tipo de lente usado para distender as imagens. Para coroar a situação, a montagem possui uma fluidez deliciosa, e apenas um espectador preguiçoso irá reclamar das 2h10min. do filme, que passam com uma suavidade e dinâmica dignas de serem aplaudidas.

Sinal dos Tempos

Mais próximo do Fausto de Švankmajer do que do Fausto de Murnau, Sokúrov conduziu uma obra de força quase antropológica, com significados múltiplos e que exige muito do espectador. Fausto não é um filme apenas para observação distante e assentimentos de concordância. Há pontos do roteiro (inclusive trabalhados um pouco dispersos demais, talvez o único ponto apenas “muito bom” do filme) que nos incomoda, seja pela carga simbólica que traz, seja pela crueza com que trata determinadas situações. Como é uma obra que se constrói o tempo inteiro, o espectador dá novos significados a cada período, e também vai alterando o seu juízo de valor para com as atitudes das personagens e a intenção do diretor em expor o (declínio do) poder.

No mais, Fausto é uma obra-prima na filmografia de Sokúrov. A grande quantidade de citações pictóricas, históricas e culturais, além do glorioso apuro estético e da exímia direção nos permite dizer que estamos diante de um filme que trabalha sem nenhum meio-termo o espírito do nosso tempo. Quanto as referências, se o leitor tiver uma boa memória do filme e procurar pelas telas The Battle of Alexander at Issus ou The Poor Poet ou Jagdunglück, certamente terá uma grande surpresa.

O modo como o poder se (des)faz e como o comportamento de busca por um prazer extremo e imediato pontua a nossa sociedade são os mesmos sintomas de uma civilização que o espelho faustiano reflete. Mas para que esse reflexo não se torne uma refração, é necessário que o espectador não busque resoluções fáceis e explicações. Assim como a própria essência da humanidade que representa, Fausto é um filme que gera poucas ou nenhuma resposta definitiva. Por outro lado, abre-se um fecundo abismo de perguntas, o abismo da própria existência humana, que mesmo rodeada de criações próprias e mesmo tendo sob seu controle um sem número de pessoas e objetos, parece “longe e distante” de qualquer coisa vital, como Fausto, na cena final do filme.

Fausto (Faust, Rússia, 2011)
Direção: Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Yuri Arabov (livro), Aleksandr Sokúrov, Marina Koreneva e Goethe (livro)
Elenco: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Hanna Schygulla, Antje Lewald, Florian Brücker, Maxim Mehmet, Andreas Schmidt, Oliver Bootz, Katrin Filzen
Duração: 140min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.