Crítica | Fear the Walking Dead – 1X01: Pilot

estrelas 4

Lembram-se quando Rick Grimes, nos quadrinhos e na série de TV, conclui, pesarosamente, que “nós somos os mortos-vivos”? Lembram-se da atmosfera árida e desolada de praticamente todos os capítulos da série que sugam a vida de tudo e de todos?

Pois Robert Kirkman e Dave Erickson, criadores do aguardado spin-off prelúdio de The Walking Dead, Fear the Walking Dead, passam essa mesma impressão, mas usando Los Angeles pré-apocalipse zumbi. O recado é claro, nós somos mesmo os mortos-vivos, e isso fica mais do que evidente logo na abertura do episódio piloto, em uma magistral sequência que, com fotografia em tons pasteis e acinzentados e um desenho de produção esperto, nos faz crer que estamos já no fim do mundo, somente para descobrirmos que estamos é no começo de tudo (ou no final mesmo, depende do ponto de vista), quando os zumbis ainda eram casos esparsos aqui e ali, sem conexão direta verificável.

E é isso que a série é: um estudo de um mundo à beira do colapso. Pode ser um caminho complicado de se seguir sem que futuras temporadas enveredem por basicamente a mesma linha narrativa da série-mãe, com sobreviventes fugindo de mortos-vivos e de humanos ainda mais enlouquecidos. Mas estou me adiantando aqui, pois Erickson, que também atua como showrunner, joga lentamente, tão lentamente que é possível que alguns espectadores reclamem que falta ação, que faltam zumbis.

No entanto, muito ao contrário, essa “falta” de mortes e de zumbis é boa, muito boa.

Deixe-me explicar. Nós, espectadores tarimbados com as até agora cinco temporadas de The Walking Dead, conhecemos o futuro. Sabemos o que os protagonistas de Fear the Walking Dead terão que enfrentar de uma forma ou de outra. Não haveria sentido simplesmente acompanhar um outro grupo em outro estado americano – ou mesmo em outro país, o que seria realmente ousado – nas mesmas situações que Rick e companhia. Era necessário algo novo e voltar ao começo de tudo foi uma solução óbvia, mas interessante justamente por entregar ao espectador a vantagem da experiência.

Pensem bem. Nós sabemos como os mortos-vivos surgem, como matá-los, como atraí-los, como “nos disfarçar” de um deles, mas ninguém em Fear the Walking Dead (com exceção do nerd gordinho, talvez) sabe. Nós também sabemos que a sociedade fragmentar-se-á e que será cada um por si muito em breve, que cidades grandes serão armadilhas para humanos incautos, que isolar-se de tudo e de todos é a melhor saída. Mas ninguém na nova série tem esse conhecimento. Estamos em uma rara e privilegiada situação em que sabemos mais do que os protagonistas. Não há, aqui, uma curva de aprendizado atrás da quarta parede junto com os personagens. Ao contrário, pois ver os personagens em situações que nós, experientes matadores de zumbis, sabemos serem perigosas, nos aflige ao extremo.

E é com essa aflição que Dave Erickson inteligentemente brinca. Reparem, por exemplo, nas diversas e longas sequências no hospital, com Nick Clarke (Frank Dillane), o rapaz que sobreviveu à chacina do prólogo, amarrado à cama para não fugir em razão de seus problemas psiquiátricos gerados pelo consumo de drogas. Vemos um idoso ser instalado no leito ao lado, com apenas uma frágil cortina os separando. Acompanhamos, por intermédio de um desenho de som preciso, aquele senhor que nunca verdadeiramente vemos definhar ao lado de um jovem indefeso que já foi testemunha de algo em que não consegue realmente acreditar. Ouvimos a respiração rasgada daquele homem e nós sabemos que ele morrerá e que, se morrer, acordará como um zumbi sedento de carne humana e Nick dará um excelente antepasto. A construção das sequências ao longo de mais da metade do episódio alongado de abertura é enervante, desesperante, somente para um clímax fora da tela, pervertendo maravilhosamente bem nossas expectativas.

Afnal, se nós já sabemos de tudo que acontecerá, não precisamos ver tanta carnificina assim. O foco de Erickson pode, então, ser em Nick, sua mãe Madison (Kim Dickens), conselheira educacional na escola em que seu namorado, Travis Manawa (Cliff Curtis), trabalha como professor e onde sua irmã aplicada Alicia (Alycia Debnam-Carey) estuda e também trabalha como professora substituta. Essa família tem problemas, claro. Problemas com as drogas de Nick, com a não aceitação de Travis pelos irmãos, com a outra família de Travis, cujo filho, Chris (Lorenzo James Henrie), não quer saber dele. Existe uma tensão inafastável no ar, tanto a que nós sabemos existir e eles ignoram quanto a que apenas eles conhecem e que nós vamos aos poucos nos tornando cúmplices.

Acontece que Erickson não torna as coisas fáceis para os espectadores, criando uma família disfuncional agradável, simpática. É difícil, ao menos nesse primeiro episódio, simpatizar com qualquer um deles. Nick é um drogado incorrigível. Alicia parece querer fugir de tudo e de todos. Madison é distante e às vezes cruel. Sobra Travis, retratado como bom moço que apenas quer ser o mais prestativo possível. Poderíamos simpatizar com ele, não fosse sua aura simples demais, clichê demais para realmente nos importarmos por seu destino. Talvez seja esse o ponto fraco do piloto, ou talvez seja esse seu ponto forte, só o tempo dirá.

A forma como a narrativa familiar vai, aos poucos, se amarrando com as questões de fundo que, no momento, são os estranhos acontecimentos em Los Angeles que vemos ao longe na estrada ou pela televisão, mostra a perfeita habilidade da produção em costurar uma narrativa que trabalha a câmera subjetiva para irritar – no bom sentido – seus espectadores. Não vemos quase nada, pois os personagens não vêem quase nada, mas sabemos exatamente o que está acontecendo e o que acontecerá. Ao mesmo tempo, pistas visuais enganosas sobre o futuro tenebroso de um presente já horrível, tentam nos desarmar, nos desviar do caminho.

Além desses aspectos, a fotografia do início mantem-se usando o dia no lugar da noite, a claridade no lugar da escuridão para nos apresentar a esse mundo. E o que vemos nessa claridade é triste, sujo, feio. Los Angeles não é uma cidade que se pode normalmente classificar de bonita, mas ela tem lugares lindos. Nada disso, porém, aparece no piloto. Quando vemos Venice Beach brevemente – em princípio uma bela e famosa praia – é sob um prisma tão pessimista e com uma câmera tão rasteira que só vemos seu lado negativo. Há um sensação de claustrofobia a todo o tempo, como se as paredes fossem se fechando ao redor dos protagonistas.

Nada de fazer o óbvio, portanto. Contrastar a beleza com a monstruosidade seria padrão demais, bobo demais. Aqui, o feio é contrastado com o horrível e, em alguns momentos, essa tênue linha divisória desaparece.

Quer parecer que Robert Kirkman e Dave Erickson acertaram em cheio. Mas ainda é cedo para afirmar com muita certeza ou mesmo para ver um futuro que não seja praticamente idêntico ao de Rick Grimes. Uma coisa é certa, porém: se o piloto de Fear the Walking Dead for uma real amostra do que está por vir, a AMC talvez tenha mais um blockbuster nas mãos. Ou talvez a qualidade não importe, pois os fãs verão de qualquer jeito. Afinal, somos ou não somos mortos-vivos?

Fear the Walking Dead – 1X01: Pilot (EUA, 2015)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Adam Davidson
Roteiro: Robert Kirkman, Dave Erickson
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Elizabeth Rodriguez, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.