Crítica | Fear the Walking Dead – 1X02: So Close, Yet So Far

estrelas 4

Obs: Há spoilers.

Como detectar o começo do fim da civilização como a conhecemos hoje? Essa parece ser a pergunta que começa a ser respondida no segundo episódio de Fear the Walking Dead.

O olhar pessimista do mundo, muito presente no primeiro episódio, continua com toda a força em So Close, Yet So Far, que começa imediatamente após a descoberta de que zumbis realmente existem por Madison e Travis. Mas é interessante notar que, mesmo tendo testemunhado a existência dos mortos-vivos, uma grande parte dos dois personagens – e também de Nick, mas ele tem problemas mais complicados, com sua crise de abstinência das drogras – ainda se recusa a internalizar a ideia completamente. Para começar, não contam o acontecido nem mesmo para Alicia, que descobriu que seu namorado Matt está “muito doente” em um daqueles momentos que dá desespero e que falamos baixinho “sai de perto dele, garota!”. E eles pouco fazem de prático para se organizarem. Há menções vagas a uma viagem ao deserto, onde estarão sozinhos, mas o grupo logo se separa em dois.

Travis vai atrás de sua ex-esposa Liza e de seu filho Chris, que acha que um protesto contra a violência policial é só isso mesmo e Madison volta à escola onde trabalha para pegar drogas que permitam Nick passar pela abstinência de maneira mais tranquila. Lá, ela encontra novamente Tobias, o nerd espinhudo que parece ser a única pessoa que sabe que o mundo acabou. A bipartição da narrativa funciona sem maiores percalços, com uma montagem eficiente e objetiva, que evita qualquer semblante de confusão.

Mas o interessante disso tudo é nos fazer pensar se, por acaso, em situação parecida, não reagiríamos da mesma forma. Acreditaríamos tão facilmente assim em uma epidemia zumbificadora? Será que imediatamente correríamos para supermercados para nos abastecer de alimentos e água e fugiríamos para uma caverna longínqua? Pensem com calma, pois acho que a resposta honesta a essa pergunta pode significar muito para essa série. Se o espectador estiver disposto a entender que é pouco provável que aceitemos que o mundo está prestes a acabar, então o ritmo lento agoniante desse segundo episódio fará todo sentido. Se, do outro lado, o espectador achar que a reação de qualquer ser humano é correr para as colinas, então Fear the Walking Dead falhará fragorosamente.

Pessoalmente, sou do primeiro grupo e, mesmo vendo alguém morto se levantar para tentar me morder, tentaria racionalizar a situação e minimizar o impacto. Fim do mundo? Nem pensar! Isso é coisa de filme…

Nesse segundo episódio, há menos ação ainda que no primeiro, mas há um crescendo de tensão que a fotografia clara desbotada – em oposição ao escuro desbotado da série-mãe – consegue intensificar a passos largos. A arquitetura sonora da produção é também inteligente com o uso de sons enganosos durante todo o episódio, ainda que alguns sejam bobos, como o barulho dos skates logo no início que é feito para nos induzir a achar que Alicia está em perigo.

E, como mencionei na primeira crítica, Dave Erickson, o showrunner, continua manipulando as expectativas baseado no fato de que o espectador sabe mais que os personagens. Queremos desesperadamente que Alicia largue Matt para lá. Torcemos para que o cadáver além da linha da polícia seja mesmo um cadáver e que não se levante para fazer uma boquinha da multidão. Roemos as unhas em desespero por Madison não saber que, para matar zumbis, basta perfurar seus crânios.

E tudo isso se complica ainda mais por uma questão muito simples: os mortos-vivos não são monstruosos como em The Walking Dead. Com isso, fica muito mais difícil “matar” alguém que se arrasta pelo chão e grunhe o tempo todo.

O resultado desses artifícios narrativos que Erickson vai salpicando pela série é que tudo se torna bastante crível. Afinal, se um sujeito acabou de levar 12 tiros de policiais, é muito mais fácil acreditar que houve violência pelas autoridades do que ele ser um zumbi. No final das contas, a civilização pode cair não pela praga em si, mas por nossa incapacidade de parar e refletir um pouco e analisarmos os fatos com frieza.

Mas o que realmente assusta é o quão facilmente o ser humano pode perder seu senso de comunidade com o perigo iminente. A sequência de Madison, ao final, impedindo sua filha de sair para ajudar a vizinha sendo atacada, fechando as portas e dando as costas para a saída, é de gelar o sangue. Afinal, Madison sabe o que está acontecendo e sua preocupação primordial é com sua prole. Pensem friamente e responda: você não faria o mesmo?

O ritmo lento de Fear the Walking Dead é perfeitamente justificável dentro da narrativa que está sendo construída. Erickson quer falar do começo do fim e não correr direto para o ponto que estamos na outra série. Há material interessante demais nesse processo e seu caminho, por enquanto, é certeiro.

Fear the Walking Dead – 1X02: So Close, Yet So Far (EUA, 2015)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Adam Davidson
Roteiro: Marco Ramirez
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Elizabeth Rodriguez, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.