Crítica | Fear the Walking Dead – 1X03: The Dog

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers.

Depois de uma semana de hiato em razão de feriado nos EUA, Fear the Walking Dead chega a seu episódio de metade de temporada. The Dog é tenso e bem construído em seus dois terços iniciais, caindo um pouco ao final. Mas vamos começar pelo que ele traz de bom.

Em primeiro lugar, a ação começa exatamente onde o episódio anterior acabou, com Travis, sua ex-esposa Liza e seu filho Chris presos na barbearia da família Salazar – Daniel, Griselda e Ofélia – enquanto o mundo acaba lá fora com revoltas civis pelas razões erradas. Na casa onde mora, Madison continua cuidando de seu filho drogado Nick e escondendo a verdade (ou o que ela sabe da verdade) de sua filha Alicia. Enquanto na primeira situação reina o caos, na, segunda, uma certa tranquilidade inquieta é sentida. O que aconteceu na casa do vizinho? Que barulhos são esses que se ouvem do lado de fora? Novamente, a arquitetura de som da série dá um show à parte e enerva o espectador no estilo antigo, como filmes de terror de outrora.

Não muito surpreendentemente, a família Salazar efetivamente entra para a história, passando a fazer parte do núcleo de protagonistas. Claro que a desgraça se avizinha – Griselda, na fuga, quebra o pé e começa a ter uma infecção que muito provavelmente a matará e, claro, a transformará em zumbi -, mas a dinâmica especialmente entre Daniel e Travis é interessante ainda que clichê: Daniel sabe o que fazer e está preparado para fazer o que for necessário para proteger seus entes queridos; Travis é incrédulo demais e, mesmo disposto também a fazer o que for necessário, sua hesitação tira qualquer um do sério.

E aí eu faço a pergunta que venho fazendo desde o primeiro episódio: diante de situação semelhante, como reagiríamos de verdade? Seríamos um “Comando para Matar” como Daniel ou alguém ainda com esperança de que tudo vai passar como Travis? Não é uma resposta fácil, pois a situação é impossível de racionalizar com calma. Lógico que, como espectadores experientes de The Walking Dead, a série-mãe, não conseguimos nos afastar o suficiente para simpatizar completamente com as dúvidas de Travis e é natural que fiquemos “do lado” de Daniel, com suas atitudes práticas e definitivas. Mas Daniel está lá para cumprir justamente essa função narrativa no roteiro de Jack LoGiudice. Ele é o que queremos que Travis seja ou, como diriam por aí, ele “nos representa”.

Mas a atitude de Travis – relutância ao extremo – talvez seja a mais provável, não? Afinal, ver o seu vizinho comer um cachorro e andar em sua direção com a mesma intenção não deve ser uma experiência muito fácil. Dizer simplesmente que Travis deveria matá-lo a marteladas ou com a espingarda que Nick furta da casa vizinha é responder de maneira simplista a pergunta que coloquei. Lembrem-se: não estamos falando, aqui, dos monstros deformados da série original e sim de pessoas que acabaram de se transformar, mantendo fundamentalmente as características humanas.

Com isso, a tensão inicial nos dois grupos separados e, depois quando eles se juntam na casa de Madison é palpável e, diria, muito realista. Aliás, é particularmente interessante como Madison tenta fugir da realidade (antes da volta de Travis) fazendo com que seus filhos joguem Banco Imobiliário (Monopoly) e o quanto eles abraçam a ideia. É a tentativa de se fixar no mundo real, deixando as agruras do mundo de fora para lá. Não é o que fazemos em nosso dia-a-dia? Vemos as maiores atrocidades na televisão, nos chocamos e, no momento seguinte, estamos pensando em outra coisa? É duro admitir isso, mas é a mais pura verdade com algumas honrosas exceções. Esse episódio da série deixou essa questão às escâncaras e ela incomoda, claro.

Mas nem tudo são flores. A relutância extrema de Madison em contar para Alicia sobre o que está acontecendo ao redor não se justifica e não faz sentido algum. Entendo que a mãe está tentando proteger ao menos um filho dos horrores do lado de fora e Alicia tem um namorado que ficou extremamente doente, mas daí a simplesmente esconder essa realidade de Alicia é algo que chega até a ser perigoso para o grupo, pois coloca a garota como o elo frágil. Sob o ponto de vista narrativo, isso gera suspense, claro, quando a menina volta à cada dos vizinhos sozinha para buscar as balas da espingarda e se depara com a esfomeada Su-Su, mas não funciona como algo crível e perfeitamente aceitável pelo público.

Outra questão que agora finalmente começa a incomodar é o quão pouco ligamos para Travis. Cliff Curtis tem pouquíssimas oportunidades para construir seu personagem e ele acaba se tornando genérico e facilmente abafado pelos demais. Até Rubén Blades como Daniel, que só teve participação relevante neste episódio, tem mais presença e relevância cenográfica que Cliff. Não vejo isso como um problema que só caia no colo do ator e sim algo sistemático do roteiro que não lhe dedica muito tempo ou constrói situações interessantes para seu personagem viver. Pode ser que o futuro esteja preparando um endurecimento de Travis e sua conversão em um novo Rick Grimes, mas minhas fichas ficam com Madison, vivida de maneira muito eficiente por Kim Dickens, que imprime gravidade ao personagem.

Com a chegada do exército como deus ex machina no final, é possível que Dave Erickson, o showrunner, queira jogar a carta do “está tudo normal agora” somente para fazer a situação degringolar novamente no último episódio da temporada. Veremos se a inocência dos personagens – menos de Daniel, pelo visto – chega a esse ponto. Pelo momento, Fear the Walking Dead continua prendendo a atenção e trabalhando bem os momentos pré-apocalipse zumbi.

Fear the Walking Dead – 1X03: The Dog (EUA, 2015)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Adam Davidson
Roteiro: Jack LoGiudice
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Elizabeth Rodriguez, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.