Crítica | Fear the Walking Dead – 1X04: Not Fade Away

estrelas 4

Obs: Há spoilers.

Ao som de Perfect Day, de Lou Reed, o quarto episódio de Fear the Walking Dead começa, com Travis em sua corridinha matinal e filtros suaves passando a impressão de um sonho. Afinal, tudo voltou ao normal, não é mesmo?

Not Fade Away tem um início que espelha à perfeição o do piloto da série, em que vemos Nick no pesadelo das drogas como se fosse um apocalipse zumbi. Agora que efetivamente estamos no apocalipse zumbi, o que vemos é um semblante de normalidade. Mas que dura pouco, claro, já que logo percebemos que, na verdade, Madison, Travis, Liza, Nick, Alicia e a família Salazar vivem em uma prisão comandada a ferro e a fogo pelo Tenente Moyer (Jamie McShane), que lembra muito o Governador da série principal.

Mas o mais interessante de se ver neste episódio é a coragem do showrunner Dave Erickson em realmente alterar o status quo da série depois de apenas três episódios. O primeiro e mais importante aspecto é que há um salto temporal de nove dias. Não é muito? Pensem bem: o que vimos até aqui se passou em menos do que esse tempo. Isso quer dizer que os personagens tiveram mais tempo para interagir longe de nossos olhares do que perante nosso escrutínio. O próprio Tenente Moyer já surge como “amigo” de Travis e o soldado Reynolds (Shawn Hatosy) como caso de Ofelia. Parece jogado, com certeza, mas Erickson não tinha tempo, em seis episódios para desenvolver absolutamente nada e ele arriscou.

O risco, porém, não só foi calculado como muito bem engendrado dentro da narrativa. O salto entre o final de The Dog e o começo de Not Fade Away é lógico e crível. Criou-se uma zona de segurança, ainda que a desconfiança natural da população com qualquer autoridade enfiada goela abaixo seja palpável, particularmente no caso de Chris e de Daniel, cujas “paranoias” contaminam Madison. Travis continua o bobão de sempre, mantendo-se no papel anteriormente estabelecido, mas que vejo, agora, como necessário para que se crie conflito.

Além do corte, há outra característica importante e corajosa neste episódio, que é a mais absoluta ausência de zumbis. Na verdade, nem mortes há, apenas pessoas já mortas. Vejo muita gente reclamando que faltam zumbis nesta série e também em The Walking Dead, mas os mortos-vivos são apenas alegorias para as relações humanas, são artifícios narrativos usados para tentar responder a pergunta “o que faríamos, como sociedade, em uma situação limite?”. Por essa razão, os monstros são completamente desnecessários em Not Fade Away, que se volta para dentro e começa a olhar com lupa as relações humanas.

Reparem o poder nas mãos do Tenente Moyer, a manipulação de Reynolds por Ofelia, as escapadas furtivas e egoístas de Nick atrás de drogas (ninguém tinha dúvidas sobre isso, não é mesmo?), o desespero do vizinho que só vê o fim do mundo. E também vale destacar o positivo, como a preocupação genuína de Chris com sobreviventes e o cuidado de Liza com seus doentes, ainda que esta última acabe sendo também vítima de manipulação da Dra. Exner (Sandrine Holt), cujo verdadeiro objetivo é difícil de definir no momento. Vemos um microcosmo da sociedade em uma situação extrema e como ela se comporta. A temporada, como previ na crítica do episódio anterior, dá uma freada para que estudemos o desmonte da civilização casa a casa, rua a rua.

A sequência final, com a invasão da casa de Madison pelos soldados para o recolhimento das “pessoas-problema” – no caso Griselda e Nick – é particularmente forte e eficiente em criar tensão e suspense, além da mais completa incerteza sobre o futuro desses personagens (ok, de Nick, pois Griselda, não demora, morrerá, tenho certeza). E uma outra linha narrativa é aberta com essa estratégia, uma que potencialmente envolve Liza e a Dra. Exner, algo que cúmplices nessa “limpeza”.

No entanto, o episódio tomou alguns atalhos incômodos. E não, não falo do salto temporal e da apresentação de supetão de três personagens novos, pois essas são, como deixei claro, qualidades do roteiro de Meaghan Oppenheimer. Há momentos que simplesmente não funcionam, como a fuga de Madison para a zona desprotegida, além da cerca. Entendo que havia o objetivo de mostrar a ela o que os soldados vêm fazendo, mas o roteiro poderia ter encontrado outras soluções (como aliás encontrou com Travis bem no finalzinho) que não exigissem a exploração meia-boca de uma expedição desautorizada e um “retorno mágico”, sem maiores explicações. Outro ponto em que o roteiro tomou atalhos foi na dedução automática por Madison de que Liza estaria por trás do recolhimento de Nick ao hospital. Um tanto forçado e rápido demais, especialmente depois que as duas criaram laços ainda que tênues no episódio anterior.

Mesmo com seus problemas, Not Fade Away mostra que o showrunner tem muita coragem e que a série tem sim potencial para abordar questões parecidas de maneiras diferentes dentro do mesmo universo de The Walking Dead.

Fear the Walking Dead – 1X04: Not Fade Away (EUA, 2015)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Meaghan Oppenheimer
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Elizabeth Rodriguez, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades, Jamie McShane, Shawn Hatosy, Sandrine Holt
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.