Crítica | Fear the Walking Dead – 2X01: Monster

estrelas 2

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Apesar de ter apresentado quatro ótimos episódios iniciais, a primeira temporada de Fear the Walking Dead acabou decididamente mal, quase que completamente negando tudo o que veio antes. Ao encerrar com a promessa que veríamos ação em alto-mar, uma escolha inusitada e, por isso mesmo, interessante, vi uma luz no fim do túnel, porém.

Com a renovação da série para uma segunda temporada de nada menos do que 15 episódios (um a menos do que a série mãe), sem dúvida um exagero desnecessário, essa luz começou a se apagar em minha mente, mas, mesmo assim, a curiosidade se manteve. Mas, como aquele ditado que liga a curiosidade com o gato, ela morreu na praia. Literalmente.

Afinal, logo na sequência inicial de Monster, parece que o showrunner decidiu dar um pulo temporal. De quanto tempo? Não sei ao certo, mas não pode ser mais do que dois dias, considerando-se o estado ainda perfeito do corpo de Liza. Mas a mansão high tech de Strand e toda a costa ao redor está em chamas, resultado de bombas, ou de ataques zumbis ou talvez de movimentos tectônicos da falha de San Andreas ou até mesmo da luta entre Batman e Superman. Escolham a opção que melhor lhe aprouver, considerando que nada faz muito sentido nesse ponto, especialmente os zumbis chegando na praia e atacando Travis e Madison (atraídos pelo que, pelos peixes?). Teria sido muito mais interessante começar do ponto exato em que a temporada anterior parou ou já pular para todos tranquilos no iate. Esse meio termo é estranho e parece ter como única função lembrar o espectador que a série é sim de zumbis.

Quando todos então estão aboletados no gigantesco iate de Strand, o roteiro – escrito pelo showrunner Dave Ericson – começa a abordar cada personagem separadamente, mas ninguém de forma verdadeiramente convincente, com talvez uma exceção. Travis e Madison parecem baratas tontas, que ao mesmo tempo querem e não querem ajudar sobreviventes em um barco. Há um ensaio de uma revolta por parte de Maddie, mas basta um “não” de Strand para ela colocar o rabo entre as pernas. Daniel vai pescar enguia, mesmo com o roteiro deixando muito claro, por duas vezes, que o iate pode mantê-los vivos por muito tempo. Chris ainda está em choque pela morte da mãe pelas mãos do pai, já que o garoto parece não entender que a “outra opção” teria sido muito pior. Nick continua daquele jeito abestalhado e Ofelia faz figuração. Com Strand mantendo seu ar misterioso e só tendo diálogos para deixar claro que ele é o chefe da taba, resta, então, apenas, Alicia que, tendo sido relegada a segundo ou terceiro plano na temporada inicial, ganha contornos mais interessantes aqui, quando faz contato, via rádio, com o que parece ser um jovem em apuros. Sua inocência pode ter revelado informações demais e levado ao clímax do episódio com o que parece ser um ataque “pirata”, mas também seu amigo no rádio pode não ter relação alguma com a iminente abordagem. Só o próximo capítulo dirá.

Essa fragmentação da narrativa, que tem como objetivo mostrar a reação de cada um aos frenéticos acontecimentos de semanas antes, não cumpre sua função em momento algum. Muito ao contrário, o roteiro reapresenta os personagens de maneira bem menos palatável que antes, com todo o elenco quase que deixando claro o quanto está desconfortável à bordo do iate. E vejam, o problema não é, de forma alguma, a falta de ação, pois muitos dos melhores episódios da temporada anterior e de The Walking Dead são justamente os mais contemplativos, mais humanos por assim dizer, colocando os zumbis justamente em seu lugar: como MacGuffins que estabelecem a discussão mais importante dessas séries, a interação humana no limiar da destruição. O problema está, na verdade, na incapacidade do texto de Erickson em criar empatia e interesse pelo destino dos personagens e, em última análise, pelo caminho que a série está tomando.

E, claro, isso é um perigo enorme para um episódio inicial de temporada. Esperava, assim como aconteceu com o episódio piloto da série, algo que fisgasse o espectador e o que vemos, ao contrário, é algo que o afasta. Sim, algumas tomadas do episódio são boas, como o caos de Los Angeles incendiada ao longe e o mergulho de Chris e Nick mais ao final, mas elas são apenas ok, nada que realmente compense o esforço no momento.

No entanto, apesar do recomeço equivocado, ainda considero que a narrativa em alto-mar tem potencial. Sim, sei que haverá menos chances de se encontrar zumbis, mas, como deixei claro, isso não é realmente essencial. O que interessa é a interação humana e o potencial de conflito em um espaço confinado de um iate tendo um comandante misterioso e pragmático de um lado e uma tripulação perdida e batendo cabeças entre si de outro, isso fora a possível interação externa com outros barcos e com os tais piratas (aparentemente) que se aproximam a toda.

Mas Fear the Walking Dead precisa achar seu caminho rapidamente. Precisa mostrar que precisamos sim prestar atenção a seus personagens e que a ambientação aquática pode mesmo gerar frutos. Caso contrário, a luz no fim do túnel poderá apagar-se. Ou, se eu quisesse ser engraçadinho, a série poderia afundar…

Fear the Walking Dead – 2X01: Monster (EUA, 10 de abril de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Adam Davidson
Roteiro: Dave Erickson
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades, Jamie McShane, Shawn Hatosy, Sandrine Holt, Colman Domingo
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.