Crítica | Fear the Walking Dead – 2X02: We All Fall Down

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estrelas 2

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Dave Erickson continua em sua firme missão de fazer seus espectadores ficarem indiferentes em relação aos personagens que ele e Robert Kirkman criaram. We All Fall Down, apesar de ter sido marginalmente superior ao sofrível Monster, erra ao dar esperanças de uma história interessante, somente para puxar o proverbial tapete não muito tempo depois.

Nem bem nos acostumamos com o conceito de uma série de zumbis em alto mar e eis que voltamos para terra firme, com nossos heróis (posso chamá-los assim?) chegando à ilha Catrina, pois misteriosamente Erickson preferiu inventar uma ilha no lugar de usar uma das já existentes no litoral californiano… Espero que isso não seja o prenúncio de uma inédita (olhos rolando nesse momento) estrutura de “ilha da semana”, pois, se for, seria mais honesto afundar logo o Abigail e colocar a trupe toda repetindo o caminho de Rick Grimes e sua turma em The Walking Dead.

Tudo bem que a razão para a parada no local decorre imediatamente da misteriosa embarcação que parece seguir Strand e companhia por onde quer que eles naveguem, mas isso não faz do episódio algo realmente engajante, apesar da inteligente sequência inicial na praia que nos mostra mortos-vivos náufragos chegando a uma praia onde duas crianças brincam inocentemente, somente para nos revelar que elas, na verdade, estão relativamente seguras pela grade que os separa e que a montagem não nos deixa ver inicialmente. E essa promessa de uma boa história continua quando somos introduzidos à família que mora no local e vagarosamente começamos a ver que há alguma coisa estranha ali.

As pistas visuais são boas, com os G.I. Joes (os nossos antigos Falcons – quem lembra?) do menino com marcas vermelhas de caneta na testa, o irmão mais velho desconfiado e estranhamente confortável com a picareta e os diálogos um tanto quanto bizarros entre o patriarca e Travis, ainda que a menção à herança Maori do ator neozelandês tenha sido interessante. O que se esperava era um desenvolvimento que lidasse com essas questões, que amplificasse aquele sentimento de horror que aquela família isolada começa a passar ao espectador. Daria até para perdoar a conveniência do roteiro de Kate Barnow que faz com que Nick não só ache as pílulas escondidas dentro do globo terrestre, como afirme com toda a autoridade, que são venenosas (uma coisa é ele ser usuário de drogas, outra bem diferente é simplesmente concluir que as pílulas escondidas e que não têm a menor indicação são isso ou aquilo…).

Com disse, “daria para perdoar”, mas o problema é que a narrativa, então, parte para tomar atalhos que doem de tão idiotas. Madison simplesmente aceitar levar as crianças embora por ser “mais seguro” no iate – mais seguro como, mulher??? – é risível tanto pela velocidade como isso acontece, como pelo conceito em si. A simples ideia da mãe das crianças ter se arriscado a atrair uma embarcação desconhecida com o exato objetivo de entregar seus filhos pequenos ao primeiro estranho que atracasse consegue ser mais imbecil ainda, como se a roteirista considerasse que basta falar em “crianças em perigo” que o episódio automaticamente fica bom não importa a qualidade da escrita. E Travis no meio disso tudo? Ele parece o Múcio, aquele clássico personagem do Jô Soares que concorda com todo mundo, por mais opostas que sejam as opiniões. Dá pena ver Cliff Curtis jogado em um roteiro que faz dele um ser amorfo, sem personalidade própria e apático.

Do lado de Strand, seu mistério se intensifica agora que Daniel descobriu mapas do México e uma metralhadora escondidos aparentemente no armário mais fácil do mundo de arrombar e vimos o próprio capitão do iate conversando com alguém com um telefone de satélite (que ainda funciona, o que me leva à conclusão de algo militar ou, mais provável, um cartel criminoso qualquer). Há luz no fim desse túnel desde que essa luz ilumine as razões pelas quais ele precisou salvar Nick e agregados da prisão militar.

Com isso, toda a promessa de elementos de horror psicológico serem usados vai por água abaixo (com trocadilho) e a série começa a se perder em um oceano (de novo!) de clichês que deságuam (mais uma vez!) em uma colagem de bobagens mascaradas de série pós-apocalíptica. E o pior é que ainda é possível ver – mas cada vez mais ao longe – o vulto de uma narrativa interessante e engajadora, mas que parece estar escondida atrás da inabilidade de Erickson de chamar a atenção do espectador.

Fear the Walking Dead ainda não mostrou a que veio nessa segunda temporada, depois de uma primeira que desapontou ao final. Se os personagens não forem trabalhados de forma relevante, tornando-os efetivamente o foco das atenções, a série não terá fôlego para segurar-se por 15 episódios (sem contar com a já anunciada renovação para uma terceira temporada…).

Fear the Walking Dead – 2X02: We All Fall Down (EUA, 17 de abril de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Adam Davidson
Roteiro: Kate Barnow (baseado em história de Brett C. Leonard e Kate Barnow)
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades, Jamie McShane, Shawn Hatosy, Sandrine Holt, Colman Domingo
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.