Crítica | Fear the Walking Dead – 2X03: Ouroboros

estrelas 3

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Deixa eu ver se entendi. Quer dizer que a proposta da segunda temporada de Fear the Walking Dead é transformar uma narrativa que em tese se passaria em alto-mar em uma espécie de cruzeiro que para em diversos portos, os personagens saem para passear e depois voltam? Afinal, de três episódios, dois foram assim, contando com Ouroboros que pelo menos tem a vantagem de ser um episódio que tira a série do marasmo, ainda que esteja longe de apresentar algo que faça o espectador realmente entender o rumo que esse barco à deriva está tomando.

Começando com a introdução na série propriamente dita de Alex (Michelle Ang) e Jake (Brendan Meyer), dois personagens a que fomos apresentados na web-série Fear the Walking Dead: Flight 462 (àqueles que não viram, não é necessário assistir para entender o episódio), em bote salva-vidas com outros três sobreviventes depois que seu voo cai no oceano, logo vemos uma passagem de tempo feita com cortes bruscos sucessivos, demonstrando a evolução da relação deles e a redução do número de vivos. Em seguida, voltamos à Abigail, que está quebrada, com os filtros entupidos pela ação de “zumbis submarinos” que o escravo da embarcação, Travis, precisa resolver sob o olhar do feitor Strand, que ainda dá pito no sujeito.

Em razão dessa parada inesperada – e convenientemente perto da costa – Daniel, Alicia, Nick e Chris (porque faz sentido mandar TODOS os seus filhos para lugar incerto e potencialmente infestado de zumbis) saem para investigar os destroços do voo 462, que eles localizam na praia. É lá que a melhor parte do episódio ocorre, com uma construção inteligente e até mesmo solene de um suspense inquietante que faz uso dos clichês do gênero para trabalhar nossos medos. Assim, temos a separação do grupo, com Chris indo razoavelmente longe para verificar parte da fuselagem ainda razoavelmente intacta e encontrando não só mortos-vivos, como também um humano vivo, mas muito ferido, o que o obriga a aplicar o golpe (ou os golpes, em sequência destruidora) de misericórdia, algo que obviamente o faz lembrar do que Travis fez com sua mãe e, se o garoto for minimamente inteligente, entender as circunstâncias. Há também Nick, daquele seu jeito meio perdido, observando um zumbi semi-enterrado na areia e caindo “de maduro” ao lado dele, algo bem trabalhado pela câmera intrusiva que nos coloca dentro da situação.

Quando Alex então volta à trama (é necessário abstrair-se da lógica do “como” ela volta), ela desencadeia a ação final, com um ataque maciço de zumbis em uma sequência que primeiramente a faz ficar parecida com Chris para enganar Daniel e os espectadores – pontos para a fotografia em plano geral aqui – e, depois, pela desordem que é o grupo tentando se defender. É a volta de um artifício genialmente usado no começo da primeira temporada, ou seja, a familiaridade dos espectadores com a série mãe, The Walking Dead. Isso nos faz ficar aflitos com a razoável incompetência desses novatos em repelir ataques de desmortos, algo que há muito não existe com Rick e companhia e o suspense “romeriano” tirado dessa característica é o que há de melhor nessa série spin-off até agora. Reparem nos golpes aleatórios do grupo, nos tiros desperdiçados de Daniel, no pouquíssimo prático instrumento usado por Chris para golpear cabeças zumbificadas. Com base em nossa vasta experiência vicariante em matar zumbis, o que vemos, ali, é o caos e a desordem que beneficiam a narrativa e ainda reservam uma agradável surpresa, que é o repentino aparecimento de Nick, “vestido de zumbi”, para salvar seu pessoal com uma calma enervante, que realmente só poderia vir de alguém que viveu a vida nesse inferno incerto das drogas que ele agora vê ao seu redor mesmo sem as drogas. Nick ganha a dimensão que era devida ao personagem há muito tempo e que vimos somente pistas aqui e ali na temporada anterior.

Por outro lado, a ação no Abigail é praticamente oposta à da praia. O marasmo impera, com uma tentativa fracassada de se criar algum suspense com os mergulhos de Travis e o roer de unhas de Madison. Mesmo o enfrentamento dela em relação a Strand, orquestrado por Daniel, parece forçado e com consequência nula. Afinal, a confirmação de que o destino do misterioso comandante do navio é mesmo o México, em uma um tanto surreal fortaleza (mais pontos para a teoria que reza que Strand trabalha para algum cartel de drogas…), é desapontadora. Certamente há mais por baixo disso tudo, mas a aceitação das meias explicações por Madison e por Travis incomoda, chegando ao ponto máximo quando eles nem mesmo, para o desespero de Alicia, conseguem convencer Strand a abrigar Alex e o moribundo Jake em seu iate. Começa a tornar-se irritante essa postura cruel de Strand (precisava mesmo cortar a corda?) e mais ainda a postura passiva do casal principal (não podiam ao menos reclamar um pouquinho da corda cortada, quiçá ensaiar um motim?) que aceita tudo sempre, como se não tivessem escolha. Realmente espero que haja uma lógica – mesmo que seja perversa – por trás dos acontecimentos; caso contrário será fácil concluir que quem está à deriva é o showrunner Dave Erickson.

Com uma incômoda estrutura de “terra firme da semana”, Fear the Walking Dead segue aos trancos e barrancos. Ouroboros certamente foi um progresso, mas esse episódio, sozinho, não tem força para mostrar que há porto seguro para essa série na grade da AMC.

Fear the Walking Dead – 2X03: Ouroboros (EUA, 24 de abril de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Stefan Schwartz
Roteiro: Alan Page
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades, Jamie McShane, Shawn Hatosy, Sandrine Holt, Colman Domingo, Michelle Ang, Brendan Meyer
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.