Crítica | Fear the Walking Dead – 2X07: Shiva

estrelas 2

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Fear the Walking Dead chega à metade de sua segunda temporada sem mostrar a que veio. De uma promessa de aventuras marítimas no começo da epidemia zumbificadora, a série tornou-se rapidamente um “copia e cola” de The Walking Dead, mas com personagens menos carismáticos e uma narrativa derivativa e perdida.

De fato, cheguei a listar as semelhanças com a série principal quando escrevi sobre Sicut Cervus e Shiva apenas ratifica meu raciocínio, já que mais uma característica está presente: a destruição rápida e sem cerimônia de “santuários”. O que já estava começando a cansar em The Walking Dead é repetido em Fear the Walking Dead mostrando que Dave Erickson realmente não quer criar algo memorável, apenas mais do mesmo.

Mas o pior é que Shiva conseguiu destruir o mais interessante de seus personagens: Daniel. O ex-torturador e assassino salvadorenho, de uma hora para outra, enlouquece completamente. E não me venham dizer que seu destino já estava traçado antes, pois ele só começou a ouvir vozes dois ou três episódios atrás e, em velocidade absolutamente vertiginosa e de maneira completamente estranha, ele passou de um homem frio, mas apaixonado por sua família, a um maluco que é assombrado pelos fantasmas de seu passado, fantasmas esses que só se fizeram presentes agora, em uma conveniência narrativa literalmente retirada da cartola de Erickson, uma escolha terrível que só causa estranhamento.

E o mais triste é que é dolorosamente possível vislumbrar esses acontecimentos em um futuro hipotético de Daniel. Seu passado realmente o condena e fazê-lo enfrentar gradativamente seus demônios teria sido fascinante, especialmente porque Rubén Blades vinha se mostrando como um ótimo ator, trazendo complexas camadas ao seu personagem por trás de uma fachada tranquila. Mas não. O que testemunhamos é como se Erickson tivesse clicado no fast forward, quebrando todo e qualquer desenvolvimento crível do personagem, somente para matá-lo dramaticamente ao final, junto com a destruição da hacienda dos Abigail. Uma lição valiosa de como pegar um personagem promissor e jogar no lixo.

Acontece que esse grave problema nem é o pior, pois, ao fazer Daniel atear fogo aos zumbis carinhosamente protegidos por Celia, o roteiro tira todo o impacto da ação de Madison logo antes. Em talvez o melhor momento da série até agora, Celia leva Madison para conhecer as criaturas que ela guarda, somente para, em um diálogo sobre fazer o que for preciso pelos filhos, Maddy trancar Celia com os monstros. Notem que Madison não matou Celia com um tiro na cabeça. Ela a deixou ser morta da pior forma possível e por seu próprio filho e potenciais amigos e conhecidos desmortos. Uma crueldade e frieza que impressionam, mesmo que o espectador tenha se sentido aliviado por essa outra louca finalmente ter chegado a seu fim. Mas a chegada de Daniel ao mesmo local não muito tempo depois, colocando fogo em tudo, dilui a potência do que Maddy fizera, quase que cancelando o efeito das duas ações.

Fora da fazenda, Travis corre atrás de Psycho Chris, mais um maluco nessa fábrica de doidos que é Fear the Walking Dead. Ainda que a caminhada de Chris para a loucura seja bem mais crível do que a de Daniel, ela ainda soa forçada. De um menino apenas insuportável, ele passou a quase assassino por duas vezes e, agora, por sequestrador de crianças. Chega a ser engraçada a inabilidade de Erickson de criar um arco narrativo com sentido para seus personagens. É como se ele decidisse o que acontece com cada um ali, no calor do momento, sem um plano maior.

Uma prova disso é a montagem absolutamente patética de Shiva. Em um momento, Travis corre atrás de Chris e, em outro, ele chega à casa de uma pessoa com os pés completamente destruídos do nada, sem que uma coisa tenha conexão direta com a outra. Ele correu tanto assim que se machucou todo? Mas não se passaram apenas algumas poucas horas? Mais uma vez, Erickson, por intermédio do roteiro de David Wiener, cria um artifício pouco crível para gerar a ação que culmina com Travis e Psycho Chris partindo sozinhos em seu próprio caminho.

A montagem também definitivamente não funciona no que toca Nick, outro personagem que já teve mais potencial mas que, agora, junta-se à legião dos sem-parafuso da série. Em um minuto ele está na fazenda e, no outro, ele aparece todo cheio de sangue e tripas trazendo Luis Flores para sua mamacita. Não demora e, mais uma vez, ele está coberto de pedaços de zumbi conversando com Travis. Tudo novamente no espaço de um dia. E o discurso dele sobre acreditar que os zumbis não estão mortos, como se ele tivesse passado por uma lavagem cerebral/doutrinação de Celia é de rolar os olhos de tão artificial e exagerado. E chega a ser engraçado que, para alguém que tem tanto respeito pelas criaturas, ele não tenha nenhum pudor em se lambuzar de intestinos e sangue dos zumbis que, aliás, estão sempre disponíveis para ele magicamente. Nick é mais um personagem desperdiçado por Erickson.

E Strand é outro. Depois de descumprir o pacto de morte que celebrou com Thomas, o personagem murchou e desapareceu, perdendo a importância e a imponência que tinha na história. Pelo menos ele parece ter a cabeça no lugar e uma ligação com Maddy, que se sente responsável por ele após a promessa que fez a Thomas.

Apesar de todos os quase incontornáveis problemas, a divisão do grupo em três e a promessa da volta do iate à equação cria um cliffhanger minimamente interessante para a segunda metade da temporada. É particularmente bela a tomada final de Nick, todo ensanguentado, em meio aos zumbis, talvez o ambiente em que se sinta mais completo e à vontade. No entanto, a sensação de dejà vu permanece e Fear the Walking Dead sofre ao não conseguir sair da sombra da série principal pela simples falta de coragem de ousar, de fazer algo realmente diferente.

Nota: A temporada entrará em hiato agora, voltando apenas dia 21 de agosto.

Fear the Walking Dead – 2X07: Shiva (EUA, 22 de maio de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Andrew Bernstein
Roteiro: David Wiener
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Rubén Blades, Jamie McShane, Shawn Hatosy, Sandrine Holt, Colman Domingo, Michelle Ang, Brendan Meyer, Dougray Scott, Arturo Del Puerto,  Daniel Zovatto, Jesse McCartney, Veronica Diaz-Carranza, Mark Kelly, Marlene Forte
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.