Crítica | Fear the Walking Dead – 2X10: Do Not Disturb

estrelas 2,5

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

cliffhanger de Los Muertos não é resolvido de maneira convencional em Do Not Disturb, o que o tornou de certa forma desnecessário, ainda que plasticamente interessante com aquele plongée sobre a bancada do bar que serve de barreira anti-desmortos para os bêbados Madison e Strand. Além disso, a forma como ele é tratado lembra a maneira estabanada como Scott M. Gimple tratou todo aquele suspense com Glenn durante a 6ª Temporada de The Walking Dead.

Pior, na verdade. Afinal, se Gimple soube, pelo menos inicialmente, criar dúvida sobre o destino de Glenn, somente para irritar os espectadores com o tempo em que ele arrastou o mistério e com a forma como ele o resolveu, Dave Erickson, aqui, não cria um mínimo de suspense sobre Madison e Strand. Alguém tinha alguma dúvida que os dois estavam vivos? Alguém em algum momento, mesmo que por um ou dois segundos, sentiu algum grau de perigo em relação aos dois? Pois é, nem eu. E, com isso, toda a elaborada – e maluca! – história de Alicia tentando chegar ao térreo do hotel com Elena, a gerente do lugar que, cortesia do flashback inicial, trancou todos os convidados do casamento em meio a um ataque zumbi, cai por terra completamente.

Como temer pela demora em Alicia ajudar sua mãe se temos certeza que ela e Strand estão vivos? É como assistir um daqueles filmes em que tudo o que vemos é um sonho e nada realmente aconteceu. A estrutura dramática é demolida pela própria premissa equivocada desta parte do episódio que tenta ser mais do que realmente é. Mas, mesmo que possamos esquecer esse aspecto por um momento, as sequências de ação com Alicia e Elena, com apenas uma exceção, não empolgam e parecem estar ali justamente para permitir que o episódio alcance seu tempo regulamentar. E isso sem contar com as decisões ilógicas de Alicia, como correr por um corredor sem saída, algo que obviamente iria fazê-la ficar cercada alguma hora (o bom senso, aparentemente, inexiste em pessoas que fogem de zumbis…). A única exceção, que funciona bem dramaticamente mesmo que saibamos que Elena não trairá Alicia (não naquele momento, pelo menos) é na sequência em que ela fica presa na varanda e recebe ajuda no último minuto para pular para o outro quarto. São poucos segundos de eficiência, no entanto…

E, quando Alicia finalmente chega ao térreo, chega a ser risível a tentativa do roteiro de Lauren Signorino em nos fazer acreditar que a zumbi loira era Madison. O mesmo vale para os sobreviventes do casamento e o sequestro de Hector, sobrinho de Elena, em uma linha narrativa que não faz o menor sentido e, mesmo que fizesse, é sub-utilizada e absurdamente mal resolvida.

Em paralelo à ação no hotel, finalmente vemos Travis e seu filho Psycho-Chris novamente. A alegoria de adolescente-problema continua forte e o rapaz persegue furiosamente sua carreira de assassino ao matar o coitado do dono fazenda, para horror de seu pai. Não sei até quando essa rotina poderá continuar, mas pelo menos esta parte da história, apesar de mais linear, funcionou melhor do que a outra, com um pai realmente tentando entender seu filho com um discurso de esperança, mesmo que ele próprio não acredite muito no que está dizendo. Achei que não iria jamais dizer isso de Lorenzo James Henrie, mas sua performance, aqui, foi realmente convincente, bem mais equilibrada do que a partir do ponto em que sua mãe morre. Menos histérico e com uma psicopatia crescente, talvez seja possível construir um personagem interessante de Chris, mesmo que seu final, muito provavelmente, tenha que ser trágico mais para a frente (trágico para ele, para o pai ou para os dois…), isso se o roteiro não se acovardar e redima o garoto de alguma maneira, o que seria muito desapontador.

Cliff Curtis, que há muito não tinha espaço para trabalhar, também não desaponta, ainda que sua atuação ainda não tenha mostrado a que veio. A relação de Travis com Chris convence e a chegada do grupo pós-adolescente, apesar de deveras clichê, começa a fazer a trama girar em seu eixo, jogando o filho contra o pai. No entanto, tenho para mim que, assim como creio que acontecerá com Elena e Hector, o trio encabeçado por Brandon não permanecerá na história durante muito tempo.

Apesar de trazer um episódio marginalmente superior ao anterior, Fear the Walking Dead ainda está longe de encontrar sua voz, sua personalidade. As três linhas narrativas têm, cada uma, um ou dois aspectos positivos e vários problemas. Talvez seja melhor mantê-las separadas por um tempo ainda, de forma que pelo menos uma das histórias amadureça e ganhe relevância dramática. Já seria alguma coisa em uma série que parece mais morta do que os zumbis que retrata.

Fear the Walking Dead – 2X10: Do Not Disturb (EUA, 04 de setembro de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Michael McDonough
Roteiro: Lauren Signorino
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Colman Domingo, Karen Bethzabe, Kelly Blatz, Israel Broussard, Raul Casso
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica: Canal AMC
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.