Crítica | Fear the Walking Dead – 2X11: Pablo & Jessica

estrelas 3

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Quando reclamei que o interessante, mas desnecessário cliffhanger etílico de Los Muertos não é aproveitado em Do Not Disturb, não queria que ele voltasse alguma hora. O que passou, passou. Mas Dave Erickson parece estar precisando de material para enrolar sua temporada e nos faz passar pelos completamente anticlimáticos eventos que revelam como Madison e Strand escaparam da enrascada. E o pior é descobrir que pela enésima vez só nesta temporada, a “técnica” de se lambuzar de sangue e tripas de desmortos foi a grande salvação…

Haja paciência, não é mesmo?

No entanto, apesar de um comecinho errático, Pablo & Jessica acaba se revelando melhor que seus dois antecessores. Mas isso não é lá algo a se comemorar, considerando que toda a temporada tem deixado muito a desejar.

De toda forma, a resolução do conflito no hotel, sem lutas e pancadarias, é quase que uma inovação na estrutura da série (e até mesmo, em linhas gerais, da série mãe), ainda que ela aconteça rapidamente demais. Mas o que realmente funciona é a ideia de limpar o hotel usando o píer e a maré forte como instrumentos. É aquele momento de originalidade e de frescor que a série precisava há muito tempo, desde que inventaram (mentiram, pelo visto) que a segunda temporada se passaria no mar. A grande questão é que a ótima ideia tem uma execução que não cria tensão alguma. Parece apenas mais um dia na vida de Madison, Alicia e Strand, como se eles já fossem experientes como Rick Grimes e companhia. Portas são abertas, zumbis são atraídos em três frentes diferentes e assim mesmo, em um estalar de dedos, tudo se resolve. Uma pena que a sequência não seja protraída no tempo, não seja trabalhada como poderia ser trabalhada, sendo jogada no episódio como algo corriqueiro. No entanto, o momento que fecha o episódio, com Strand convencendo Oscar a dar cabo a uma Jessica transformada, tem poesia e gravidade, que novamente mostra qualidade na atuação de Colman Domingo, ator que tem tido pouquíssimo espaço nesta segunda metade de temporada.

Não sei se a resolução da linha narrativa do hotel foi apressada em razão do tratamento que o episódio dá a Nick e Luciana, mas teria preferido ver a evolução do relacionamento dos dois em episódio apartado, dedicado a eles. Isso teria permitido, com uma direção mais ousada do que a de Uta Briesewitz, a melhor exploração da manipulação da horda por Madison e a criação de maior tensão entre ela e o grupo de Oscar. Da mesma forma, Nick e Luciana, se tivessem ganhado um episódio só para eles, o roteiro poderia evitar que eles fossem para a cama no mesmo dia em que a moça descobre que seu irmão morreu, algo que pode ser perfeitamente explicado como consequência do desespero e solidão, mas poderia ganhar mais peso, mais importância e um pouco mais de naturalidade. E, na mesma esteira, o farmacêutico Alejandro e sua relação com Nick também poderia ter recebido mais atenção, especialmente a corrida historieta de como ele foi mordido por um morto-vivo, algo que provavelmente – espero – será explorado mais para a frente em detalhes.

De toda forma, aqui as duas histórias funcionam razoavelmente bem, mesmo com a necessidade de se correr em direção às respectivas linhas de chegada. Se de um lado temos a reconciliação de Madison e Alicia, que reflete na reconciliação de Elena com o grupo de Oscar (ou pelo menos a aparência disso), de outro temos Nick ganhando pelo menos um momento de paz de espírito e, possivelmente, felicidade. Em ambos os lados, há, também, um crescente senso de que coisas muito ruins acontecerão em breve, algo que fica nas entrelinhas: invasores incertos e não sabidos no hotel e a gangue de drogados na comunidade onde Nick agora vive. É a calma antes das tempestades, que, espero, venham redimir a temporada.

Uma coisa, porém, que vem me incomodando profundamente, é a incapacidade de Dave Erickson de trazer novos personagens interessantes ao elenco principal. Os coadjuvantes que ele apresentou até agora – Alejandro, Elena, Oscar e até mesmo Luciana – são subservientes demais aos personagens principais a ponto de eles não terem personalidades próprias. Parecem personagens-padrão genéricos jogados na trama para servirem a Nick, Madison, Alicia e Strand. E o mesmo vale para os jovens que perseguem e depois parecem auxiliar Chris e Travis no episódio anterior. Sim, é verdade que Luciana e Alejandro recebem mais atenção e desenvolvimento, mas ainda estão longe de serem interessantes ou particularmente importantes para a narrativa que tenta caminhar ainda que aos trancos e barrancos. E, em cima disso tudo, não podemos esquecer que o próprio grupo principal tem carecido de personalidade – com exceção de Nick, já que até Strand foi apagado -, o que só dificulta que a série encontre seu ritmo e seu público.

Pablo & Jessica é um episódio cheio de boas ideias e alguns momentos interessantes, mas que se perdem em um roteiro que não os desenvolvem eficientemente. Mas pelo menos ele mostra um lampejo, uma luz no fim desse longo túnel cavado pelo showrunner. Resta torcer para que vejamos a superfície logo…

Fear the Walking Dead – 2X11: Pablo & Jessica (EUA, 11 de setembro de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Uta Briesewitz
Roteiro: Kate Erickson
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Andres Londono
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica: Canal AMC
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.