Crítica | Fear the Walking Dead – 2X13: Date of Death

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Depois do terrível capítulo anterior, Pillar of Salt, perdi as esperanças com Fear the Walking Dead. Sentei-me para assistir Date of Death com toda a má vontade possível e, não sei se justamente em razão disso, acabei me surpreendendo. Será que finalmente tivemos um episódio vitorioso nessa segunda metade de temporada que até agora estava perdida?

Confesso que tive que rever algumas partes do episódio para ter certeza que não era alucinação e posso dizer que Dave Erickson finalmente deixou a qualidade falar mais alto no segundo capítulo seguido sem zumbis, mas o primeiro que realmente acerta na mosca e começa a tirar o gosto ruim que os demais haviam deixado. Ainda é pouco para colocar a série novamente no prumo (considerando que ela o perdeu lá atrás, no terço final da 1ª temporada…) e, considerando que só faltam dois episódios que irão ao ar juntos na próxima semana, a esperança ainda é pouca que Erickson dê a volta por cima completamente.

Entrecortando momentos no presente no hotel de Madison que passa a atrair sobreviventes depois que ela burramente ligou o letreiro do lugar ao final do episódio anterior com sequências em flashback que revelam o que aconteceu entre PsychoChris e seu pai Travis ao ponto de deixar o último sozinho, o roteiro de Brian Buckner (do fraco Sicut Servus) usa o potencial do drama humano a seu favor tentando navegar sentimentos profundos de dúvida, medo, orgulho e, sim, amor incondicional. Séries e filmes de zumbi que se reputam sérias e marcantes normalmente têm no drama humano seus pontos altos e é isso que Buckner tenta alcançar aqui, evitando as besteiradas que repetidamente testemunhamos até agora na temporada.

Para começar, temos a dúvida moral estabelecida pela chegada dos sobreviventes ao hotel. O portão deve ou não ser aberto? Como escolher quem entra no “santuário”? Ainda que isso não seja explorado a fundo (presumo que ainda será), a discussão é posta na mesa e só por isso a conversa mental – aquela que o anjinho e o diabinho que todos nós temos em nossos ombros travam (os meus são versões do Pato Donald, com aquela voz de taquara rachada mesmo!) – já vale a experiência.

Mas a discussão também continua e se aprofunda quando o roteiro passa a lidar com Chris, seus novos “amigos” e Travis, depois que o primeiro mata Elias, o dono da fazenda. Se é difícil aceitar completamente o que se passa na cabeça do garoto, lembrem-se que ele era um adolescente problemático cuja situação somente se agravou quando Travis matou sua mãe (ainda que a pedido dela). O jovem simplesmente não soube lidar com isso e com o esfacelamento do mundo ao seu redor e matar Elias para impressionar os amigos tão malucos quanto ele é algo que segue uma linha razoavelmente lógica.

Claro que o dilema entre matar ou não James, ferido na perna por Elias, é bem diferente. Completamente diferente, na verdade. Não dá nem para começar a comparar alguém ferido a bala que em tese poderia recuperar-se bem, de alguém mordido por um desmorto e quando Chris e seu grupo junta tudo na mesma cesta, o roteiro mostra uma espécie de psicopatia conjunta que não permite qualquer argumentação em contrário. Dramaticamente, demorei para aceitar o que o roteiro me pediu para aceitar e até agora não sei se desceu completamente, mas tenho para mim que o objetivo, aqui, era quebrar Travis, destruí-lo completamente ao ver seu filho no fundo do poço, perdido quase que em um devaneio lisérgico entre amigos. Certamente a progressão da história poderia ter sido melhor – talvez James pudesse piorar drasticamente -, mas acho que entendi a mensagem algo atabalhoada que o roteiro quis passar, levando a um cliffhanger simples, mas com possibilidades aterradoras, agora que os jovens – sem Chris – voltaram com outros para o hotel.

Mas os problemas familiares não ficaram apenas na relação entre Chris e Travis. Há outras duas conversas maduras no episódio, a primeira, mais breve, entre Travis e Madison em que os dois deixam muito claras suas respectivas obrigações sem mágoas um com o outro. Um momento sóbrio que mereceu a calma com que foi feito e falado, com boas atuações de Kim Dickens e Cliff Curtis. E o mesmo vale para a conversa reveladora entre Madison e Alicia que finalmente deixou às claras as circunstâncias da morte do pai da jovem e o medo de Madison que seu filho Nick seguisse no mesmo caminho, medo esse que justifica (em tese) o abandono físico e emocional dela em relação a Alicia. São duas boas sequências que fazem eco ao drama de Travis e Chris, drama esse que, desconfio, ainda levará a muita desgraça.

Fear the Walking Dead não tem um padrão comportamental. Seus episódios flutuam entre o péssimo e o muito bom, mas com poucos do segundo tipo, o que tem levado a série a uma mediocridade enervante. Date of Death é um sopro de vida, sem dúvida, mas ainda muito fraco para realmente ser a luz no final do túnel por que tanto venho almejando. É torcer para que a dobradinha final Wrath/North seja capaz de mudar essa percepção.

Fear the Walking Dead – 2X13: Date of Death (EUA, 25 de setembro de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Christoph Schrewe
Roteiro: Brian Buckner
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Andres Londono, Brenda Strong
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica: Canal AMC
Duração: 41 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.