Crítica | Fear the Walking Dead – 2X14 e 2X15: Wrath / North

Wrath

estrelas 4,5

North

estrelas 3,5

2ª Temporada (não é uma média)

estrelas 2,5

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Mas que surpresa boa!

Acabei minha crítica do episódio anterior, Date of Death, torcendo para que a dobradinha Wrath/North, que encerra a 2ª temporada de Fear the Walking Dead, conseguisse iluminar o caminho da série, trazendo-a à boa forma que demonstrou ter nos dois terços iniciais da 1ª temporada. Havia achado que meu desgosto pelo tenebroso Pillar of Salt havia alterado minha percepção de Date of Death, pelo que o bom episódio anterior não poderia, sozinho, ser visto como sinal de recuperação. Mas ele, juntamente com Wrath e North revela um jogo mal jogado por Dave Erickson, mas com aqueles brilhantes lances finais que empolgam a torcida.

E a principal razão para a empolgação é mesmo Wrath, que começa com os dois insuportáveis sujeitos que cooptaram Chris já estabelecidos na “zona de triagem” do hotel. Madison descobre quem eles são e tenta expulsá-los, de maneira que eles não possam contar a Travis que Chris morrera, conforme sóbrio conselho de Strand sobre ter um fio de esperança para agarrar-se. Mas, claro, tudo dá errado muito rapidamente e, em um dos momentos mais fortes e bem executados desta e também da série mãe, Travis deixa seu último resquício de humanidade à qual ele se agarrava fortemente como um colete salva-vidas, escorrer por seus dedos e ele explode em fúria violenta que termina com três mortes, uma delas a de Oscar, que apenas tentar ajudá-lo.

Travis sempre foi o mais balanceado dos personagens, mas, aos poucos, ele vinha sendo obrigado a encarar a nova realidade e adaptar-se a ela. Tudo bem que, ao decorrer das duas temporadas, seu personagem não angariou muita simpatia dos espectadores – sei que não falo só por mim – e diversas decisões de roteiro conseguiram estragar muito potencial. Quando na metade da 2ª temporada ele toma a decisão de partir sozinho com um Chris já psicopata, seu posicionamento não podia ser condenado. Afinal, era o filho dele. E ele deu todas as chances ao rapaz. Viu-o assassinar ainda outra pessoa à sangue frio e cair na conversa fácil dos jovens “rebeldes”, atacando até mesmo o próprio Travis no processo. Que pai não desmoronaria sob esse peso? Que ser humano não se deixaria levar pela raiva cega que vem da descoberta que seu filho foi morto a sangue frio pelos tais dois rapazes?

Esse clímax impressionante é ainda melhor por não ser rápido ou off camera. O espectador é convidado a acompanhar a espiral de Travis momento a momento, golpe a golpe. A sequência é longa, com uma câmera intrusiva inserida de maneira a nos colocar na ação e nos desnortear como Travis deve ter se sentido no momento. E há violência. Muita violência. E explícita. E dolorosa. E destruidora. Sai Travis e entra o Travis Sombrio, um homem completamente diferente que tem a mais perfeita consciência do que se tornou, consciência essa compartilhada por Madison no breve momento a dois que eles têm. Madison já sabia o que ela própria se tornara, uma leoa que faria qualquer coisa para defender os filhos e Travis veste esse mesmo manto agora. Tanto Kim Dickens e, desta vez, especialmente Cliff Curtis estão de parabéns pelas atuações no episódio.

Outro aspecto dessa loucura toda é o uso do artifício do “narrador não confiável”. Brandon e Derek contam primeiro uma versão da história – uma acidente de carro que matara que Chris -, e, depois, sob pressão contam o que parece ser a verdade: eles mataram Chris. Há poucas razões para duvidar da tenebrosa e indesculpável ação dos dois, mas a dúvida ainda existe. Vemos as duas versões em flashback, mas não há certeza absoluta sobre nenhuma delas, até porque o filtro embranquecido usado na fotografia é exatamente igual nas duas cenas, não nos dando pistas sobre a veracidade de uma ou de outra. Chris está mesmo morto? Provavelmente sim (até porque o ator se bandeou para Agents of S.H.I.E.L.D., não é mesmo?), mas aquele resquício de dúvida subsiste. E o quão sensacional seria se ele aparece vivinho da silva na próxima temporada? Conseguem imaginar que efeito isso teria em Travis? Mas sei que estou no campo da pura especulação.

Voltando aos fatos, se existe um aspecto que não gostei – e não foi nesse episódio apenas, claro – é o quanto os roteiristas que abordaram Brandon fizeram das tripas coração para ele parecer o mais canalha dos canalhas. Odiar Brandon é uma tarefa fácil para quem assistir dois minutos dele em câmera. Mas como isso é um problema, seu crítico chato? Simples. Fica mais fácil aceitar a barbaridade cometida por Travis. Odiamos os jovens e aceitamos que eles merecem mortes horríveis. Perdoamos Travis por ele agir de maneira enlouquecida logo após saber do assassinato do filho. Dependendo de como for o espectador, será até mesmo tranquilo aplaudir a forma como os dois são mortos, com o uso de violência extrema (confesso que o diabinho no meu ombro adorou…). Mas e se? Lá vou eu com um “e se” novamente… E se Brandon fosse um rapaz simpático? Alguém que gostássemos? Alguém com quem pudéssemos nos relacionar. Teríamos um protagonista indubitavelmente monstruoso em Travis e não alguém que, de certa forma, aplica a versão “apocalipse zumbi” da Lei de Talião. Possibilidades, possibilidades…

Mas Wrath é também muito interessante do lado de Nick, que tenta convencer um Alejandro desmascarado a mandar embora sua comunidade em razão do ataque iminente da gangue de Marco. As metáforas do falso profeta e do papel cegante da fé (fúria e fé cegas andam de braços dados…) ganham o centro do palco e o desespero de Nick é palpável.

Quando North começa, ele logo aborda o suplício de Travis em forma de epílogo, com a regra criada por Madison sendo usada contra seu marido e forçando-a a decidir ir com ele e Alicia para o banimento do hotel. Não havia outra solução ali, mas Andrew Bernstein escreve um roteiro que vai ainda um pouco além, fazendo com que a morte de Oscar catalise novos atos de violência especialmente por Andrés, o que força outro ato de violência, este inesperado: Alicia mata o descontrolado rapaz. A jovem madura é forçada a crescer ainda mais e, ainda que seu personagem não tenha mostrado seu potencial, Alycia Debnam-Carey tem seu breve momento para brilhar.

Mas North atropela a cadência narrativa logo quando o hotel é abandonado. Madison, Travis e Alicia se materializam no armazém agora vazio de Marco, levando-os à cidadela de Alejandro. O que vemos, nesse meio tempo, é o grande plano de fuga de Nick dar certo – até aquele momento – com Alejandro sacrificando-se por seu rebanho, tendo um fim digno considerando o quanto ele teve que mentir para chegar àquele ponto. Mas a correria continua e toda a sequência da invasão de Marco e seu bando à comunidade é apressada, quase que como algo que o roteiro queria livrar-se logo. O mesmo vale para o trio quicando de um lugar ao outro atrás de Nick e convenientemente encontrando Alejandro ainda vivo.

Outro problema é a quantidade de finais. Mesmo não sendo muito maior que o tempo regulamentar – North tem quatro minutos a mais que Wrath, mas parece ter 20 – o último episódio perde fôlego ao trafegar de um momento ao outro sem saber parar, culminando com a chegada na fronteira da “terra prometida” (Nick é o novo Moisés), somente para descobrir que ele não consegue abrir o Mar Vermelho, algo que fica claro pelo ataque da milícia, que faz, então, ligação com o prelúdio com Ofelia em North, que parece lidar com o mesmo tipo de americanos anti-imigrantes em um discurso politizado atual.

De toda forma, ambos os episódios não fogem de mostrar muito sangue e gore. Em determinados momentos, como na operação cranial em Oscar e no “fura olhos” de Nick, dá a impressão de estarmos vendo aqueles filmes trash dos anos 80. Mesmo para os padrões das duas séries criadas por Robert Kirkman, o nível de sanguinolência nessa dupla de episódios é bastante alta, se não for a mais alta. E isso é bom, pois mostra que, pelo menos em tese, Erickson tirou suas luvas brancas e pretende ir com tudo para a 3ª temporada.

Se estou esperançoso para o que vem por aí? Olha, a 2ª temporada me desapontou em diversos níveis, com muito mais episódios ruins do que medianos para bons. Ainda que a trinca final tenha elevado consideravelmente o nível, a série ainda precisa se provar. Mas uma coisa é certa: Wrath e North deixaram muito claro o potencial da série e não dá para largar esse potencial assim, sem mais nem menos.

Fear the Walking Dead – 2X14 e 2X15: Wrath / North (EUA, 02 de outubro de 2016)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Stefan Schwartz (Wrath), Andrew Bernstein (North)
Roteiro: Kate Barnow (Wrath), Dave Erickson (North)
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Mercedes Mason, Lorenzo James Henrie, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Andres Londono, Brenda Strong
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica: Canal AMC
Duração: 41 min. (Wrath), 45 min. (North)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.